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Tuesday, October 15, 2013

MUNDANO




1
há no cintel
deste estranho engenho
um liame cintilante
que corto à faca afoito
à noite & diante
de um espelho cru
do qual desdenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho

cavalgo mundano
meu pégaso-verso
como um lorde negro
em seu dragão avesso
como eu mesmo
fauno-pássaro
como eu-outro
cavalo-profano

2
ah, que glamour vagabundo me enlaça!

são doces as fêmeas
& delicados seus ardis
o álcool dourado grassa
& o fumo prateado desce
às profundezas febris
há rendas diáfanas
saias-metáforas
sutis lingeries

um gemido de unhas vermelhas
de um salto me agarra
& logo atraído pela rara
indecência dessa lascívia sonora
cravo meus olhos de fera
na agridoçura desse olhar que demora

3
agora
minha anamorfose mundana
em ângulo obtuso me revela
& com suas garras de pantera
a cruel solidão me apavora

& cíclico & inquietante
o liame vil & cintilante
surge sem nexo
tornado infame reflexo
no vívido espelho
desse sonho convexo
que agora mesmo redesenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho








Marcello Chalvinski - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Saturday, March 23, 2013

FEVEREIROS FEBRIS




Lua de lince



lua a ferir

a brindar os insones
lua a burlar

a querer errar.


bola crua
branca imensa


cair brincar pingar


fugir do sereno
lumiar felino


desejo a ti atriz


lua a bulir
a beirar os meninos
lua a dormir


a sós
apois.


insones somos
nus.






Antonio Pastori

Thursday, April 19, 2012

CINO



Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"

Uma vez, duas vezes, um ano -
E vagamente assim se exprimem:
"Cino ?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?"

Mas e senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
...eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

"Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
..............................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.



Ezra Pound
[Trad. M. Faustino]

Tuesday, April 10, 2012

CONTO



Um Príncipe se aborrecia por só se dedicar a perfeição de generosidades vulgares. Ele previa estonteantes revoluções do amor, e desconfiava que suas mulheres pudessem bem mais que uma complacência enfeitada de céu e luxo.
Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração de piedade, ele queria. Pelo menos ele tinha um grande poder humano.
Todas as mulheres que o conheceram foram assassinadas. Saque no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele nem encomendava outras.
— As mulheres reapareciam.
Ele matou todos que o seguiam, depois da caça ou das librações.
— Todos o seguiam.
Ele se divertiu degolando os bichos de luxo. Mandou incendiar palácios. Avançava nas pessoas e as decepava em pedaços. — A multidão, os telhados dourados, bichos bonitos, ainda existiam.
Pode alguém se extasiar na destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém se ofereceu ao concurso de suas vistas.
Uma noite ele cavalgava confiante. Um Gênio surgiu, beleza inefável, inconfessável mesmo. De sua fisionomia e sua presença emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! De alegria inominável, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram, quem sabe, em saúde essencial.
Como não morreriam disso? Eles, enfim, morreram juntos.
Mas o Príncipe morreu, em seu palácio, numa idade normal. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.
Ao nosso desejo falta a música sábia.

Iluminuras
Artur Rimbaud

Tuesday, March 20, 2012

O TERCEIRO LADO DA PONTE




os delírios estão de volta
& agitam seus estandartes
envoltos em nuvens de vodka
& canções imaginárias

antropófaga companhia
literária
esta minha solidão
salafrária
ri-se a contemplar a correria
das tropas incendiárias

pela ponte
de avarias várias
vai o ar
vai a palavra
vão os ais
vão as árias

pela ponte
vão as gentes
vão as alimárias

por entre postes
vãos & vogais
consoantes mercenárias
tramam emboscadas fatais

ensandecidos pelo avanço
de hordas tais
há adjetivos que se desprendem
há pilares que caem

pela ponte
a marcha é pesada
os petrechos são de ferro
& as metáforas rangem rangidos desiguais

vis
os delírios avançam
em seu desejo vulcânico

a bela me sorri

o governo da página
entra em pânico





Marcello Chalvinski (Don Juan & o Jardim das Maravilhas)
Arte:Tom Colbie

Wednesday, March 14, 2012

A CANÇÃO DO DELIRANTE AENGUS





Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.






Poema: William Butler Yeats


Arte: Tom Colbie

Monday, March 12, 2012

ANTES DO COMEÇO





Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.


Octavio Paz

ANJOS MAUS


Os anjos do mal são verdes e grandes
se escondem nas nuvens nas dobras do céu
perturbam os lares destroem cidades
nem miram coitados a bola do sol.

De tarde insinuam com jeito coisas maliciosas
à mulher que passa acariciando os seios
e às meninas que ficam trancadas no quarto
o dia inteiro no espelho revirando os olhos,
namorando o corpo delas,
depois a sociedade vai por água abaixo.

São fortes e altos, não é sopa não,
têm dentes de pérola, boca de coral.

Os aviadores partem pra combatê-los e morrem.
As viúvas dos aviadores não recebem montepio.




Poema: Murilo Mendes
Arte: Tom Colbie

Wednesday, September 28, 2011

Rima Petrosa – 1


(Série Influências)








uma bruteza
límpida
que em nada se detém

uma crueza
lâmina
que se apaga em ninguém

uma lindeza
nítida
que a si mesma sustém

uma ingênua fereza
feita só de desdém

uma dura candura
que nem loba que nem

uma beleza absurda
sem porquê nem porém

um negar-se tão rente
que soa um shamisen

uma causa perdida
um não vem que não tem




Haroldo de Campos

Tuesday, September 20, 2011

Cantata & Fuga






um giro de saias
na órbita do corpo


o perfume que salta
a razão que desmaia


misandria sem perdão


uma caótica vazão
sem porquê
nem senão


já era nuvem
noite alta


pela manhã
ilusão


ficou no olho árido
o desejo abduzido


ficou no copo seco
a sensação
de não ter bebido






.


Marcello Chalvinski - Temporal - Brancaleone - 2005



.

Wednesday, August 24, 2011

UM LANCE DE DARDOS





O QUÂNTICO DOS CÂNTICOS

(radiações térmicas experimentos imaginados)






bélica


1
há uma mina que explode
sob o asfalto da tarde gris
sem que ninguém a toque
rarefaz-se em cabelos etéreos
sustém-se em sapatos de giz

2
há uma textura de pedra
(nessa que explode)
há centenas de ardis
há um silêncio molhado
há um perigo que medra
há bombardeios sutis

3
em meio ao festim dessas balas
essa que explode
(sem que ninguém a toque)
oculta bombas-crisálidas
esconde borboletas-flor-de-lis

4
por trás do ar de donzela
posso adivinhá-la
felina branca
num jardim de opalas
seda clara
sobre o chão de pedras

5
eis que ela
(de tão rara)
engendra transfinita
uma canção
que me abala
&
num bailado
que me desespera
abre a blusa feminil
dispara
química
metálica
biológica
mortífera
ferina pantera

exata
como um míssil
inverossímil
de tão bela











Excerto de TEMPORAL -  Marcello Chalvinski 2005
Arte: Tom Colbie

Sunday, August 14, 2011

AEDH DESEJA OS TECIDOS DOS CÉUS












Fossem meus os tecidos bordados dos céus

Ornados com luzes de ouro e prateada luz

& o azul & o escuro & os escuros véus

Da noite, à luz e à meia luz

Eu os estenderia a teus pés.

Mas, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos.

E eu os estendo sob teus pés

Caminha suavemente, pois pisas sobre meus sonhos.







YEATS



Tradução Marcello Chalvinski

Monday, July 18, 2011

A UMA MENDIGA RUIVA












Ruiva e branca a aparecer,

Cuja roupa deixar ver

Por seus rasgões a pobreza

Como a beleza,


A mim, poeta sofredor,

Teu corpo de um mal sem cura

Todo manchas de rubor,

Só tem doçura.


E calças (muito mais bela

Que a Rainha da Novela

Com os seus coturnos brancos)

Os teus tamancos.


Em vez de molambos, mal

Não te iria a roupa real,

Cegando as ondulações

Até os talões;


Em vez de meia de crivos,

Para os olhos dos lascivos

Um punhal na perna linda

Brilhasse ainda;


E laços mal apertados

Mostrem aos nossos pecados

Os teus seios a brilhar

Como um olhar;


Para seres desnudada

Tu te faças de rogada.

Possam expulsar teus braços

Dedos devassos;


Pérolas formosas, ou

Poema do mestre Belleau

Que os galantes na prisão

Sempre te dão,


A chusma dos rimadores

Dedicando-te primores,

Contemplando-te o escarpim

No varandim,


Muito pagem a sonhar

E muito senhor Ronsard

Olhariam com sigilo

Teu fresco asilo!


No leito dos teus delírios

Terás mais beijos que lírios

Tua lei dominará

Mais de um Valois!


Porém segue a tua lida,

Só por sobras de comida

Jogadas por distanciadas

Encruzilhadas;


E só quer teu sonho louco

Jóias que valem bem pouco

Que eu nem posso, ó Deus clemente,

Dar de presente.


Nada te orna neste instante,

Perfume, rubim, diamante,

Só tua nua magreza!

Minha beleza!












CHARLES BAUDELAIRE

Monday, July 11, 2011

A uma mulher amada

(Da Série Influências)


Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.





Safo

Tira-gosto