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Thursday, September 14, 2017

CORAÇÃO & MENTE



inexplicavelmente estamos sozinhos
para sempre sozinhos
e era pra ser
assim,
não era pra ser
de nenhum outro modo -
quando a luta contra a morte
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de faces humanas
pairando sobre mim -
prefiro meus velhos amigos,
e as paredes de mim mesmo,
que estejam somente eles ali.
tenho estado sozinho mas raramente
solitário.
satisfiz minha sede
no poço
de mim mesmo
aquele vinho era bom,
o melhor que já bebi,
e esta noite
sentado
olhando a escuridão
finalmente entendo
a escuridão e a
luz e tudo que está
entre os dois.
a paz da alma e do coração
chega
quando aceitamos como
é:
ter nascido
nesta
estranha vida
devemos aceitar
as inúteis apostas de nossos
dias
e nos satisfazer com
o prazer de
deixar tudo
pra trás.
não chore por mim.
não sofra por mim.
leia
o que escrevi e
então
esqueça
tudo.
beba do poço
de você mesmo
e comece
de novo.
Poema: Charles Bukovski
Arte: Tom Colbie

Saturday, November 30, 2013

TREPADEIRA



Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos





VASKO POPA

[Trad: Aleksandar Jovanovic]

Friday, February 08, 2013

AUSÊNCIA



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




Poema: Vinícius de Moraes

Arte: Tom Colbie

Thursday, February 07, 2013

APRISIONADO







no inverno caminhando em meu
teto meus olhos do tamanho de luzes de
poste, tenho quatro patas como um rato mas
lavo minhas roupas íntimas - barbeado e
de ressaca e de pau duro e sem advogado.
tenho cara de esfregão. canto
canções de amor e carrego aço.


preferiria morrer a chorar. não suporto
a matilha não posso viver sem ela.
inclino minha cabeça contra o refrigerador
branco e quero gritar como
o último lamento de vida para todo sempre mas
sou maior do que as montanhas.





Charles Bukowski

Tuesday, March 20, 2012

O TERCEIRO LADO DA PONTE




os delírios estão de volta
& agitam seus estandartes
envoltos em nuvens de vodka
& canções imaginárias

antropófaga companhia
literária
esta minha solidão
salafrária
ri-se a contemplar a correria
das tropas incendiárias

pela ponte
de avarias várias
vai o ar
vai a palavra
vão os ais
vão as árias

pela ponte
vão as gentes
vão as alimárias

por entre postes
vãos & vogais
consoantes mercenárias
tramam emboscadas fatais

ensandecidos pelo avanço
de hordas tais
há adjetivos que se desprendem
há pilares que caem

pela ponte
a marcha é pesada
os petrechos são de ferro
& as metáforas rangem rangidos desiguais

vis
os delírios avançam
em seu desejo vulcânico

a bela me sorri

o governo da página
entra em pânico





Marcello Chalvinski (Don Juan & o Jardim das Maravilhas)
Arte:Tom Colbie

Thursday, August 18, 2011

Há musas que passeiam à minha janela






há musas que passeiam
à minha janela
seus cabelos
são como a copa
das árvores maiores
graciosas
me oferecem sorrisos
& sonhos
seus sexos de ninfa
seus vinhos mais doces...
sem palavras
tomo mais um uísque
& aproveito a solidão






(De O ANJO NA FAUNA 1999)

Tira-gosto