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Tuesday, October 22, 2013

VAZIO QUE SE DOBRA




So little do we know what we’re about in
This world, I doubt if doubt itself be doubting.

Don Juan  - Lord Byron






as paredes são impostoras
as portas são imposturas
é falso o piso
é embusteira a cobertura
mas
o destino é férreo
& tem fráguas irônicas
são elas as responsáveis
pela força utilitária das chaves
& pela resistência ambígua
das fechaduras






Marcello Chalvinski - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Thursday, April 19, 2012

CINO



Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"

Uma vez, duas vezes, um ano -
E vagamente assim se exprimem:
"Cino ?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?"

Mas e senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
...eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

"Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
..............................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.



Ezra Pound
[Trad. M. Faustino]

Thursday, April 12, 2012

DO LIVRO DO DESASSOSSEGO






(Excerto)




"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."











Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)


Tuesday, March 20, 2012

O TERCEIRO LADO DA PONTE




os delírios estão de volta
& agitam seus estandartes
envoltos em nuvens de vodka
& canções imaginárias

antropófaga companhia
literária
esta minha solidão
salafrária
ri-se a contemplar a correria
das tropas incendiárias

pela ponte
de avarias várias
vai o ar
vai a palavra
vão os ais
vão as árias

pela ponte
vão as gentes
vão as alimárias

por entre postes
vãos & vogais
consoantes mercenárias
tramam emboscadas fatais

ensandecidos pelo avanço
de hordas tais
há adjetivos que se desprendem
há pilares que caem

pela ponte
a marcha é pesada
os petrechos são de ferro
& as metáforas rangem rangidos desiguais

vis
os delírios avançam
em seu desejo vulcânico

a bela me sorri

o governo da página
entra em pânico





Marcello Chalvinski (Don Juan & o Jardim das Maravilhas)
Arte:Tom Colbie

Monday, March 12, 2012

ANTES DO COMEÇO





Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.


Octavio Paz

IRMANDADE





Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.




Octavio Paz

Thursday, August 18, 2011

OPUS DO DESATINO










do topo da noite
posso adivinhar-te
olhos iluminados
& lábios úmidos...


nos lençóis do dia
(em sonhos)
teu cheiro dissipa
a névoa do meu silêncio

mas
como um menino
nosso destino
deixo ao ocaso









POEMA: M. CHALVINSKI - ANJO NA FAUNA - 1999 ~ARTE: TOM COLBIE

Tira-gosto