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TRADUTOR

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Tuesday, March 20, 2018

ARMADILHAS







Meu anzol canhoto
Meu taco mestiço
Meu laço de prata
Meu fogo a queimar
Meu fojo profundo
Meu feitiço

Minha verve
Todo meu mundo
Minha arapuca
Meu landruá

Minha rede de arrasto
Meu visgo
Minha tarrafa de asa
Umas garrafas de cabernet
Um blues, meia luz
Meus ardis
Meu alça-pé, meu alçapão


O meu jequiá
A minha armação
Meu isqueiro de aço
Minha emboscada
Uma verdade rasgada
Tudo que tinha
Sem faltar nada

Infinitas maravilhas
Todas as armadilhas
Só pra pegar teu coração.





Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

Tuesday, February 06, 2018

A AMADA




Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.
Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.
Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.
Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
Tudo se deve tentar.




Safo, de Lesbos

Friday, August 11, 2017

SETE ESTROFES PARA ALÉM DA FALA






















1.
para voltar a ser anjo
é preciso perder a alma
não há outra saída
a imortalidade
é tão cruel
quanto a vida

2.
minhas palavras
gotejam em tua boca
& por um momento
nuvens mínimas
umedecem
as asas íntimas
do teu pensamento
mulher do fim do mundo
que rega as roseiras da primavera
chama-me do sono profundo
livra-me de todos os infernos
& prende-me a esta era
em que teu canto noturno
é capaz de aquecer toda a terra

3.
não voltarei a ser anjo
prefiro essa alma ébria,
incompleta centelha
que se deixa arrastar
por metáforas incompletas
& bebe verbosa
nos bares da cidade velha

4.
sim! entorpeço-me de horror
& maravilhas
sim! entorpeço-me
pois preciso do teu calor
& do teu brilho
é nesse estado de coisas
que os verbos perdem o siso
& os substantivos ganham delírio

5.
enlevadas pelo teu olhar,
as pedras agora podem mostrar
sua verdadeira face
a nós dois, audazes
& também à manada dos normais.
elas se desprendem das ruas
& flutuam não muito alto
com engenhos tais
que formam novos becos, ágoras & vielas,
para que possamos enfim
de mãos dadas
caminhar sobre elas

6.
abraçadas a uma sombra única,
as nuvens se aproximam
& entram por tua boca úmida.
mas nuvens & sombras são incapazes
de deter o teu sorriso iluminado
ou de evitar o brilho esfomeado
desses teus olhos vorazes
olhos que atravessavam pelos cabelos
& sorrateiros miram disfarçados
como um felino de finos pelos
em meio à selva camuflado

7.
agora,
enquanto por tua boca falo,
na velocidade plástica do cinema,
percebes que meu sonho persiste
em seu sólido sistema:
quero em mim esse olhar que afeta
esse par de olhos que assiste
silencioso à escrita que me faz poeta.
musa, alma gêmea, fêmea dileta, noema
alitera-me a imaginação & me completa
com tudo que há do outro lado do poema







Poema de Marcello Chalvinski

Prêmio 1º Lugar - Festival de Poe
sia da AMEI - 2017

Arte: Tom Colbie

Thursday, June 22, 2017

OS TRÊS MAL AMADOS



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.



POEMA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO
ARTE: TOM COLBIE

Wednesday, June 21, 2017

ROSA GALEGA







só uma rosa há
estilizada & tua
com o perfume
que exalas nua

princesa grega
delgada & leve
Rosa Galega
branca de neve
tua flor-poema
paixão se escreve

há em torno de ti
um calor que flutua
feito canção
& nem mesmo
a mais bela lua
abala tanto
meu coração


Monday, May 08, 2017

CÂNTICO NEGRO










"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!






Poema: José Régio


Arte: Tom Colbie



Tuesday, February 14, 2017

COISA REAL




Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,


Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.


Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,


Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.


Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,


São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano


Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.








Poema: Nauro Machado
(in Percurso de Sombras)
Arte: Tom Colbie

Friday, November 14, 2014

QUIMERA




Não vês, menina, o outono
desfolhar a minha vida?
Sonhos desfeitos em abandono,
longa estrada percorrida?
E me vens assim tão destemida
dizer que amas a minha solidão,
tu, quase menina ainda,
a oferecer-me pétalas de ilusão.
Mal sabes do que é feito
um poeta já sem inspiração,
desencantado de sonetos,
tantas cicatrizes no coração.
Vais, esquece essa quimera:
tu és o amanhã, o sonho;
eu, o que não mais se espera –
não pode, meu amor, o outono
abraçar a primavera.





Alex Brasil

Thursday, January 02, 2014

LUZES DA CIDADE



Un destin n’est pas une punition.
Albert Camus – Le Donjuanisme





hoje sei:
as noites
são sempre líquidas

& as luzes da cidade
são estrelas

das alturas
posso vê-las

com os meus olhos
de urubu
rei a medir
a doçura detalhada
das minhas vítimas

atravesso ruas amenas
me perco entre as belas
mas sou só
uma sombra que voa
a duras penas






Marcello Chalvinski - Don Juan & o jardim das Maravilhas - 2013
Arte: Tom Colbie

Sunday, December 22, 2013

COISA REAL







Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,

Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.

Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,

Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.

Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,

São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano

Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.



Nauro Machado

(Percurso de Sombras  – Contracapa – 2013)




Sunday, October 27, 2013

SUSTENTÁVEL







capturo sonhos

para salvá-los da extinção

antes de devolvê-los à natureza

dou a eles poemas para comer

ervas para fumar

& alguma realização














Marcello Chalvinski 

Tuesday, October 15, 2013

CONTRAFUGA





A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama.

                                        Schopenhaur 




de mim tudo foge
ah, malditas coisas fugidias!
foge o chão
foge o amor
foge a razão
foge a noite
foge o dia

passei um tempo escrevendo
& outro só imaginando
se você leria

pensei que fosse criação
era demiurgia

meu pensamento fugiu
para um livro de mitologia








M. Chalvinski - D. Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Thursday, September 26, 2013

MEMORY LOST



Desde el trigésimo piso contempla la ciudad por la noche. Borra archivos, memorias.
Algunas retorcidas quedarán en el pensamiento como el edificio de ventanas góticas.
Prisión. Cine Voltaire.

En el alféizar una orquídea. Aislada contra el crepúsculo violeta. Un contorno borrado de
edificios.

Un día de sol. Parejas pasean en el parque. Caminan entre gansos. Niños juegan
en el estanque de arena.

Hipocampo, extraña imagen. Esquinas, caminos que se bifurcan. Como si nunca hubiera
caminado por allí.
Nado em alto-mar, maremoto. Flutuar sobre naufrágios, resíduos. Submersa no que não era – afogamento. Mergulho, viagem marítima. Escapismo, estrelas-do-mar. Sentimentos líquidos.

Ebulição. Dissolução de formas. Novas, transitórias, fluidas. Tensão, polaridade.

Repetição, aprendizado: trajeto contra a correnteza até a margem.

Memória da água. Desenhos na areia, espuma.

Nado en alta ola, maremoto. Fluctuar sobre naufragios, sobre residuos. Sumergida en lo que
no era - ahogo. buceo, viaje. Escapismo de estrellas de mar.
Líquidas sensaciones.

Evaporación. Disolución de formas. Nuevos, transitorios, fluidos. Tensión, polaridad.

Repetición, aprendizaje: trayecto contra la corriente hasta la orilla.

Memoria del agua. Dibujos en la arena, espuma.





VIRNA TEIXEIRA

Thursday, June 06, 2013

O CÃO SEM PLUMAS



I. Paisagem do Capibaribe 
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe 
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe 
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso — ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta — trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe 
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).




João Cabral de Melo Neto 

Monday, April 29, 2013

O POETA




vai-te para longe de mim, hora.
o bater de tuas asas me excrucia.
mas de minha boca, que fazer agora ?
e da minha noite ? e do meu dia ?


eu não tenho amada nem abrigo,
sequer um lugar para viver eu tenho.
todas as coisas em que me empenho
tornam-se opulentas e acabam comigo.








Rainer Maria Rilke

Friday, April 19, 2013

UMA MULHER



Ela estava no círculo familiar como as outras,
Folheando um livro de gravuras:
A noite nos cercava com seus abismos azuis
E a idéia de quase uma floresta próxima.

Alguém acendeu um candeeiro de petróleo,
As pessoas presentes recuaram no tempo.
Ela se levantou para abrir uma vidraça,
E muito branca, toda vestida de preto,
Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes,
Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota,
Hélices mexendo, mãos a correr no teclado.
Quando sentou-se era outra vez a mulher.







Murilo Mendes

Wednesday, March 06, 2013

TÃO LOUCO QUANTO SEMPRE FUI







bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.


o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada


antes que a luz
se apague


bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.


algumas pessoas me dizem que sou
famoso.


o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?


sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4° andar -
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado


ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:


68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária


aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.



Charles Bukowski

Wednesday, February 20, 2013

O INFERNO DE WALL STREET





1 (O GUESA, tendo atravessado as ANTILHAS, crê-se livre 
dos XÈQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE ;  
a Voz dos desertos :)

— Orpheu, Dante, Æneas, ao inferno
Desceram  ; o Inca ha de subir . . . 
 == Ogni sp'ranza laciate,
   Che entrate . . . 
— Swedenborg, ha mundo porvir ? 

2 (Xèques surgindo risonhos e disfarçados em Railroad-
managers, Stockjobbers, Pimpbrokers, etc., etc., 
apregoando :)
— Harlem !  Erie !  Central !  Pennsylvania !
== Milhão !  cem milhões !!  mil milhões !!!
 — Young é Grant !  Jackson,
   Atkinson!
Vanderbilts, Jay Goulds, anões !

3 (A Voz mal ouvida d'entre a trovoada :)
— Fulton's Folly, Codezo's Forgery . . . 
Fraude é o clamor da nação!
 Não entendem odes
   Railroads  ;
Paralela Wall-Street á Chattám . . . 

4 (Correctores continuando :)
— Pygmeus, Brown Brothers !  Bennett !  Steuart !
 Rotschild e o ruivalho d'Astor !!
  == Gigantes, escravos
      Se os cravos
  Jorram luz, se finda-se a dor ! . . 

5 (NORRIS, Attorney  ; CODEZO, inventor  ; YOUNG, Esq., 
manager ;   ATKINSON, agent ;   ARMSTRONG, agent ; 
RHODES, agent ;  P. OFFMAN  &  VOLDO, agents ; 
algazarra, miragem  ; ao meio, o GUESA :) — Dois !  trez !  cinco mil !  se jogardes,
Senhor, tereis cinco milhões!
  == Ganhou !  ha !  haa !  haaa !
   — Hurrah !  ah ! . .
— Sumiram. . . seriam ladrões ?  . .

6 (J. MILLER nos tectos do tammany wigwam desenrolando 
                          o manto garibaldino :)
— Bloodthirsties !  Sioux !  ó  Modocs ! 
A’ White House !  Salvai a União,
 Dos Judeus !  do exodo
  Do Godo ! 
Da mais desmoral rebellião ! 

7                                  (Mob violentada :)
— Mistress Tilton, Sir Grant, Sir Tweed,
Adulterio, realeza, ladrão,
 Em masc'ras nós (rostos
  Compostos)  
Que dancem á eterna Linch Law !

8                         (RMO. BEECHER pregando :)
— Só Tennyson, só, só Longfellow,
S'inspiram na bôa moral :
 Não strikers Arthurs,
  Donahues,
Nem Byron João, nem Juvenal ! 

9 (TILTON  gemendo com as dôres de cabeça de JUPITER :)
— Pallas !  Pallas !  sermão de Sátan ! 
Cheira a corno a beecher moral ! 
 Hui !  sermões de chamma
  Madama  
Ouviu de Plymouth ao zagal ! 

10 ( JOANNES-THEODORUS-GOLHEMUS pregando em BROOKLYN :)
— Rochedo de New Marlborough ! 
Grutta de Mammoth !  a Mormão
 Palrar antes fôras ! 
  Desdouras
Púlpito ond' prégou Maranhão ! 

11                 (BEECHER-STOWE e H. BEECHER :)
— Mano Laz'rus, tenho remorsos
Da pedra que em Byron lancei  . . .  == Caiu em mim, mana
  Cigana ! 
Elle, á gloria ;  eu, fóra da lei ! 

12          (Dois renegados, catholico, protestante :)
— Confiteor, Beecherô . . .    L'Epouse
N`eut jamais d'aussi faux autel ! 
 — Confiteor . . .  Hyacinth
    Absinth,
Plymouth was barroom, was bordel  !

13 (Ambos em LIEDERKRANZ folgando á confissão :)
— Abracadabra !  Abracadabra ! 
Mahomed melhor que Jesus
 Entende a mulher
      E o não quer
Nos céus quem da terra é a cruz ! 

14 (Muitos libertadores da consciencia, catholica, pro-
               testante, unitaria  ; CONFUCIUS :)
— O’ prínc'pe Bismarck, aos Jesuitas ! 
== São Bartholomeu, aos Maçons ! 
 — Aos taes divindades
    Trindades ! 
== Fu !  christophobia em Mormons ! 

15 (SAMARITANAS pretas vendendo ponche no templo de 
                                 ZYON :)
— Halloo !  fonte esta é de Bethsaida ! 
O gado ahi bebeu de Jacob ! 
 Senhores Jesus,
  A este jus
Noé temperava o gogó ! 

16 (HIEROSOLYMITANAS brancas vendendo ‘beijos a 25
               cents, nas church fairs ’  :)
— Africa borrou toda a América,
Qual guaribas ao caçador ;
 Muito o Indio queria : 
  Honraria
E Deus de Las Casas e amor ! 

17 (TILTON  gemendo e reclamando  $ 1,0 por damages 
                       á sua honra-MINERVA :) — Todos teem miseria de todos,
Stock 'xchanges, Oranges, Ô !  Ô ! 
 Miseria teem todos :
  São doudos,
Se amostram ;  sabios, if do not.

18 (Fiéis   esposas   encomendando   preces   por   seus 
maridos que só teem gôsto pelo wiskey e a morphina  ; 
                                         MOODY :)
— Ai !  todo o Hippodromo os lamente ! 
Resai, Mister Moody, p'r'os reus . . . 
 == Temp'rança, cães-gosos
    Leprosos ! 
Sois que nem conversos Judeus ! 

19 (Pretty girls com a BIBLIA  debaixo do braço :)
— Testamento Antigo tem tudo ! 
O Novo quer sanctas de pau . . . 
 Co'o Book  jubilante
  Adelante,
City bell's, ao lager anyhow !

20 (DUQUE ALEXIS recebendo freeloves missivas  ; 
                         BRIGHAM :)
— De quantas cabeças se fórma
Um grande rebanho mormão ? 
 == De ovelha bonita,
  Levita,
Por vezes s'inverte a equação.

21 (Pretty-girl moribunda em NEWARK ‘ stupefied with 
liquor nos bosques e visitada por vinte e três ’ 
satyros :)
— Hui !  Legião, Venus-Pandemos !  
Picnic, O !  Christãos de Belial ! 
 Paleontologia ! 
  Heresia
Preadã !  Gábaa protobestial ! 

22 (Hymnos de SANKEY  chegando pelo telephono a 
                      STEINWAY HALL :)
— O Lord !  God !  Almighty Policeman ! 
O mundo é ladrão, beberrão,
 Burglar e o vil vandalo   Escandalo
Freelove . . .  e hi vem tudo ao sermão ! 

23 (Yankee protestante em paraense egreja catholica :)
— Que stentor !  que pancadaria
Por Phallus, Mylitta !  Urubú,
 Pará-engenheiro :
  Newyorkeiro
Robber-Indio . . .  bailo o tatú ! 

24                   (LINNÆUS, SYSTEMA-NATURÆ :)
— Animal reino é reino egoísmo,
Amor, nutrição, religião ;
 Só é liberal
    Vegetal,
Mineral, ou o sem coração.

25 (Astronomicas influencias, CANCRO e CAPRICORNIO :)
— São freeloves Ursas do Norte ;
Ped'rasta o Cruzeiro do Sul . . . 
 == A yanky !  o carioc !
         Stock, stock,
Minotauro e de Io o ôlho azul ! 

26              (MOODY, no espirito de EZEQUIEL :)
— Ai, humanidade (qual França
Sevandija ao p'tit Napoleão)
 Quer ferro candente ! 
  Eloquente  
Dom Bismarck é mais que o sermão ! 

27 (White-girl-five-years ao lynchado luisiano negro
                          C. ATKINSON :)
— Comer pomo edeneo (má fructa)
É morte e o paraíso perder ! 
 Nem mais Katy-Dids
  Nas vides
Ouvir do innocente viver.

28 (OSCAR-BARÃO em domingo atravessando a TRINDADE, 
assestando o binoclo, resmirando, resmungando de 
tableaux vivants, cortejando : o povo leva-o a  trambolhões para fóra da egreja :)
— Cobra !  cobra !  (What so big a noise ?  !  . . )
Era o meu relogio . . .  perdão !  . . 
 São ‘ pulgas ’ em Bod . . . 
  Me acode !  !  . . . 
== God ?  Cod !  Sir, we mob ;  you go dam ! 

29         (PATHFINDER meditando á queda do NIAGARA :)
— Oh !  quando este oceano de barbaros,
Qual esta cat'racta em roldão,
 Assim desabar
  A roubar . . . 
Perdereis, Barão, até o ão !

30 (OSCAR - BARÃO    perdendo   seus   foros   em   PHILIPPES, 
beija o dedo grande do pé  do SANCTO-PADRE e morre 
ROMANO :)
— Foi culpa dos Evangelistas
'Screverem de deante pr'a trás :
 Tal Yankee ao hebreu
  Entendeu
Que heis Biblia a formar Satanaz ! 

31                          (Em SING-SING :)
— Risadas de raposas bebadas ;
Cantos de loucos na prisão ;
 Deshoras da noite
  O açoite ;
Dia alto, safado o carão . . . 

32              (Os guardas, schools-rod-system : )
— Vara e sacco aos loucos amansam,
Com quem perde o tempo Jesus :
== Mais forte que amor
  E’ a dor ;
Mais que ambos é a pública luz.

33 (Juiz pequeno, terrivel julgando em Grand-Jury :)
— ‘ Bolas ’ a órphams ;  reus, ‘ Lamartine
Mendoso ’ e ‘ John Bull jogador ; ’
 Plenaria indulgencia
  D'Olencia ;
E Amaro a enforcar, Promotor !  34                       (V. HUGO e P. VISGUEIRO :)
— Ser cego, ser surdo, ser mudo,
Magistrado, eis a perfeição  . . . 
 == A cada um perdido
    Sentido,
  S'enche, Poeta, o teu coração ! 

35 (O GUESA escrevendo personals no HERALD e consultando 
                     as SYBILLAS de NEW -YORK :)
— Young-Lady da Quinta Avenida,
Celestialmente a flirtar
 Na egreja da Graça . . . 
     — Tal caça
Só mata-te almighty dollár.

36 (Thanksgiving ao progresso, CORONEL   MISS   CLAFFIN :)
— Eleita do meu regimento,
Eleição direitos perfaz :
 Nos céus bem convexos
  Os sexos
Se não guerram . . .  lá reina a paz.

37                (Democratas e Republicanos :)
— E’ de Tilden a maioria ;
E’ de Hayes a inauguração ! 
 == Aquem, carbonario
         Operario ;
Além, o deus-uno Mammão ! 

38      (Communa :)
— Strike !  do Atlantico ao Pacifico ! 
== Aos Bancos !  ao Erario-tutor ! 
 — Strike, Arthur !  Canalha
    Esbandalha ! 
Queima, assalta !  (Reino de horror  ! ) 

39 (MACDONALD, SHWAB, DONAHUE ;  Freeloves-CALIFORNIAS
                 e Pickpockets pela universal revolução :)
— De asphalto o ar está carregado ! 
== Hurákan !  o raio ora cae ! 
 — Caniculo mez,
        De uma vez,
Vasto Storm-god em Fourth-July ! 40 (Candidata á presidencia americana e rainhas europeas
       luctando contra a dureza dos positivos tempos :)
— Subir, é melhor para a gloria ;
Descer, para a respiração . . . 
 — A Bíblia escachaça
  Em fumaça,
Se é cabeça e não coração ! 

41                       (EMERSON  philosophando :)
— Descer . . .  é tendencia de principe ;
Subir . . .  tendencia é do vulgar :
 Faz um stagnação ;
  Da nação
O estagno, o outro faz tempestar.

42           (V. WOODHUL no mundo dos espiritos :)
— Napoleão !   Grand'Catharina ! 
Trema a terra á crys-sensação ! 
 Demosthenes !   Grande 
  Alexandre ! 
Woman rights, hippodromo e pão ! 

43              (TAMMANY entre as tribus :)
— Bisões !  Águias !  Ursos !  Gorillas ! 
Ao fundo lá vai Manhattan ! 
 Sitting Bull !  perdida,
  Vendida
Ao rascal, ao rum-Ahrimán ! 

44 (Salvados passageiros desembarcando do ATLANTICO ; 
HERALD deslealmente desafinando a imperial 
‘ ouverture : ’)
— Agora o Brazil é república ;
O Throno no Hevilius caiu . . . 
 But we picked it up ! 
  — Em farrapo
‘ Bandeira Estrellada ’ se viu.

45                            (THE SUN :)
— Agora a União é imperio ;
Dom Pedro é nosso Imperador :
 ‘ Nominate him President ’ ;
  Resident . . .  Que povo ame muito a Senhor.

46 (Um Plenipotenciario contradizendo e contradizendo-se :)
— ‘ Palavras ocas !  Lopes, logico
Foi no Paraguay ’ ; aos saraus,
 O Aleixo da Russia ;
       ‘ A esta súcia,
Não Pedros, só veem Kalakaus ’ ! 

47 (O mesmo propondo a outro o ‘ seu logar de commissario á EXPOSIÇÃO    de  PHILADELPHIA por causa do 
cheque-mate em sua fortuna ’ :)
— ‘ Dos Príncipes são protegidos
Os Poetas, ’  Senhor Guesa a errar ;
 Nem dão, qual banqueiros,
  Dinheiros . . . 
‘ Christo é Rei, e aos Reis nos curvar ’ ! 

48                                  (O GUESA :)
— Aos Genios teceram-se as c'roas,
Ou loiro ou o espinho a pungir
 Sagram . . .  só martyrios ! 
  Aos lirios,
Só o ar puro dá-lhes sorrir.

49 (Um rei yankee desembarca entre os immigrantes nas 
BATTERIAS, bebe aguas republicanas na fonte de 
BOWLINGGREEN  e desapparece ;  o povo sauda os 
carros de CÆSARINO  e ANTONIO pelo de JULIUS-
CÆSAR :)
— Off !  Off !  para São Francisco off,
Sem primeiro a Grant saudar ! 
 Só um spokesman
       Disse amen . . . 
Que a Deus deve a não a Cæsár.

50 (Commissarios em PHILADELPHIA expondo a CARIOCA 
            de PEDRO-AMERICO ;  QUAKERS admirados :)
— Antediluvio  ‘ plesiosaurus, ’
Industria nossa na Exposição . . . 
 == Oh Ponza !  que coxas ! 
  Que trouxas ! 
De azul vidro é o sol patagão !  51 (Detectives furfurando em MAIN-BUILDING ; telegrama
                              submarino :)
— Oh !  cá está  ‘ um Pedro d'Alcantara ! 
O Imperador stá no Brazil. ’
 — Não está !  christova
  E a nova,
De lá vinda em Septe de Abril ! 

52                        (MONROE  tolerando a EUROPA :)
— De tucano o papo amarello,
Do manto do Imperio do Sul
 Nos descobre as glorias :
  Historias
Do Hugo . . .  diz que a morte é azul ! 

53                         (MOYSES e ISAIAS :)
— De amores a obra primeira
Foi logo o assassino Cain ! 
 Satan-dobadora
       Até 'gora . . . 
== Heis um, de azas seis, Seraphim ! 

54 (PRESIDENTE GRANT com impassibilidade e seus ministros 
 BABCOCK, BELKNAP, etc. lendo o SUN e comprimentando 
 a DOM PEDRO :)
— De greenback as almas saudam
Ao ventre de oiro Imperador ! 
 == ‘ Bully Emperor’  incrente
    Em sua gente,
É tal rei tal reino, Senhor ? 

55      (DOM PEDRO  com impaciencia ao GENERAL GRANT :)
—Por que, Grant, á penitenciaria
Amigos vos vão um por um ? 
 Forgeries, rings, wrongs ;
  Ira's songs
Cantar vim no circo Barnúm ! 

56                         (GENERAL GRANT e DOM PEDRO :)
— Fazeis-nos os cabellos brancos . . . 
Um filho das leis do amanhan ! 
 == Com Romanos . . .  Papa ;
  Satrápa,
Com Gregos ; Napóleon, com Grant !  57 GLADSTONE pagando á thesouraria de WASHINGTON  os 
               milhões da arbitração de GENEBRA :)
—Very smarts !  Ô !  Ô !  Very smarts ! 
Mas poz o Alabama p'ra trás
 Aos puffs-Puritanos
  Cem annos ! 
Sobre-rum-nadam  fiends, rascáls ;

58 Post war Jews, Jesuitas, Bouffes
Que decidem de uma nação 
 A cancan !  . .  e os 
  Homeros
De rir servem, não de licção ! 

59 (DISRAELI ‘ordenando a TENNYSON a ode da volta do  
PRINCIPE de GALES, das INDIAS, e fazendo fogos de 
vista,’ que a RAINHA não queira vir vel-os ao 
CENTENNIO :)
(‘ Honi soit qui mal y pense ’)
— ‘ To his return our bosom burn !
Cada Inglez é dois, mais feliz ! 
 Vezes duas subdito,
  Subdito
D'angla Rainha e india Imperatriz ! 

60    (DOM PEDRO rindo-se e o GENERAL GRANT sorrindo :)
— Desde Christie, a Grande Bretanha
Se mede co'o Imperio que herdei . . . 
 Rainha-Imperatriz . . .  ! 
         == Os Brazis
Vos farão Imperador-Rei . . . 

61 (Côro dos contentes, TYMBIRAS, TAMOYOS, COLOMBOS, 
etc., etc. ;  música de C. GOMES a compasso da 
sandalia d'EMPEDOCLES :)
— ‘ A mui poderosa e mui alta 
Magestad do Grande Senhor ’
 Real ! ==  ‘ Semideus ’ ! 
        — São Matheus ! 
== Postrou-se o Himavata, o Thabor ! 

62 (DOM PEDRO substituindo o beijamão e nauseado 
      d`incensos ; GENERAL  GRANT  aspirando-os :) — Me desenthrono . . .  por Mac Máhon ! 
D'Estado, enviez, golpe vou dar ! 
 == O termo terceiro
      Ao poncteiro. . . 
Directo golpe, vou m' coroar ! 

63 Mas . . .  pondo por bars e cocheiras,
A urna, a sacra !  a eleitoral ! 
 Muito esterco, o fructo
  Vem bruto . . . 
— Hu . . !  nós, isso  é na Cathedral ! 

64 == Não ha democratas melhores
 Que os Rêis na Republica o são . . . 
 — Ser povo bem quero
  No Imperio :
Fazem-me id’lo, rojam-se ao chão ! 

65 Pois ‘republicanos que temos
São qual Salvator,’  querem pão :
 Se o damos, bem falam ;
  Estralam
Se o não damos . . .  fome de cão ! 

66 == Aqui, tudo vem, da balança
No oiro ter-se de equilibrar . . . 
 — Lá, a horizontal
  Equival
Bom rumo a quem vai para o ar. . . 

67            (MISSISSIPI  e GUANABARA denunciando-os :)
— Tirade-n’os phrygios barretes,
Conspiradores das nações ! 
 == Quirites, cuidado . . . 
  O Estado
Não é vosso ;  sois os guardiões ! 

68                  (GENERAL GRANT e DOM PEDRO :)
— ‘ É causa o espherico da terra,
De o mais alto cada um se crer ’ ;
 Quem liberalisa,
       Escravisa . . . 
== Regicidas, rêis querem ser.

69             (Separam-se para os dois pólos :) — A terra vai tendo outra fôrma
Em Candido (abraçam-se), haaa ! 
 (Jesuita casaca
      Tem faca
Que faz a amplexão sempre má.)

70 (Burglars preparando gazuas para a escuridão 
  imminente das trevas universaes :)
— As mitras e as c’roas teem pedras
De diamantes e d’igneos rubis :
 Infalib’lidades . . . 
  == Realdades . . . 
Russo-Turco o sol sempre cris ! 

71 (Freeloves meditando nas free-burglars bellas artes :)
— Roma, começou pelo roubo ;
New York, rouba a nunca acabar,
 O Rio, anthropophago ;
  == Ophiophago
Newark . . .  tudo pernas p’ra o ar . . . 

72 (W. CHILDS, A.M. elegiando sobre o filho de SARAH-
                                STEVENS :)
— Por sobre o fraco a morte esvoaça . . . 
Chicago em chamma, em chamma Boston,
De amor Hell-Gate é esta frol. . . 
 Que John Caracol,
  Chuva e sol,
Gil-engendra em gil rouxinol . . . 
Civilização . . .  ão ! . .  Court-hall ! 

73 (FLETCHER historiando com chaves de São Pedro e 
                   pedras de São-Paulo  :)
— Brazil, é brazeiro de rosas ;
A União, estados de amor :
 Floral . . .  sub espinhos
  Damninhos ;
Espinhal . . .  sub flor e mais flor.

74 (COLUMBUS perdendo e VESPUCCI   ganhando, pelas 
                               fórmas :)
— Em Cundin-Amarca, El Dorado,
O Zak em pó de oiro a brilhar . . . 
 == Amarca é America,     Am-eri-ca :
Bom piloto assim sonda o mar ! 

75 (ZOILOS sapando monumentos de antiguidade :)
— Do que o padre Baccho-Luziada
Dom Jayme vall’ mais pintos mil ;
 == ‘ Bandeira  Estrelada ’
    É mudada
Em sol, se iça-a o Rei do Brazil ;

76 — Herculano, é Polichinello ;
Odorico, é pae rococô ;
 Alencar, refugo ;
  == Victo Hugo
Doido deus, o ‘ chefe coimbrão ’ ;

77 — Dos Incas nos quipus, Amautas
São Goethe, Moysés, Salomão,
 O Byron, o Dante,
  O Cervante,
Humboldt e Maury capitão,

78 Newton’s Principia, Shak’spear’, Milton
O Alkorão, os Veddas, o Ormuzd,
 As Mil e Uma Noites,
  E açoites
Que dera e levara Jesus :

79 Pois ha, entre o Harold e o Guesa,
Differença grande, e qual é,
 Que um tem alta voz
  E o pé bot,
‘ Voz baixa ’ o outro, e firme o pé. ’

80 E cometas, aos aerolitos,
Passando, sacodem pelo ar . . . 
 == Vêde os vagabundos
    Mimundos
Que ostentam rodar e brilhar ! 

81 (LA-FONTAINE tomando para uma fabula os matadores
                      de IGNEZ-DE-CASTRO :)
— Formigas não amam cigarras,
Vampiros de Varella Luiz
 Não são Pedros crús ;
  São tatús Impios, cabros, cuis e saguis.

82                               (ZOILOS :)
— Jur’parîpyrás (não Evang’lina)
O Governador Maranhão,
 Pimentas bahianas,
  Mundanas,
Trasladava, é o seu galardão.

83                       (O NOVO MUNDO :)
— Bons vates, nada ha que se oponha
Mais da vida á conservação
 Que de mulher d’outro
  Maroto
Ser (leis de Manú) cortezão ! 

84 (LONGFELLOW  queixando-se ; trio dos paes :)
— Doe !  doe !  doe a perversidade
Comque ás filhas de nosso amor
 O mundo denigra ! 
  == S’emigra
Para o inferno huivando de dor ! 

85 (Octogenario BRYANT trabalhando :)
— Que bem que descantam as gralhas,
Jehovah !  Jehovah !  Ku-Klux
 Creando outros mundos
  Profundos,
Fizeram as trevas . . .  da luz ! 

86 Treva é a matinée de Pharsalia,
Wolfgang, e que tanto custou ! 
 Nem poema preclaro,
  Mais caro
Que o Guesa, insolvavel se achou ! 

87 (Episcopaes com a egreja cheia de fiéis e fazendo
                           banca-rôta :)
— Reconstruiriam-se templos
Com tão vasta congregação
 N’um dia . . .  ai dollares ! . .
  E altares,
Cruz, tudo ao credor, ao leilão !  88 (Catholicos, temendo a glória da banca-rôta, fecham 
                       as portas aos beggars :)
— Se não pagam cash hi não entram !  
Em latim Missa, o Papa e os Céus ! 
 Qual confessionarios !  . . 
  Frascarios
Só queimados dão o que é de Deus ! 

89          (Pan-Presbyterianos chamberlainisando :)
— Incuba mulher do Cordeiro ! 
Sinagoga de Satanaz ! 
 ’Sposa apocalyptica,
  Breck’nridgica
A côrte Herr Gallante vos faz ! 

90                       (Out-laws Unitarios :)
— Só não honra os paes do Messias
Quem é a deshonra dos seus :
 Em mestres de amor
  E em valor
Venceis vós ao Rei dos Judeus

91 — Só o leal, nunca o Loyola,
Conquista um nobre coração :
 Vulcanico monte,
  Acheronte . . . 
  ‘Water-head’ ? ’s mother-Goose Ton’-Tão ! 

92 (Maus-peccadores bons-apóstolos, illuminados às 
crenças de remissão e resurreição dos mortos, vendo 
JERRY MCCAULAY e revendo FROTHIMGHAM  no ‘Christ 
would not suit our times’ :)
— Peccavi diz um, e transforma
Pagodes em templo christão ;
 N’um templo o outro :  cruz
  Com Jesus ! 
‘ Christianismo é superstição ! ’

93 Reservado é o mundo, em que o homem
É o sêllo co’as armas do Auctor
 E espelhos . . .  Frothimgham
  Ou Brigham,
Quebrados ; e o Beecher, melhor.

94 (Epicurus ensinando entre Chymica e Psychologia :) — Pobre Deus ideal . . .  flor de carne,
Jardim do Diabo :  ergo, traição ;
 Ora, a fome é negra
  E se alegra
O verme, porque ha podridão.

95 Ou concluirás que és Hall-bruto,
Ou a alma s`envergonhará
 De em ti existir,
  A mentir
Vil viva, e hi querendo-se estar.

96 (Fogueiros da fornalha reduzindo o peccado original a 
fórmulas algebricas e á ‘NOVA FE’ (‘ moral rápido 
transito ’) o ‘ IN  GOD  WE  TRUST ’ dos cinco cents :) 
— Indústria, oiro práctica vida,
Go ahead !  oh, qual coração !  . . 
 A este ar, vai vital
  A espiral,
Brisa ou flato ou Bull-furacão ! 

97              (SANCTO  IGNACIO  fundando sua Ordem :)
— Magestade é só do cadaver,
Tal do ideal caiu no real ;
 Gêlo é fogo . . .  e os divos,
  Em vivos,
Só tractam do seu animal.

98                              (Reporters.)
— Que fila comprida, rajada,
Triste serpenteia em Blackwell ? 
 Carrere, Tweed Boss,
  Pelo cós
Um do outro . . .  justiça cruel ! 

99 == Cubano Codezo, Young Esquire,
 Um com outro a negaceiar,
  Protheus cabalisticos,
   Mysticos
 Da Hudson-Canal-Delaware ! 

100 — Norris, leis azues de Connecticut ! 
Clevelands, attorney-Cujás,
 Em zebras mudados
  Forçados, Dois a dois, aos cem Barrabás ! 

101                     (Amigos dos rêis perdidos :)
— Humbug de railroad e telegrapho,
Ao fogo dos céus quiz roubar,
 Que o mundo abrazasse
  E arvorasse
Por todo elle a Spangled Star ! 

102 (Um sol rebelde fundando um centro planetar :)
— ‘ George Washington, etc., etc.,
Responda ao Real-George-Três ’ ! 
 == Dizei-lhe, Lord Howe,
  Real sou . . . 
(E o nariz quebraram do Inglez).

103 (Satellites comprimentando aos raios de JOVE :)
— ‘ Saudar do universo á rainha ’ . . . 
Fiança Patriarchas dão sua . . . 
 (Com rei liberal,
  Peor mal,
Fundaram o imperio da lua.)

104                              (Reporters :)
— Papel fazem triste na terra
Rêis e poetas, gentes do céu,
 (E Strauss, o valsando)
  Cantando
No Hippodromo ou no Jubileu.

105 (Correctores achando causa á baixa do cámbio em 
                             WALL-STREET :)
— Exeunt Dom Pedro, Dom Grant,
Dom Guesa, que vão navegar :
 Seus lemes são de oiro
  Que o Moiro
Das vagas amansam do mar.

106 (Procissão internacional, povo de Israel, Orangianos, 
Fenianos, Buddhas, Mormons, Communistas, Nihilistas,  
Farricocos,  Railroad-Strikers,  All-brockers,  
All-jobbers, All-saints, All-devils, lanternas, música, 
sensação; Reporters: passa em LONDON  o ‘ assassino ’ 
da RAINHA e em PARIS ‘ Lot ’ o fugitivo de SODOMA :) — No Espirito-Sancto d’escravos
Ha somente um Imperador ;
 No dos livres, verso
  Reverso,
É tudo coroado Senhor ! 

107 (Feiticeiras de  KING-ARTHUR  e vidente FOSTER  em 
                        WALPURGIS  de dia :)
— When the battle`s lost and won —
— That will be ere the set of sun  —
— Puddock calls : Anon ! —
— Fair is foul, and foul is fair :
Hover through the fog and filthy air ! 

108                 (SWEDENBORG respondendo depois : )
— Ha mundos futuros : república,
Christianismo, céus, Lohengrin.
 São mundos presentes :
  Patentes,
Vanderbilt-North, Sul-Seraphim.

109 (Ao  fragor  de  JERICHÓ  encalha  HENDRICK-HUDSON;
os INDIOS vendem aos HOLLANDEZES a ilha de 
MANHATTAN  malassombrada :)
—  Meia-Lua, proa p'ra China,
Está crenando em Tappan-Zee . . . 
Hoogh moghende Heeren . . . 
  Pois tirem
Por guildens sessenta . . .  Yea !  Yea ! 

110 (Photophonos-estylographos direitos sagrados de defeza :)
— Na luz a voz humanitaria :
Ódio, não ; consciencia e rasão ;
 Não pornographia ;
  Isaias
Em biblica vivisecção ! 

111          (MITHRIDATES á prova de amigos toxicums :)
— Qual Jesus o açoita-peccados,
Carrega com elles :  por Deus ! 
 Da cruz ama o Guesa
  Esta empreza,
Dos vossos em bem e dos seus ! 

112 (‘ Imaginária imprensa ’ em maré-vazante coçando a 
                                  cabeça :)
— Desde Hayes, tudo prospera,
Menos viver de sensação :
 Mãos á obra !  . . .  ‘ É não éxcellent
  O président ’
Pois é um kranky, um papão !  

113 (KATIES  fazendo camas-ratoeiras ; sister NEWCOAT- 
                                                 SHAFFEY :)
— ‘ Masher H`rald some stain in ’t wants : ’
N’alta cerviz . . .  vampiro !  ao meio . . . 
 O !  O !  O !  cocktail ! 
  == Paga bail,
Ou . . .  não ha diabo mais feio ! 

114 (Surge frighter vermina GUITEAU ; risadas a um tiro 
              de polvora sêcca em FORTH-JULY :)
— Bennbennesses business little
‘ Remove him, ’ o magno rascál ! 
 == ‘ Church-Loyer-Stalwart, ’
  Um Mavorte,
Faz bala do heraldeo jornal ! 

115 (SEPARATISTAS, CHINS, CÆSARINOS,  contra GARFIELD 
                                   em ‘corner ’ :)
— Cuidado, ó vós, co`os sinking-faces
Cassius-Romano, Lincoln, ‘ Lot ’ ! 
 == A taes, Sul, nem Roma,
  Ou Sodoma,
Resistem ! — Valente Guiteau ! 

116            (Flores cobrindo á quéda das fructas :)
— Judas evitara a difama
 Se abrisse logo subscripção,
 Nem fôra traidor,
  Em favor
De José, Maria e João ! 

117 (Freeloves passando a votar em seus maridos :)
— De americanos o unico Emerson
Não quer prezidencias, o atroz ! 
 == O’ bem justiçados,
  Estados Melhoram p’ra vós e pr’a nós ! 

118            (APOCALYPTICAS visões . . .  calumniosas :)
— Pois, ‘ tendo a Besta patas d`urso, ’
In God we trust é o Dragão, 
 E os falsos-prophetas
  Bennettas
Tone, o Theologo e o da Ev’lução ! 

119 (Apedrejadores do occaso ; Indio estuporado á 
   claraboya magnética :)
— Matacães . . .  ao sol retro-raios . . . 
Lady Brown, algum te alcançou ? 
 == Danteo trombeteiro
  Brejeiro
Que ao gato harauto hidrophobou ! 

120 (Assassinos alegres engordando nos plafonds da cadeia :)
— Oh, que bons beefsteacks !  regalos
Do ‘instrumento bom de Lordy  ’ ! 
 Que os musicos nobres
  Aos pobres
Defendam ’squecidos assim ! 

121 (PLYMOUTH  ‘ on evolution ’  sentimental ;  HERALD  ‘ on 
                     involution ’  estomacal :)
— Aromas, Christãos desperdiçam ! 
== Mais vale a um pobre, caldeirão
   De porco, farinha um barrel,
    Cocktail . . . 
— Ô !  Ô !  Christo co’ indigestão ! 

122 (Pagã LUCRECIA antiga ; moderna christã LUCRECIA :)
— Romana loba a Collatinus
Vinga, em si cravando o punhal ! 
 == Yankee ursa s`embolsa
    Co’a solfa
Dos assassinos de Paschoal ! 

123 (HALL-HALL comendo o enxofre de SODOMA ;  MARWOOD 
                             torcendo os bigodes :)
 
— Estomacal . . .  até que sonhas
Com ‘ Lot ’ e os ‘ anjos ’, ou Abrahão ! 
 == Ou Jam’-Benne’-Gord’,   A quem chorda
de Guiteau espera !  . .  ah !  gil-Jam’ ! 

124 ( ‘ Voltam feitiços contra feiticeiros ’ ; mãos divinas 
offerecendo o ‘ copo-d`água-DEUS ’ aos ‘ que teem 
sêde de justiça ’ :)
— O’ burglars, Gomorrha e Sodoma
Fugiram os queridos dos céus ! 
 No sulphur quedando
  E estoirando
Os Sodomões e os Gomorrheus ! 

125 (Dois reverendos espatifando-se ao clarão do fogo
                                 celeste :)
— ‘ Beecher gorilla Gomorrheorum ’
Com ‘ Talmage superstição ’,
 Teem, teem o sabor
  D’este amor
De sulphur em conflagração ! 

126 (Consciencias perante a historia substituindo aos
                         destruidos NATURAES :)
— Chumbando Booths aos rêis-‘gorillas,’
A raça melhoram de côr :
 E o negro Africano,
  Amer’cano
Já é peau-rouge !  será brancor ! 

127 (DR. TALMAGE ; MESSRS. DONOVAN & Co. curtindo pelles 
                      variegadas humanas :)
— Gentlemen : disciplo  ‘ inspirado ’
A Beecher não vende Guiteau ! 
 == De Steuart o coiro
  Pesa oiro
Em polimento, em moroccô ! . . 

128 (REV. BEECHER, vendo subscripção antes  ‘ gladdening the 
sufferers’ e sensação após ‘ saddening the glads, ’  não 
crê mais na palavra, ‘ recommenda sabão á congregação ’ 
e monta em ‘ seu bicycle ’ :)
— Some stain is in that new business
Que pear-soap não pode lavar ! 
Washwomen ‘ nodoam ’
  E entoam : ‘ Herald-Flood-Fund, ’  a ensaboar !  . . 

129 (Outros alagados salvando-se na columna  ‘ 666 ’ do 
                             templo de KUN :)
— Agrippina é Roma-Manháttan
Em rum e em petroleo a inundar
 Herald-o-Nero acceso facho
  E borracho,
Mãe-pátria ensinando a nadar !  . . 

130 (NEWARK  ‘ dosed ’-girl, aux bois dormante, expirando :)
— Judeus negociam em Christos ;
Beliaes do em morte moral ;
Cowboys em Arthurs ;
  Em Stewarts . . .  ;
Em Garfields e em Guesas . . .  Heral’ . . . 

131 (Animated torrid-Zone — EMERSON proprietario a 
  incendios ; G. DIAS nos fire-proofs mares :)
— Do chaos sejam ecchos chaóticos,
Qual creação de Jehovah ! 
 == A Plato, Inglaterras ;
  Palmeiras
A’ tórrida-zona-sabiá ! 

132 (‘ Legendario FINANCE ’ divorciando a duas ‘ ilhas dos 
                       amôres ’;  ellas :)
— ‘ Dos Bebados ’ . . .  ‘ das Marandubas ’ . . . 
Miss Manháttan !   Dom Maranhão ! 
 == A ortigas estrigas
  Cantigas
Só . . .  Cruzeiro co' Ursas terão ! 

133 ( ‘OLD-PARÁ’-POND zeloso da sua sapucaya ; a VOZ :)
— Borracha . . .  tanto !  alma-cachaça . . . 
Tanto !  tanto . . .  cada mulher ! 
 De qual natureza
  E’ o Guesa ?  . . 
== Deu mais á ‘ Brief ’  que Webstér !  . . 

134 (Ursa no cio espesinhando ‘ dahlias ’ = violets e 
 despojando  HIAWATHA  morto-apóstolo ;  JOSEPHUS   
     beijando -lhe a mão, ‘ spiritual  ’ :) — ‘ I am wordly !  . .  never speak Spanish ? ’
== She-Bear . . .  Birdies valham-me, Deus !  . . 
 — Nem Messrs. Donovan
     Renovam
Coirões sanctos-Bartholomeus ?  ?  . . . 

135 (Hospitalidade venenosa ;  eccho dos prelos do 
                              LÍBANO :)
— ‘ Merry Wives’ !  !  Katies !  ás armas !  . . 
Camas-fogo, . . .  fogo no réu ! 
 == Respondam aos frades
  As madres . . . 
‘ Terremoto ’  á noite no céu !  . . 

136 (Ursa   em   loucura ; JOSEPHUS,   embrulhado  na 
 secundum-artem bordada túnica do centauro, 
       interpreta os pesadelos de PHARAÓ :)
— Yankees diamantes, ‘ fixe ’  Nessus . . . 
Vingança, Eunuco Potiphar ! 
 == Lindas ursitas
  Serão maldictas
D’ursas-móres, que hão devorar !  . . 

137 (Electricas sweethearts á ‘ school-road-system ’  
         preferindo o pára-raios de FRANKLIN  :)
— Poeta é cysne, oh !  . .  não porque canta,
Mas pela ideal lentidão
 Com que anda a amores,
  Horrores
De Lalas que prácticas são !  . . 

138 (Sentimentaes doctoras carbonizando o coração do 
                              GUESA :)
— Que escorra sangue, não veneno . . . 
== Um ‘ morango ’ !  — Oh . . .  todo oiro e dor . . . 
 == Fossilpetrifique ! 
  — Ai . . .  não fique
Sem gloria o Inca e o astro sem flor . . . 

139          (A VOZ, ida dos anjos — vinda dos vampiros :)
— Napoleão sem mais estrela, . . . 
Nuvem de corvos em Moscow,
Ring-negro horizonte,
  Na fronte  Foi-lhe a coroa que obumbrou !  . . 

140 (HERALD safe-guardando $2 do último e nunca-nato
 quinquagenario personal de ‘ HONOURABLE ’ ; policeman 
   lisonjeando-lhe a golla do business coat:)
— ‘  Is there any hope for parvenu ?
== Com certeza não, Sir Burglár !
 Patentes fazendo,
  Por  ‘ shadows  roendo ’
Da prima columna os ‘ dollárs ’ !  . . 

141 (DOM PEDRO á meia-noite na soirée do N. Y. HERALD :)
— No Solimões esta é a hora
Em que a luz se apaga e também
 Turemisam taes
  Personaes
Quaes no Hudson . . .  bravos !  Jam’ - Benn ’ ! 

142 (Silvios dedos rutilando ao typographar em vernaculo 
da ‘ BANDEIRA-ESTRELLADA’ ; POETA extáctico ;  a VOZ :)
— Grandes são as graças e thesoiros
De Balthazar-Imperador ! . . 
 == Que treme ahi sans-culottes
  Quijotes ? . . 
— Manè — Tessèl — Pharès, Senhor !  . . 

143 ( ‘Corners ’ == reporters ‘ on evolution ’ ; GORD-JAM-BENN 
                           ‘ flesh-and-devil ’ :)
—‘ Le roi s'amuse ’ . . .  aos ‘ all ranks ’
Gratis não trabalha ninguem . . .
 == Protheus I (cortezia)
  Dizia :
Ao servidor paga-se bem . . . 

144 (Forcas diabéticas-caudinas, mordomos destribuindo 
                                     $5,0 :)
— Jogou o Guesa esta quantia ;
Damos-l’a nós, e sem jogar :
 Côrte a Bennette
  A’ meia-noite ;
Bom riso á carne popular.

145         (HERALD advogando a causa chim-commercial :)
— In-God-we-trust  ‘ not worth its price, A great swindle is silver dollar ’ ! 
 Se em Deus nós cremos,
  Descremos :
Amor pagado ha mór pagar . . . 

146 (Barbaros  IN-HOC-SIGNO-VINCES ; ARCTURUS  curvado ante o CRUZEIRO :)
— P’ra que q’rias Pará, Urso-Yankee,
Que só tem borracha por Deus ? . . 
 == Cruz-Carioca, Praguay venceste ? . . 
  Os Celestes
São muito mais nossos que teus !  . . 

147 (Rei julgado limpo fóra, e sujo dentro do seu reino :)
— ‘ Liberal ’ ; ‘ flying ’ ; ‘ nem tem domingo,
Visita tudo ! ’ == ‘ P'ra Inglez ver ’ ;
 Mais val ‘ Joana a douda ’,
  Que á roda
Ao menos ensina a varrer ? 

148          (Reporters-provarás  how to get ‘ God ’ :)
— Com rêis é fazendo realezas ;
Com presidentes, sensação ;
 Com Vanderbiltes,
  ‘ Dynamites ’ ;
Co’os Indios, sombrinha e trovão ! 

149 (Magnético-kalleidoscopicos sonhos de NAPOLEÃO 
               ante a campanha de WATERLOO :)
— Very smarts !  O !  O !  very smarts !
Vós godmakers, eia ao valor ! 
 Harautos de tretas,
  Caretas,
Não vos sobe o incenso na côr ? . . . 

150 (ROSEMAN lendo christianissimos personals e applicando 
                a  “ low people, low punishment ”  :)
— ‘Papers  xplain. Certainly, though terrible ’ . . 
Siencia heraldea, ‘ paradise lost ’ . . . 
 A ‘ purring match ’ ! 
  And lash !  and lash !
Chinoi-Bennett á  ‘ wiping post ’  ! . . 

151 (Vampiros das trevas, offerecendo o imperio do mundo ;               DIOGENES  optando pelo banho do oceano :)
— ‘ Tight bird  (seeks ‘ thousand ’) !  ‘ Smoke ’ 
  ‘ makes millions ’ ! 
‘ Cidadão ’  da grande nação ?  . . 
 == Não tentai a Deus,
  Christãos meus . . . 
— ‘ Vale’ !  ou morre ou paga um ‘ milhão ’ ! 

152 (Gentlemen (saltimbancos) embarcando após DIOGENES ;
 comandante duplicando os placards do steamer :)
— Ou paga de amor tanta gloria
(Carinho houve mais que ninguem
 Dos pedreiros-livres
  Oirives) . . . 
== ‘ Servant ’, olhar p’r’os . . .  gentlemén . . . 

153 (O pae de ‘ ISAC ’ alevantando o dedo ante a proposta 
                 d’almas dos príncipes de SODOMA :)
— ‘ Jurei ao Senhor-Deus-Altissimo ’ 
Vingança :  eia !  pois, da tua mão
 Nem um fio . . .  figas ! 
  Não digas :
Enriquecemos a Abrahão ! 

154 (Gentlemen (pellotiqueiros) na catastrophe ; HURIS 
lenços-verdes enxugando os olhos-mortos de SANSÃO :)
— Do Guesa a Pharsalia explorada,
Num  ‘ corner ’  espremido o auctor,
 Dá oirão ! == A musa
  Cafusa
Dalila traiu-o . . .  que horror ! 

155 (O  GUESA  sorteado  em  CITY-HALL ;  CANDIDE-
                              VOLTAIRE :)
— Jurado de todas Américas,
Qual Columbus sou cidadão.
== Biblio . . .  com Jacob e o café
  Dos  ‘ Canticos ’ ; . .  fé ; . . 
Oppor á ratoeira a rasão ; . . 
E julgar á vivissecção ! 

156 (‘ Falta a CÆSAR, nunca aos amores, ’  DAVID   desprezado 
 de MICAL  por andar saltando adeante da arca do 
                                    ETERNO :) — Agarrando-os pelas queixadas,
Matei norte-urso e leão-sul ;
 Goliath ha-me a pedra da fronda ;
  Indo á ronda,
Evito os dardos de Saul.

157 (Gottas magneticas nos ares á manipulação de immortaes ?  
                  um morto redivivo contra a vontade dos 
             assassinos :)
— ‘ Não fales ! ’ que por um princípio
Vai Codrus em louco morrer !  . . 
 == Codrus ?  louco ?  padres
  Compadres,
Co’as vossas nódoas Deus não quer ! 

158    (Inquisição das trevas, GUATIMOZIN  nos brazeiros :)
— Dizer verdades que não dizem-se
Republicos, sem liquidar,
 E’ de mais tesão ! 
  Sensação
Liquide-o !  . .  e hypochondrios cremar ! 

159 ( ‘ Cifra nas azas da chimera ’  chrónica sobre rodízios 
ALMYGHTY-DOLLARS, gargalhadas á autópsia dos 
cadaveres :)
— ‘ Fi ’  para ‘ Thiers ’ . . .  ‘ cerebro nico ’,
Léon-Gambetta não é leão . . . 
 Oh que ambar que exhala
  E trescala
Este ‘ grey-perle’  macacão ! 

160 (JEAN-LUIS-de-PARIS  e  DAME-PÉLETIER preparando 
ceias do frio JANEIRO ;  REGENTE, APOSTOLOS e 
ESTRANGEIROS, convidados :)
— Que andem da sala p’ra cozinha . . . 
Dia de Reis, gavotta ao luar ! . . 
 == Que banquete quente
  De a gente
Dizer missa, o Gallo a cantar ! 

161 (Mesmas DAMAS e DAMAS RITA e GATÉE-HORTENSE dando 
bôas-noites a seus hóspedes ; HERCULES-GUTTENBERGS 
nos prelos magneticos :)
— Se houverdes maus sonhos, são ‘ pulgas ’ . . .  Bôas-noites, filhos de Alceu ! 
 == Traição !  fogo obsceno ! 
  Veneno
Que em Manháttan lávas ardeu !  . . 

162 (Panaché FÍGARO aos sons do piston-vainqueur, ás ímpias 
navalhas afiando, fazendo a barba aos PROPHETAS e 
chinó ás religiosas de claustro e ‘ drastico ’ :)
— Cara de sopas da Magdalena,
L'ombre accablat !  l'ombre accablat ! 
 Eh, teu ‘ Dieu drole ’ !
  Sha-casserole
Crea e repúblicas des toits ! . . .  ah !  ah ! . . 

163 (Et tout le genre humain est l'abîme de l'homme, um 
argueiro cego entre dois mil grand’olhos cavalleiros ; 
bombardeio nos consolidados mundos :)
— Oh, Cyclones !  Typhons !  sossobrem
Naus e aldeias !  ruge, Simoun ! 
 == Rev’lução hedionda
  Que estronda
De Figaro ás . . .  noces, bum, bum ! 

164 (Madres TON’-TONA  e CARNATA sem saberem que fazer 
      des ‘ enfants ’ ;  colheita das ‘ rosas brancas ’ :)
— ‘ Il faut la laisser dans le vague ’ . . . 
Eis de sancta o véu, lindo amor ! 
 == Não dobra ? . .  se corta ! 
  Está morta ! 
Loyola ha fogueiras de horror !  

165 (PAUL BERT, ‘ la morale des JESUITES ’:)
— Mais tristes que os que caem-lhes na unha,
São os que d’ella escapam . . .  Jesus ! 
 Que infame consciencia
  Indecencia,
De mães pondo ás filhas na cruz ! 

166  (‘ Vie drolatique ’ de . . .  RENAN ; ZOLA realista :)
— As ‘ grosses ’  grosses madres ‘ Dianas ’
Crêm suas filhas ricas beber
 ‘ O copo de sangue ’ . . .  a Carnata ! 
  A Tontata ! 
== Que sangueos ‘ POTS-BOUILLES ’ a crer !  167 (Sobredictas, e pythonisas NORTHORNA e SERGAITA 
dissolvendo-se á manipulação de um imperador 
romano :)
— Voltair’ toca a nós o bolero
(Diocleciano, fogo bebeu ! )
 == D’elle carne, d’elle osso
  E carôço . . . 
— ‘ Sacré nom !  sacré nom de Dieu ’ !

168 (Rei d`HESPANHA atarantado aos assobios de PARIS e 
 distribuindo 10,0 francos ;  presidente GRÉVY :)
— ‘ Puces ’  e ‘ muttons ’  de Prussianos,
Pucelles venceram Inglez ! . . 
 == Uhlan doze-Alfonso,
  Que engonço ! 
Que champanha o artista francez !  . . 

169 (Barbaria saindo do CEARÁ ; civilização entrando em 
              PARIS : generaes Bazaine e Moltke :)
— ‘ França é-te abysmo, homem grosseiro,
Sob a Prússia ’ . . .  baila o cancan ! 
 == ‘ A’ taille for fine ’,
  Badine
‘ Nicht ’  a armée grande em Sédan ! . . 

170 (Quádruplo ‘ corner ’ : V. HUGO monarquista ; D. PEDRO 
republicano ;  ALFONSO uhlan ;  um guesa fabricado 
franco-yankee homunculus :)
— ‘ Com tal rei ‘petit’ ainda eu fôra ’ ;
== ‘ Sans-culotte eu sou mesmo rei ’ ;
 —  Grevy . . .  que váias ! 
 == Que, Hugo, o não traias, . . 
A horas dadas não voltarei.

171 (Aureos ZAKS escovados n’outros practicos mundos :)
— Banindo os poetas, da ‘ Republica ’
Coroava-os com flores, Platão.
 == Yunka-yankee os depena
  Sem pena,
E zanga-se á historia, pois não ! 

172 (Cynico DIOGENES do utrinque-feriens ‘ corner ’ sem 
 lanterna e achando a verdade-quadratura do ‘ ring ’ :) — Very smarts !  O !  O !  very smarts !
A moscas fazer sensações ! 
 E huivar mundo todo :
  Ha um doudo
(O ‘ cão ’) e ha justos (os ladrões) ! . . 

173 (WASHINGTON  ‘ cegando por causa d’elles ’ ; Pocahontas 
                          sem personals :)
— A ursos famintos, cão damnado ! 
Seja !  após festins, o festão !  . . 
 == Meiga Lulu,
 Choras e tu
Mel ao ‘ imigo ’, abelha ? . .  e ferrão ? 

174 (Nariz guatimalo cornado em facho d’HYMENEU ; coração
DAME-RYDER nas envenenadas vidraças do ‘ too 
dark ’  wedding-pudding :)
— ‘ Caramba !  yo soy cirurjano —
Jesuita . . .  yankee . . .  industrial ’ ! 
 — Job . . .  ou poisada
  Malassombrada,
‘ Byron ’ magnetismo-animal !  . . 

175 (Prácticos mystificadores fazendo seu negócio ; self-help 
                                       ATA TROLL :)
— Que indefeso cáia o extrangeiro,
Que a usura não paga, o pagão ! 
 == Orelha ursos tragam,
  Se afagam,
Mammumma, mammumma, Mammão.

176 (Magnético handle-organ ; ring d’ursos sentenciando á 
 pena-última o architecto da PHARSALIA ; odysseu 
 phantasma nas chammas dos incendios d’Albion :)
— Bear . . .  Bear é ber’beri, Bear . . .  Bear . . . 
== Mammumma, mammumma, Mammão ! 
 — Bear . . .  Bear . . .  ber’ . . .  Pegàsus . . . 
   Parnasus . . . 
== Mammumma, mammumma, Mammão.





Poema: Sousândrade
O Guesa. Londres: Cooke & Halsted, c.1886, p. 231- 261
Arte: Tom Colbie

Tira-gosto