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Wednesday, January 17, 2018

MAPA




Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,depois chego à consciência da terra, ando como os outros,me pregam numa cruz, numa única vida.Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos. Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar, alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,o mundo vai mudar a cara,a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas. Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,me aninharei nos recantos do corpo da noiva,na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.Detesto os que se tapeiam,os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,dos amores raros que tive,vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,estou no ar,na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,no meu quarto modesto da praia de Botafogo,no pensamento dos homens que movem o mundo,nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,sempre em transformação.







POEMA: MURILO MENDES

ARTE: TOM COLBIE

Friday, April 19, 2013

UMA MULHER



Ela estava no círculo familiar como as outras,
Folheando um livro de gravuras:
A noite nos cercava com seus abismos azuis
E a idéia de quase uma floresta próxima.

Alguém acendeu um candeeiro de petróleo,
As pessoas presentes recuaram no tempo.
Ela se levantou para abrir uma vidraça,
E muito branca, toda vestida de preto,
Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes,
Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota,
Hélices mexendo, mãos a correr no teclado.
Quando sentou-se era outra vez a mulher.







Murilo Mendes

SOMOS TODOS POETAS





Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.





Murilo Mendes

Friday, February 08, 2013

CANTIGA DE MALAZARTE



Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.





Murilo Mendes

Monday, November 12, 2012

O MAU SAMARITANO






Quantas vezes tenho passado perto de um doente, 

Perto de um louco, de um triste, de um miserável, 

Sem lhes dar uma palavra de consolo. 

Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros, 

Que outros precisam de mim que preciso de Deus 

Quantas criaturas terão esperado de mim 

Apenas um olhar – que eu recusei.






MURILO MENDES
In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.

Tira-gosto