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Thursday, September 14, 2017

CORAÇÃO & MENTE



inexplicavelmente estamos sozinhos
para sempre sozinhos
e era pra ser
assim,
não era pra ser
de nenhum outro modo -
quando a luta contra a morte
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de faces humanas
pairando sobre mim -
prefiro meus velhos amigos,
e as paredes de mim mesmo,
que estejam somente eles ali.
tenho estado sozinho mas raramente
solitário.
satisfiz minha sede
no poço
de mim mesmo
aquele vinho era bom,
o melhor que já bebi,
e esta noite
sentado
olhando a escuridão
finalmente entendo
a escuridão e a
luz e tudo que está
entre os dois.
a paz da alma e do coração
chega
quando aceitamos como
é:
ter nascido
nesta
estranha vida
devemos aceitar
as inúteis apostas de nossos
dias
e nos satisfazer com
o prazer de
deixar tudo
pra trás.
não chore por mim.
não sofra por mim.
leia
o que escrevi e
então
esqueça
tudo.
beba do poço
de você mesmo
e comece
de novo.
Poema: Charles Bukovski
Arte: Tom Colbie

Tuesday, June 13, 2017

O HOMEM COM BELOS OLHOS

  


Quando éramos crianças
havia uma casa estranha,
as cortinas estavam
sempre
fechadas,
nós nunca ouvíamos uma voz
dentro dela.
O jardim se arrepiava todo
em bambus altos,
nós gostávamos de brincar
no bambuzal.
Fingir ser
Tarzan
(embora não tivéssemos
Jane).
E havia um
tanque de peixes,
um dos grandes,
cheio dos
mais gordos peixes dourados
que você já viu.
Eles eram
mansinhos,
vinham para a
superfície da água
e comiam farelo de
pão
em nossas mãos.

Nossos pais disseram:
“Nunca cheguem perto daquela
casa”.
Portanto, é óbvio,
nós fomos para a casa.
A gente se perguntava
se alguém vivia ali.
Semanas se passaram e
nunca vimos
ninguém.
Então um dia
ouvimos
uma voz.
Vinha da casa:
“SUA PUTA
DESGRAÇADA!”
Era a voz de um
homem.
Em seguida
a porta de tela
da casa
foi aberta
num só puxão,
e o homem
caminhou
para fora.
Ele carregava uma
garrafa de uísque
em sua
mão direita.
Tinha uns
30 anos.
Um cigarro
em sua
boca.
Precisava se barbear.
Seu cabelo era
selvagem e
despenteado.
Pés
Descalços.
Camiseta simples
e calças.
Mas seus olhos
eram
brilhantes.
Eles ardiam
de tanto brilho.
E ele disse:
“Hey, pequenos
cavalheiros,
tendo bons
momentos, eu
espero.”
Então ele deu um
curto riso
e andou
de volta para dentro
daquela casa.
Nós saímos, voltamos
para o jardim dos meus pais,
e pensamos
sobre o ocorrido.
Nossos pais,
decidimos,
queriam nos
manter afastados
daquela casa
porque eles
não queriam que nós
víssemos um homem
como
aquele.
Um forte e natural
homem
com
belos
olhos.
Nossos pais
tinham vergonha
por
não ser
como aquele
homem,
eis por que eles
queriam
nos manter
afastados.
Mas
nós voltamos
para aquela casa
para o bambuzal
para os mansinhos
peixes-dourados.
Nós voltamos
muitas vezes
durante muitas semanas,
mas nós
não vimos
ou ouvimos
o homem
outra vez.
As cortinas estavam
fechadas
como sempre,
e somente se ouvia
o silêncio.
Então um dia
quando voltamos da
escola,
nós vimos
a casa.
Ela havia sido toda
queimada,
nada tinha restado
intacto.
Eram apenas cinzas e a fumegante,
retorcida e negra
fundação.
E nós fomos para
o tanque de peixes.
Dentro dele
não restava água,
e os gordos
peixes alaranjados
estavam mortos
ali,
secando.







Nós voltamos para
o jardim dos meus pais
e conversamos sobre
o ocorrido.
E decidimos que
nossos pais
queimaram aquela casa,
mataram
quem nela morava,
mataram
os peixes dourados,
porque era
tudo muito
belo,
mesmo o bambuzal
havia sido
queimado.
Eles temiam
o homem
com os belos
olhos.
E
nós tememos
desde então
que
ao longo de nossas vidas
coisas como aquela
acontecessem,
e ninguém
quisesse que
alguém
fosse
forte
e belo
daquele jeito.
Tememos que
os outros nunca
permitissem.
E que
muitas pessoas
teriam de
morrer.



Poema: CHARLES BUKOWSKI

Arte: TOM COLBIE

Thursday, January 19, 2017

COMO SER UM GRANDE ESCRITOR




Você tem que comer um grande número de mulheres.
Belas mulheres
E escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

E não se preocupe com a idade
e/ou com talentos recém-chegados.

Apenas beba mais cerveja.
Mais e mais cerveja.

E vá às corridas pelo menos uma vez por
semana.

E vença,
se possível.

Aprender a ganhar é difícil -
qualquer idiota pode ser um bom perdedor.

E não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

Não exagere nos exercícios.

Durma até o meio-dia.

Evite o pagamento de cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

Lembre-se que nenhuma bunda no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

E se você tem a capacidade de amar,
ame primeiro a si mesmo.
Mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total,
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

Um gosto precoce pela morte não é necessariamente
uma coisa má.

Fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais
exílio
derrota
traição
todo essa escória.

Fique com a cerveja.

A cerveja é sangue contínuo.

Uma amante contínua.

Arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina,
acerte com força,
faça disso uma luta pesada.

Faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

Se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos minúsculos
assim como este em que você está agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

Beba mais cerveja.
Há tempo.
E se não houver
está tudo certo
também.




Poema: Charles Bukowski
Tradução: Marcello Chalvinski

Arte: Tom Colbie

Tuesday, August 20, 2013

UM POEMA DE AMOR



todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas com que amam e
falam e precisam.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e calçados e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres que são muito
quentes, eles me lembram de
torradas com manteiga com a manteiga
derretida
dentro

há uma aparência nos
olhos: eles foram
eles têm sido tomadas
enganadas. Eu nem mesmo sei o que
fazer por
elas.

eu sou
bom na cozinha um bom
ouvinte
mas eu nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas eu gostei das suas diferentes
camas
de fumar cigarros
olhando para o
teto. Eu não era nem cruel nem
desonesto. apenas
um aprendiz.

Eu sei que todos elas têm pés
e os pés descalços vão pelo chão enquanto
Eu observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim
algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam baixinho de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
um ao outro
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

aquelas orelhas aqueles
braços
cotovelos aqueles olhos
olhando, o carinho e
a carência me sustentaram,
me
sustentaram.





Charles Bukowski - [Tradução: M. Chalvinski]

Sunday, April 07, 2013

A GERAÇÃO PERDIDA




estive lendo um livro sobre uma rica literata
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedos preciosos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de serem
brinquedos preciosos.
por todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a rica literata e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com olhares inteligentes
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum deles
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedos preciosos
por se sujeitarem
a isso.







Charles Bukowski
[
Trad: M. Chalvinski]












the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally commited his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

Wednesday, March 06, 2013

TÃO LOUCO QUANTO SEMPRE FUI







bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.


o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada


antes que a luz
se apague


bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.


algumas pessoas me dizem que sou
famoso.


o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?


sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4° andar -
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado


ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:


68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária


aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.



Charles Bukowski

Thursday, February 07, 2013

APRISIONADO







no inverno caminhando em meu
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste, tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas - barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.


preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.





Charles Bukowski

Tuesday, February 05, 2013

CONFISSÃO




esperando a morte
como um gato
que vai saltar sobre a
cama

estou muito triste por
minha mulher

ela vai ver este
corpo
branco
duro

agitá-lo uma vez, depois
talvez
agitá-lo novamente

"Hank!"
Hank não vai
responder.

não é minha morte que
me preocupa, é minha mulher
deixada só com este
monte de
nada.

Entretanto
eu quero
que ela saiba
que todas as noites
dormidas
ao seu lado

& até mesmo
as discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

& as
palavras
difíceis
que eu sempre tive medo
de dizer
agora podem ser
ditas:

Eu te amo





Poema: Charles Bukowski 
Tradução: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie





Confession

waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed

I am so very sorry for
my wife

she will see this
stiff
white
body
shake it once, then
maybe
again

"Hank!"
Hank won't
answer.

it's not my death that
worries me, it's my wife
left with this
pile of
nothing.

I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her

even the useless
arguments
were things
ever splendid

and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:

I love
you. 


Charles Bukowski

Tira-gosto