Pages

TRADUTOR

Showing posts with label Amor. Show all posts
Showing posts with label Amor. Show all posts

Saturday, February 10, 2018

Há palavras que nos beijam





Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.






Alexandre O'Neill

Wednesday, January 17, 2018

MAPA




Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,depois chego à consciência da terra, ando como os outros,me pregam numa cruz, numa única vida.Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos. Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar, alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,o mundo vai mudar a cara,a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas. Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,me aninharei nos recantos do corpo da noiva,na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.Detesto os que se tapeiam,os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,dos amores raros que tive,vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,estou no ar,na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,no meu quarto modesto da praia de Botafogo,no pensamento dos homens que movem o mundo,nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,sempre em transformação.







POEMA: MURILO MENDES

ARTE: TOM COLBIE

Wednesday, September 27, 2017

SAUDADES BÁRBARAS








eu guardo até hoje essa doce lembrança que você deixou
ouço tua voz no álbum da memória que você gravou
no palco da esperança, o sonho baila numa dança
os passos tristes que tão torpe destino coreografou

essas lágrimas tão sofridas que agora brilham nos meus olhos
refletem a dor dessa saudade, pois ainda quero o teu amor
eu bem sei que já é tarde, mas meu coração feito em pedaços
canta a canção dos teus abraços, vivendo um show que se acabou

dói-me saber ao fim que o fim roubou de mim toda alegria
do romance mais feliz, a solidão é tudo que restou
vejo o teu sorriso noite e dia no espelho da poesia
sob a luz da fantasia, sol voraz que o tempo congelou

a lua que reluz em meu terraço ilumina meu cansaço
e deixa claro teu descaso que em abandono me deixou
eu uso de toda a minha coragem pra preencher esse espaço
frio e malfadado que no fundo do meu peito se criou

de bar em bar eu bailo e bebo aos vis acordes da tristeza
de dose em dose mais uísque, outra cerveja, e um cigarro a arder
queimando a toalha sobre a mesa, como queima essa certeza
de ter agido errado, mesmo assim eu não quero te perder

& hoje, enquanto escrevo esse poema, navegando na má sorte
vida ou morte é o meu dilema, sofro mais do que imaginas
sem você meu mar já não tem norte por favor me abraça forte
na deriva das esquinas, não tenho versos, estou sem rimas





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

A PISTA







no frio
de uma manhã imprevista
acordei sem teu sorriso à vista
procurei tua voz
com ouvido de musicista
mas
só achei uma saudade louca, sadista
cruel a me lembrar
nossa paixão anarquista
e tudo que em ti
me seduz & conquista

perdido em meio
a esse furor saudosista
chorei por ti,
calado como um seminarista
recriei o teu rosto
como um desenhista
& como uma vontade
que em si mesma insista
busquei a luz ônix
do teu olhar ametista

então,
na memória acesa
feito fé sebastianista
tua fala doce & macia
em mim repetia:
não desista!
uma princesa
sempre deixa uma pista






POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Thursday, June 22, 2017

OS TRÊS MAL AMADOS



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.



POEMA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO
ARTE: TOM COLBIE

Tuesday, April 11, 2017

COM LENTO AMOR




Com lento amor olhava os dispersos

Tons da tarde. A ela comprazia

Perder-se na complexa melodia

Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos

Fiaram seu destino delicado,

Feito a discriminar e exercitado

Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar neste perplexo

Labirinto, olhava lá de fora

As formas, o tumulto e a carreira,

Como aquela outra dama do espelho.

Deuses que habitam para lá do rogo

Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.






Poema: J.L.Borges
Arte: Tom Colbie

Saturday, May 03, 2014

UM PARQUE DE DIVERSÕES DA CABEÇA



 27



              Pavões caminhavam
         no lu(ar) desaparecido
                     sob as árvores
                                       da noite

                       quando eu saí
                            à procura de amor
          naquela noite


              Um pombo-coleira gemeu no esconderijo
Um sino soou duas vezes
                                 Uma, para o nascimento
               e uma para a morte
                                         do amor
                                                   naquela noite







Lawrence Ferlinghetti


[Trad.: Marcello Chalvinski]





Original
_____________________

A Coney Island of the mind
Lawrence Ferlinghetti



27

Peacocks walked
under the night trees
in the lost moon
light

when I went out
looking for love
that night


A ring dove cooed in a cove
A cloche tolled twice
once for birth
and once for the death
of love
that night

Sunday, February 24, 2013

A ÁTIS




Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:
"Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo". "Seja feliz", eu disse,
"E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Quantas grinaldas, no seu colo,
– Rosas, violetas, açafrão –
Trançamos juntas! Multiflores
Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele!
[...]
Cama macia, de sua beleza
o amor nascia, e eu matava
A sua sede" [...}
Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, ardente.
— Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
— Não volto mais para você,
Para você não volto mais.



Safo

Friday, February 08, 2013

AUSÊNCIA



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




Poema: Vinícius de Moraes

Arte: Tom Colbie

Tuesday, February 05, 2013

CONFISSÃO




esperando a morte
como um gato
que vai saltar sobre a
cama

estou muito triste por
minha mulher

ela vai ver este
corpo
branco
duro

agitá-lo uma vez, depois
talvez
agitá-lo novamente

"Hank!"
Hank não vai
responder.

não é minha morte que
me preocupa, é minha mulher
deixada só com este
monte de
nada.

Entretanto
eu quero
que ela saiba
que todas as noites
dormidas
ao seu lado

& até mesmo
as discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

& as
palavras
difíceis
que eu sempre tive medo
de dizer
agora podem ser
ditas:

Eu te amo





Poema: Charles Bukowski 
Tradução: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie





Confession

waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed

I am so very sorry for
my wife

she will see this
stiff
white
body
shake it once, then
maybe
again

"Hank!"
Hank won't
answer.

it's not my death that
worries me, it's my wife
left with this
pile of
nothing.

I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her

even the useless
arguments
were things
ever splendid

and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:

I love
you. 


Charles Bukowski

Sunday, February 03, 2013

O FIM DO MUNDO É O AMOR






COMEÇO

o amor é o começo do mundo
o amor é o meio do mundo
o amor é o fim do mundo



MEIO

o começo do mundo é o amor
o meio do mundo é o amor
o fim do mundo é o amor



FIM

o mundo do amor é o começo
o mundo do amor é o meio
o mundo do amor é o fim


recomeço?





Marcello Chalvinski – Jardim das Maravilhas – Brancaleone Editores 2013


Wednesday, January 30, 2013

VIAGEM AO INTERIOR DA PÁGINA






não.
não invento o poema.
ele, meu amor sonhado,
é o sortilégio do teu sorriso santo.

não invento o poema.

vindo
de onde vêm os poemas
é o poema
que me inventa
no papel em branco.





M.Chalvinski in D.Juan Flâneur - Brancaleone Editores

Sunday, July 08, 2012

SUSANA BOMBAL









No alto da tarde, altiva e elogiada
Cruza o jardim casto & está na exata
Luz do instante irreversível e puro
Que nos dá este jardim e a alta imagem
Silenciosa. Eu a vejo aqui & agora
Mas também a vejo no antigo
Crepúsculo de Ur dos Caldeus
ou descendo as escadas lentas
de um templo, que é a poeira inumerável
do planeta e que foi pedra e soberba,
ou a decifrar o mágico alfabeto
das estrelas de outras latitudes
ou a cheirar uma rosa na Inglaterra.
Está onde está a música no leve
azul, no hexâmetro grego,
na solidão nossa que procuram,
no espelho d’água da fonte
no mármore do tempo, numa espada,
na serenidade de um terraço
que divisa ocasos e jardins.
E por trás dos mitos e máscaras,
a alma que está sozinha.








Jorge Luis Borges
[Trad.: Marcello Chalvinski]





Susana Bombal


Alta en la tarde, altiva y alabada,
cruza el casto jardín y está en la exacta
luz del instante irreversible y puro
que nos da este jardín y la alta imagen
silenciosa. La veo aquí y ahora,
pero también la veo en un antiguo
crepúsculo de Ur de los Caldeos
o descendiendo por las lentas gradas
de un templo, que es innumerable polvo
del planeta y que fue piedra y soberbia,
o descifrando el mágico alfabeto
de las estrellas de otras latitudes
o aspirando una rosa en Inglaterra.
Está donde haya música, en el leve
azul, en el hexámetro del griego,
en nuestras soledades que la buscan,
en el espejo de agua de la fuente,
en el mármol de tiempo, en una espada,
en la serenidad de una terraza
que divisa ponientes y jardines.
Y detrás de los mitos y las máscaras,
el alma, que está sola.



Jorge Luis Borges


Monday, June 25, 2012

A DAMA MELANCÓLICA



ela fica lá em cima
bebendo vinho
enquanto o marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas revistinhas
teve dois ou
três de seus finos
volumes de poemas
mimeografados
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a mulher bonita que
costumava ser.
ela envia
fotos de si mesma
sentada sobre uma rocha
junto ao oceano
sozinha e condenada.
Eu poderia ter tido
ela uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia tê-la
salvado?
em todos os seus poemas
Seu marido
nunca é mencionado.
mas ela costuma
falar sobre seu
jardim
por isso sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os passarinhos
antes de escrever
seus poemas.



CHARLES BUKOWSKI
[Tradução: Marcello Chalvinski]

Monday, May 07, 2012

O JARDIM DO AMOR



Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi algo jamais avistado:
No centro havia uma Capela,
Onde eu brincava no relvado.

Tinha os portões fechados, e "Proibido"
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Que outrora dera tanta flor bonita,

E vi que estava cheio de sepulcros,
E muitas lápides em vez de flores;
E em negras vestes hediondas os Padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.





WILLIAN BLAKE

Monday, April 23, 2012

BARBIE PROCURA NAMORADO





De vestido, bolsa e sapatos rosa ela desfila sua graça pela Nauro Machado, praça onde acontece parte das festividades do pré-carnaval, no palco Tião Carvalho com o cavaquinho e poderosa banda anima os foliões ao som do Baralho, não são muitos os que dançam e a praça está quase vazia, pois a hora é cedo. Sozinha. Espalha sua beleza vestindo uma peruca escandalosamente branca. Seus olhos buscam conhecidos, amigos, amigas. Conversa aqui. Conversa acolá. Uma latinha de cerveja. Ninguém é de ferro. Êh! Menina, quanto tempo. Beijos, abraços, alegria esfuziante. Quanto tempo, pois é, casei, agora estou mais em casa. E tu, sempre bonita, tá só? nesse carnaval? não acredito? pois eu estou com o Igreja há mais dois anos, sabe como é casamento, a gente fica mais em casa, e tu. Saí um tempo aí com o Daniel, mas sabe o cara é cheio de pose, machisssta, ciumento, é um cara legal, no fundo um tímido inseguro, saímos muitas vezes, mas não quis ficar com ele, até dei uns beijos nele. Acho que gorou, fomos ficando cada vez mais competitivos um com o outro, ele pra provar que era macho ia ficando com umas e outras, eu também fui arranjando uns e outros, que eu não sou de perder pra buchudo, agora ele casou, encontrou uma menina se apaixonou, coisa da vida. mas estou bem o que não me falta é pretendente, basta eu fazer assim oh que tá aqui na minha mão. rssss... Olha esse coroa, bonito, gosto de cara assim... É o Alberto, é músico, liso, sabe como é essa moçada da música vive no vermelho, mas dizem que é muito bom de cama. Me apresenta. Alberto, toma um chopp aqui com a gente, te apresento minha amiga. Prazer sou Barbie e não faz esta cara de espanto, mamãe gostava da boneca, que é isso, o nome combina com você, é, hoje eu estou no personagem. Tem festa hoje no Labô. É uma boa,vamos lá. vamos. antes que chova, não demora chover. Ferveção geral. Fofões, super heróis, bruxas, mulher das cavernas, nêga maluca, confetes e serpentinas. Perdem-se no salão. Cada um pra seu lado. O rosa vestido de Barbie confundia-se com o rosa vestido de Nôni, jovem artista, vestido de mulher e esmerando-se na interpretação. A cervejinha. O cigarro envergonhado pelos cantos. No banheiro o discreto movimento do bright. Normal em toda festa. A fome atacara Alberto que se sacia com peixe frito, arroz e vatapá. O tempo despeja água em profusa chuva de sons e afastado do salão ele conversa com Araújo amigo de música, de vida. Conversa sem pressa. Dois pra lá, dois pra cá. Espremem-se no corredor ajanelado da casa, passagem dos que vão ao banheiro, dos que vão ao bar. Balcão. Os sons diminuem e os pingos não amedrontam os foliões suarentos a buscar uma fresca. Um casal divide, a gelada, e a conversa embevecidos, ele pelos encantadores olhos adornados de sorriso rosa, ela pela prosa, as conversas, amigas, iphone. Os olhos de Barbie permanecem famintos, rodam pelo salão a procura de nada. Um baseado. Alberto sentiu vontade de fumar um. Romão, dançarino e pintor, apresentou. Os dedos haviam enrolado e a língua umedecia a parte exposta da seda para fechar o cigarro, Alberto viu Momo,. Momo viu Alberto. Tu não pode fumar aqui. Posso, vou fumar. Vou chamar o segurança. Chama. Vou acender; acende. O tempo úmido não colabora os pingos sonoros são finos, dificultam a queima. É difícil acender. Não acende isto aí, te peço. Alberto aquiesce. Desce as escadas e encostado ao portal do casarão fuma com Romão, Justina, dançarina, e o flanelinha de sombrinha que se aproxima. A Bandida começa a tocar, o salão pega fogo, homem com mulher, mulher com homem, homem com homem, mulher com mulher, tudo no aceitável mundo do carnal, do carnaval. Saudosas serpentinas, tímidos confetes e inexistente maisena colorem a festa de verdes, dourados, brancos, pretos,paetês, acetatos. Eu fui cozinhar um ovo, mas tinha um pinto dentro, você já pensou se eu cozinho com o pinto dentro. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho com o pinto dento. O cantor agitava o refrão, Nôni descia até o chão rebolando na garrafa. Mulher das Cavernas beija Capitão Gay. Cruz Diabo abraça Fofão. O sons vão silenciando. Para a festa. A Banda. A chuva. Barbie pega uma carona com o casal. Alberto pega um taxi. Segunda-feira de carnaval, carnaval de segunda, Alberto assiste ao tambor de crioula. Desponta de branco, meiga e nada tímida, com enorme peruca rosa, aos beijos com um jovem com uma enorme guitarra tatuada no braço. Oi Barbie.






ZéMaria Medeiros


Tuesday, April 03, 2012

E SE EU DISSER


E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.




IVAN JUNQUEIRA

Monday, March 12, 2012

ANTES DO COMEÇO





Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.


Octavio Paz

Saturday, February 11, 2012

É ASSIM QUE TE QUERO, AMOR



É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda
Arte: Tom Colbie

Monday, November 07, 2011

DIVERBIUM



filamentos lunares
perfuram nuvens
carregadas de hipertextos

ora direis
ouvir estrelas

os casarões da ilha
resistem à gargalhada
atroz dos arranha-céus

salta clown!

o aguaceiro ainda lambe
as pedras de cantaria

&
do alto do parnaso
cérbero espia

vê como é fria
a carne descontextualizada
fina flor dessa agonia

boa noite sol
até um dia
quando eu acabar
com aquela garrafa vadia

(tubulações aéreas
vazam fluido anti-solar)

no ar
o sorriso misericordioso de irene
pende spleen & ideal
fusão sinóptica de idéias
em desnexo visual

antroponáutica
antropofagia
antro pária
vê:
é só demiurgia
eletricidade paliativa
para a fadiga
da orgia

ora direis
ouvir estrelas

o azar é um dançarino

desvirgem
despalavra
desverbo
desfrase
desverso
desrima
a virgem
que encontrei

é crua a vida
alça de tripa & metal

atenta:
loucos são todos em suma

prostitutas de maldoror
ainda uma vez
adeus!

prostitutas de macondo
só vou por onde
me levam meus próprios passos!

prostitutas de pasárgada
ora direis
ouvir estrelas...

toma um fósforo
& acende o teu cigarro

vêm aí
os vagalumes idiotas
os alcalóides à vontade
& as chuvas de quatro anos

ai de ti copacabana
pátria amada
salve
salve-se

se eu fizer poesia
com a tua miséria
sorte no jogo
azar no amor





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Tira-gosto