Eu sou bela, ó mortais! Como um sonho de pedra, E meu seio, onde todos vêm buscar a dor, É feito para ao poeta inspirar esse amor Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.
No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada; Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve; Odeio o movimento e a linha que o descreve, E nunca choro nem jamais sorrio a nada.
Os poetas, diante de meus gestos de eloquência, Aos das estátuas mais altivas semelhantes, Terminarão seus dias sob o pó da ciência;
Pois que disponho, para tais dóceis amantes, De um puro espelho que idealiza a realidade: O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!
E se eu disser que te amo - assim, de cara, sem mais delonga ou tímidos rodeios, sem nem saber se a confissão te enfara ou se te apraz o emprego de tais meios? E se eu disser que sonho com teus seios, teu ventre, tuas coxas, tua clara maneira de sorrir, os lábios cheios da luz que escorre de uma estrela rara? E se eu disser que à noite não consigo sequer adormecer porque me agarro à imagem que de ti em vão persigo? Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro em tua ausência - essa lâmina exata que me penetra e fere e sangra e mata.