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Tuesday, November 20, 2012

LONGE DENTRO DE NÓS - I







Levantamos nossos braços

A rua sobe ao céu

Baixamos nossos olhos

Os telhados descem à terra



De todas as dores

Não mencionamos

Um castanheiro que cresce

E permanece misterioso atrás de nós



De toda a esperança

Nós apreciamos

Os brotos de uma estrela

Que se move inatingível diante de nós



Você pode ouvir uma bala

Voando sobre nossas cabeças

Você pode ouvir uma bala

Esperando para emboscar o nosso beijo









Poema: Vasko Popa
Traduzido a partir do Inglês p/ M. Chalvinski
- Fonte: http://www.sanjeev.net/poetry/
Arte: Tom Colbie

Monday, October 15, 2012

A POESIA





Por que tocas meu peito novamente?
Chegas silenciosa, secreta, armada,
como os guerreiros a uma cidade adormecida;
queimas minha língua com teus lábios, polvo,
e despertas os furores, os gozos,
e esta angústia sem fim
que acende o que toca
e engendra em cada coisa
uma avidez sombria.

O mundo cede e se desmorona
como metal no fogo.
Entre minhas ruínas me levanto,
só, desnudo, despojado,
sobre a rocha imensa do silêncio,
como um solitário combatente
contra invisíveis hostes.

Verdade abrasadora,
para onde me impeles?
Não quero tua verdade,
tua insensata pergunta.
Aonde vai esta luta estéril?
Não é o homem criatura capaz de conter-te,
avidez que só na sede se sacia,
chama que todos os lábios consome,
espírito que não vive em forma alguma
mas faz arder todas as formas
com um secreto fogo indestrutível.

Mas insistes, lágrima escarnecida,
e alças em mim teu império desolado.

Sobes do mais profundo de mim,
desde o centro inominável de meu ser,
exército, maré.
Cresces, tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
aquilo que não cede
a tua espada frenética.
Já somente tu me habitas,
tu, sem nome, furiosa substância,
avidez subterrânea, delirante.

Golpeiam meu peito teus fantasmas,
despertas com meu tato,
gelas minha fronte
e fazes proféticos meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
unidade de minha alma e de meu corpo,
e contemplo o combate que combato
e minhas bodas de terra.

Nuveiam meus olhos imagens opostas,
e às mesmas imagens
outras, mais profundas, as negam,
ardente balbucio,
águas que afogam uma água mais oculta e densa.
Em sua úmida treva vida e morte,
quietude e movimento, são o mesmo.

Insiste, vencedora,
porque tão somente existo porque existes,
e minha boca e minha língua se formaram
para dizer tão somente tua existência
e tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância de minha alma.

És tão somente um sonho,
mas em ti sonha o mundo
e sua mudez fala com tuas palavras.
Roço ao tocar teu peito
a elétrica fronteira da vida,
a treva de sangue
onde pactua a boca cruel e enamorada,
ávida ainda de destruir o que ama
e reviver o que destrói,
com o mundo, impassível
e sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém de forma alguma
nem se demora sobre o que engendra.

Leva-me, solitária,
leva-me entre os sonhos,
leva-me, mãe minha,
me desperta do todo,
faz-me sonhar teu sonho,
unta meus olhos com óleo,
para que, ao conhecer-te, eu possa conhecer-me.


OCTAVIO PAZ



Tradução de Cleto de Assis

Monday, March 12, 2012

METADE PÁSSARO




A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.





Poema: Murilo Mendes
Arte: Tom Colbie

Monday, November 07, 2011

DIVERBIUM



filamentos lunares
perfuram nuvens
carregadas de hipertextos

ora direis
ouvir estrelas

os casarões da ilha
resistem à gargalhada
atroz dos arranha-céus

salta clown!

o aguaceiro ainda lambe
as pedras de cantaria

&
do alto do parnaso
cérbero espia

vê como é fria
a carne descontextualizada
fina flor dessa agonia

boa noite sol
até um dia
quando eu acabar
com aquela garrafa vadia

(tubulações aéreas
vazam fluido anti-solar)

no ar
o sorriso misericordioso de irene
pende spleen & ideal
fusão sinóptica de idéias
em desnexo visual

antroponáutica
antropofagia
antro pária
vê:
é só demiurgia
eletricidade paliativa
para a fadiga
da orgia

ora direis
ouvir estrelas

o azar é um dançarino

desvirgem
despalavra
desverbo
desfrase
desverso
desrima
a virgem
que encontrei

é crua a vida
alça de tripa & metal

atenta:
loucos são todos em suma

prostitutas de maldoror
ainda uma vez
adeus!

prostitutas de macondo
só vou por onde
me levam meus próprios passos!

prostitutas de pasárgada
ora direis
ouvir estrelas...

toma um fósforo
& acende o teu cigarro

vêm aí
os vagalumes idiotas
os alcalóides à vontade
& as chuvas de quatro anos

ai de ti copacabana
pátria amada
salve
salve-se

se eu fizer poesia
com a tua miséria
sorte no jogo
azar no amor





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Thursday, September 22, 2011

O PLANO



O BEM SEMPRE VENCE

...MAS O MAL RESISTE









SOBRE A SEGURANÇA DE LER ESTE LIVRO




Se o veneno, a paixão, o estupro e a punhalada
Não puderam bordar com seus curiosos planos
A talagarça vã dos destinos humanos
É que nossa alma enfim não é bastante ousada

Charles Baudelaire




            Certo dia, ainda adolescente, reuni alguns amigos de esbórnia, com o firme propósito de massacrar o tédio. O resultado, além da avassaladora ressaca alcoólica, foi um conjunto de lembranças confusas e, talvez, esta história. Tudo começou na praia. Entre o chacoalhar de um copo e outro, filosofávamos sobre comportamento humano, com a dionisíaca euforia do uísque. A variação de conceitos e a divergência de opiniões deveriam ter criado abismos entre nós. Mas, alguém teve a idéia e decidimos iniciar o jogo: testaríamos nosso caráter analisando supostas reações individuais diante de situações de extremo risco, inspiradas em livros, filmes ou simplesmente tiradas dos noticiários. Puro exercício de imaginação.
Combinamos as regras de pontuação a partir de um raciocínio assumidamente maniqueísta e, legitimados por condições hipotéticas suficientemente nobres para nos tirar o peso da culpa, partimos para a aventura cerebral. Um assalto a banco era o ponto de partida. Logo que a brincadeira começou, percebi que haveria vencidos. Mesmo assim prossegui, movido sei por quais intenções, trocando idéias mirabolantes que, aos nossos olhos, formavam magicamente o plano do crime imperfeito que iríamos executar.
Talvez esperasse algo positivo ao final. Mas o que sobrou daquela noitada etílica serviu apenas para trazer à luz o quanto de terrível e cruel pode irromper na mente de quem se acuado no jogo da vida. No fim de tudo, sem confessar, temíamos uns aos outros e eu temia pela minha descoberta. Não poderia mais confiar em ninguém. Havia experimentado, através daquela sinistra brincadeira, um exercício de maquiavelismos que jamais imaginara. Entretanto, rompendo a sinergia dos maus fluidos, minhas rotas no oceano da existência levaram-me para longe dos outros jogadores. Em ensolarados oito anos de Brasil, vivi um navegar intenso e quase sempre extasiante. Ao atravessar o asfalto entre uma praia e outra juntava em poemas os versos divertidamente loucos que a vida me ditava. Do jogo mórbido, na memória, quase nada sobrara. Eu respirava um verão de alma e me nutria de uma felicidade docemente despreocupada.
Por obra mais do ocaso que do acaso, um dos jogadores me apareceu ostentando um sorriso largo e luminoso debaixo do olhar bandido. Aquele encontro em São Luís fazia renascer uma antiga alegria e de pronto, como nos áureos tempos das grandes farras,  sugeri que fôssemos a certo bar da Praia Grande. Éramos dois viajantes do fim do mundo, com as naus lado a lado no porto mágico do fim da tarde. Assim que os uísques chegaram, contei a ela sobre o meu Anjo na Fauna, estendendo-lhe o mais rápido que pude um exemplar matreiramente autografado. Ancorados na mesa tosca, conversamos poesia, música, viagens e – devo admitir –,  resisti em perguntar-lhe sobre o jogo não mais que o tempo de três rodadas. Quando o fiz, fui dissecado por um olhar miúdo e informado de um jeito mudo que não falaríamos sobre o assunto.
andava às voltas com o quinto uísque quando, sem qualquer resistência, me deixei conduzir pelos escuros e tortos caminhos de uma narrativa assombrosa. As explanações da moçanão obstante o largo consumo de bebida –, eram feitas de forma absolutamente comedida e minhas reações, controladas por cuidadosa embriaguez. O quadro, contudo, fazia-se complexo, com imagens sobrepostas e situações recorrentes.
Não tardei a ser fisgado pela essência diabolicamente literária de sua históriaainda que me inquietasse uma terrível relação com o jogo da juventude. Decidido a escrever sob inspiração de suas narrativas, engendrei outros encontros para ouvi-la e durante dias me entreguei às suas histórias. Sem esperança nem temor, juntei em anotações tudo que retive, não me importando padrões de comportamento, princípios éticos ou morais ou seja o que for. Tudo é para ser dito. Realidade e imaginação. Mentira e verdade. Insanidade e razão. É assim que escrevo. É assim que quero escrever.
Instigado pelo delírio, O Plano bebeu abundantemente no copo da vida, antes de tombar embriagado e manchar a brancura virgem das páginas que advêm. E, tendo eu acrescentado às impressões resultantes de minhas estranhas audições, as pinceladas mais cintilantes e cruéis da fantasia, sinto-me no dever de precaver o leitor quanto aos possíveis abalos. A maldade está por toda parte, descaradamente explícita ou maliciosamente oculta. Tudo quanto é humano conspira. E, se não o é, também. As trilhas em que os episódios se sucedem são escorregadias e obscuras, embora permitam viajar a partir de qualquer ponto, em qualquer direção, dispensando a linearidade. Quase sempre é noite e quase sempre chove, mas, mesmo sob o sol, cada história leva a uma armadilha e cada armadilha, a uma nova história.
Logo à frente, revestida de enigmáticos ímãs, está a trama que gira. Nem tudo que se diz é verdade. Nem toda verdade faz sentido. Uma virgem sodomita e um suíno gordo apaixonado. Uma cantora de blues e um terrorista desmemoriado. Potestades em conflito, loucos, bandidos, aflitos... Para juntar as peças e saber no que vai dar, é preciso, antes, superar as flechas geladas do medo. Por trás desta página, rangem os portais dos reis do inferno e marcham contra nós os seus estandartes. Vencidos os embargos, lasciate ogni speranza voi ch’entrate! (1)







O PLANO - Marcello Chalvinski - Brancaleone Ed.- 2007 (ADVERTÊNCIA AO LEITOR)






(1) Vós que entrais abandonai toda esperança.
Inscrição à porta do Inferno, na Divina Comédia,
de Dante. 



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Tira-gosto