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Wednesday, September 27, 2017

SAUDADES BÁRBARAS








eu guardo até hoje essa doce lembrança que você deixou
ouço tua voz no álbum da memória que você gravou
no palco da esperança, o sonho baila numa dança
os passos tristes que tão torpe destino coreografou

essas lágrimas tão sofridas que agora brilham nos meus olhos
refletem a dor dessa saudade, pois ainda quero o teu amor
eu bem sei que já é tarde, mas meu coração feito em pedaços
canta a canção dos teus abraços, vivendo um show que se acabou

dói-me saber ao fim que o fim roubou de mim toda alegria
do romance mais feliz, a solidão é tudo que restou
vejo o teu sorriso noite e dia no espelho da poesia
sob a luz da fantasia, sol voraz que o tempo congelou

a lua que reluz em meu terraço ilumina meu cansaço
e deixa claro teu descaso que em abandono me deixou
eu uso de toda a minha coragem pra preencher esse espaço
frio e malfadado que no fundo do meu peito se criou

de bar em bar eu bailo e bebo aos vis acordes da tristeza
de dose em dose mais uísque, outra cerveja, e um cigarro a arder
queimando a toalha sobre a mesa, como queima essa certeza
de ter agido errado, mesmo assim eu não quero te perder

& hoje, enquanto escrevo esse poema, navegando na má sorte
vida ou morte é o meu dilema, sofro mais do que imaginas
sem você meu mar já não tem norte por favor me abraça forte
na deriva das esquinas, não tenho versos, estou sem rimas





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Tuesday, June 13, 2017

O HOMEM COM BELOS OLHOS

  


Quando éramos crianças
havia uma casa estranha,
as cortinas estavam
sempre
fechadas,
nós nunca ouvíamos uma voz
dentro dela.
O jardim se arrepiava todo
em bambus altos,
nós gostávamos de brincar
no bambuzal.
Fingir ser
Tarzan
(embora não tivéssemos
Jane).
E havia um
tanque de peixes,
um dos grandes,
cheio dos
mais gordos peixes dourados
que você já viu.
Eles eram
mansinhos,
vinham para a
superfície da água
e comiam farelo de
pão
em nossas mãos.

Nossos pais disseram:
“Nunca cheguem perto daquela
casa”.
Portanto, é óbvio,
nós fomos para a casa.
A gente se perguntava
se alguém vivia ali.
Semanas se passaram e
nunca vimos
ninguém.
Então um dia
ouvimos
uma voz.
Vinha da casa:
“SUA PUTA
DESGRAÇADA!”
Era a voz de um
homem.
Em seguida
a porta de tela
da casa
foi aberta
num só puxão,
e o homem
caminhou
para fora.
Ele carregava uma
garrafa de uísque
em sua
mão direita.
Tinha uns
30 anos.
Um cigarro
em sua
boca.
Precisava se barbear.
Seu cabelo era
selvagem e
despenteado.
Pés
Descalços.
Camiseta simples
e calças.
Mas seus olhos
eram
brilhantes.
Eles ardiam
de tanto brilho.
E ele disse:
“Hey, pequenos
cavalheiros,
tendo bons
momentos, eu
espero.”
Então ele deu um
curto riso
e andou
de volta para dentro
daquela casa.
Nós saímos, voltamos
para o jardim dos meus pais,
e pensamos
sobre o ocorrido.
Nossos pais,
decidimos,
queriam nos
manter afastados
daquela casa
porque eles
não queriam que nós
víssemos um homem
como
aquele.
Um forte e natural
homem
com
belos
olhos.
Nossos pais
tinham vergonha
por
não ser
como aquele
homem,
eis por que eles
queriam
nos manter
afastados.
Mas
nós voltamos
para aquela casa
para o bambuzal
para os mansinhos
peixes-dourados.
Nós voltamos
muitas vezes
durante muitas semanas,
mas nós
não vimos
ou ouvimos
o homem
outra vez.
As cortinas estavam
fechadas
como sempre,
e somente se ouvia
o silêncio.
Então um dia
quando voltamos da
escola,
nós vimos
a casa.
Ela havia sido toda
queimada,
nada tinha restado
intacto.
Eram apenas cinzas e a fumegante,
retorcida e negra
fundação.
E nós fomos para
o tanque de peixes.
Dentro dele
não restava água,
e os gordos
peixes alaranjados
estavam mortos
ali,
secando.







Nós voltamos para
o jardim dos meus pais
e conversamos sobre
o ocorrido.
E decidimos que
nossos pais
queimaram aquela casa,
mataram
quem nela morava,
mataram
os peixes dourados,
porque era
tudo muito
belo,
mesmo o bambuzal
havia sido
queimado.
Eles temiam
o homem
com os belos
olhos.
E
nós tememos
desde então
que
ao longo de nossas vidas
coisas como aquela
acontecessem,
e ninguém
quisesse que
alguém
fosse
forte
e belo
daquele jeito.
Tememos que
os outros nunca
permitissem.
E que
muitas pessoas
teriam de
morrer.



Poema: CHARLES BUKOWSKI

Arte: TOM COLBIE

Saturday, May 03, 2014

UM PARQUE DE DIVERSÕES DA CABEÇA



 27



              Pavões caminhavam
         no lu(ar) desaparecido
                     sob as árvores
                                       da noite

                       quando eu saí
                            à procura de amor
          naquela noite


              Um pombo-coleira gemeu no esconderijo
Um sino soou duas vezes
                                 Uma, para o nascimento
               e uma para a morte
                                         do amor
                                                   naquela noite







Lawrence Ferlinghetti


[Trad.: Marcello Chalvinski]





Original
_____________________

A Coney Island of the mind
Lawrence Ferlinghetti



27

Peacocks walked
under the night trees
in the lost moon
light

when I went out
looking for love
that night


A ring dove cooed in a cove
A cloche tolled twice
once for birth
and once for the death
of love
that night

Sunday, April 07, 2013

A GERAÇÃO PERDIDA




estive lendo um livro sobre uma rica literata
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedos preciosos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de serem
brinquedos preciosos.
por todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a rica literata e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com olhares inteligentes
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum deles
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedos preciosos
por se sujeitarem
a isso.







Charles Bukowski
[
Trad: M. Chalvinski]












the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally commited his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

Sunday, February 03, 2013

O FIM DO MUNDO É O AMOR






COMEÇO

o amor é o começo do mundo
o amor é o meio do mundo
o amor é o fim do mundo



MEIO

o começo do mundo é o amor
o meio do mundo é o amor
o fim do mundo é o amor



FIM

o mundo do amor é o começo
o mundo do amor é o meio
o mundo do amor é o fim


recomeço?





Marcello Chalvinski – Jardim das Maravilhas – Brancaleone Editores 2013


Wednesday, January 30, 2013

VIAGEM AO INTERIOR DA PÁGINA






não.
não invento o poema.
ele, meu amor sonhado,
é o sortilégio do teu sorriso santo.

não invento o poema.

vindo
de onde vêm os poemas
é o poema
que me inventa
no papel em branco.





M.Chalvinski in D.Juan Flâneur - Brancaleone Editores

Tuesday, November 20, 2012

LONGE DENTRO DE NÓS - I







Levantamos nossos braços

A rua sobe ao céu

Baixamos nossos olhos

Os telhados descem à terra



De todas as dores

Não mencionamos

Um castanheiro que cresce

E permanece misterioso atrás de nós



De toda a esperança

Nós apreciamos

Os brotos de uma estrela

Que se move inatingível diante de nós



Você pode ouvir uma bala

Voando sobre nossas cabeças

Você pode ouvir uma bala

Esperando para emboscar o nosso beijo









Poema: Vasko Popa
Traduzido a partir do Inglês p/ M. Chalvinski
- Fonte: http://www.sanjeev.net/poetry/
Arte: Tom Colbie

Monday, June 25, 2012

ÍNCUBO



na cama

à minha frente
preparas o beijo
inconsciente

silencioso
alegro teu sono
inoculando orgasmos
em teu corpo


mas
depois do gozo
deixo-te convulsa
em pesadelos
&
mesmo assim
teu marido
dormindo ao lado
nada percebe



Marcello Chalvinski (Anjo na Fauna, 1999)

A DAMA MELANCÓLICA



ela fica lá em cima
bebendo vinho
enquanto o marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas revistinhas
teve dois ou
três de seus finos
volumes de poemas
mimeografados
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a mulher bonita que
costumava ser.
ela envia
fotos de si mesma
sentada sobre uma rocha
junto ao oceano
sozinha e condenada.
Eu poderia ter tido
ela uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia tê-la
salvado?
em todos os seus poemas
Seu marido
nunca é mencionado.
mas ela costuma
falar sobre seu
jardim
por isso sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os passarinhos
antes de escrever
seus poemas.



CHARLES BUKOWSKI
[Tradução: Marcello Chalvinski]

Monday, May 28, 2012

UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO


d'O Livro das Ignorãças 


I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.





Manoel de Barros

Tira-gosto