Pages

TRADUTOR

Showing posts with label JARDIM. Show all posts
Showing posts with label JARDIM. Show all posts

Wednesday, January 01, 2014

NOITE INSULAR, JARDINS INVISÍVEIS







A Prova do Jade


Quando cheguei à subdividida casa

onde tanto poderia encontrar o falso

relógio de Potsdam os dias de visita

do enxadrista Von Palem, ou o periquito

de porcelana da Saxônia, favorito de Maria Antonieta.

Estava ali também, em sua caixa de pelúcia

negra e de algodão envolto em tafetá branco,

a pequena deusa de jade, com um grande ramo

que passava de uma para a outra mão mais fria.

Ascendi-a até a luz, era o antigo

raio de lua cristalizado, o gracioso bastão

com que os imperadores chins juravam o trono,

e dividiam o bastão em duas partes e a sucessão

milenária seguia subdividindo e sempre ficava o jade

para jurar, para dividir em duas partes,

para o yin e para o yang.

Mas o provador, ocioso de metais e de jarras,

me disse com sua cara rápida de coelho cor caramelo:

apóie-se na face, o jade sempre frio.

Senti que o jade era o interruptor,

o interposto entre o pascalino entre-deux,

o que suspende a afluência claroescura,

a espada para a luminosidade espelhante,

a sílaba detida entre o rio que impulsa

e o espelho que detém.

Dá prova de sua validez pelo frio,

isca para o coelho úmido.

Todas as jóias na lâmina do escudo:

matinal o coelho oscilando

seus bigodes sobre uma espiga de milho.

Que começos, que ouros, que trifólios,

o coelho, a rainha do jade, o frio que interrompe.

Mas o jade é também um carbúnculo entre o rio e o espelho,

uma prisão de água onde se espreguiça

o pássaro fogueira, desfazendo o fogo em gotas.

As gotas como peras, imensas máscaras

às quais o fogo ditou as escamas de sua soberania.

As máscaras feitas realezas pelas entranhas

que lhes ensinaram como o caracol

a extrair a cor da terra.

E a frieza do jade sobre as faces,

para proclamar sua realeza, seu peso verdadeiro,

seu rastro congelado entre o rio e o espelho.

Provar sua realidade pelo frio,

a graça de sua janela pela ausência,

e a rainha verdadeira, a prova do jade,

pela fuga da geada

em um breve trenó que traça letras

sobre o ninho das faces.

Fechamos os olhos, a neve voa.








Lezama Lima

(Trad. Haroldo de Campos / Arte: Tom Colbie)

Sunday, July 08, 2012

SUSANA BOMBAL









No alto da tarde, altiva e elogiada
Cruza o jardim casto & está na exata
Luz do instante irreversível e puro
Que nos dá este jardim e a alta imagem
Silenciosa. Eu a vejo aqui & agora
Mas também a vejo no antigo
Crepúsculo de Ur dos Caldeus
ou descendo as escadas lentas
de um templo, que é a poeira inumerável
do planeta e que foi pedra e soberba,
ou a decifrar o mágico alfabeto
das estrelas de outras latitudes
ou a cheirar uma rosa na Inglaterra.
Está onde está a música no leve
azul, no hexâmetro grego,
na solidão nossa que procuram,
no espelho d’água da fonte
no mármore do tempo, numa espada,
na serenidade de um terraço
que divisa ocasos e jardins.
E por trás dos mitos e máscaras,
a alma que está sozinha.








Jorge Luis Borges
[Trad.: Marcello Chalvinski]





Susana Bombal


Alta en la tarde, altiva y alabada,
cruza el casto jardín y está en la exacta
luz del instante irreversible y puro
que nos da este jardín y la alta imagen
silenciosa. La veo aquí y ahora,
pero también la veo en un antiguo
crepúsculo de Ur de los Caldeos
o descendiendo por las lentas gradas
de un templo, que es innumerable polvo
del planeta y que fue piedra y soberbia,
o descifrando el mágico alfabeto
de las estrellas de otras latitudes
o aspirando una rosa en Inglaterra.
Está donde haya música, en el leve
azul, en el hexámetro del griego,
en nuestras soledades que la buscan,
en el espejo de agua de la fuente,
en el mármol de tiempo, en una espada,
en la serenidad de una terraza
que divisa ponientes y jardines.
Y detrás de los mitos y las máscaras,
el alma, que está sola.



Jorge Luis Borges


Monday, May 07, 2012

O JARDIM DO AMOR



Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi algo jamais avistado:
No centro havia uma Capela,
Onde eu brincava no relvado.

Tinha os portões fechados, e "Proibido"
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Que outrora dera tanta flor bonita,

E vi que estava cheio de sepulcros,
E muitas lápides em vez de flores;
E em negras vestes hediondas os Padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.





WILLIAN BLAKE

Tira-gosto