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Thursday, April 26, 2012

MÍSTICA








No declive da escarpa anjos giram suas togas de lã
sobre relvas de aço e esmeralda.
Prados de chamas saltam até as mamas dos montes.
À esquerda, o humo dos sulcos é pisado por todos os homicidas
e todas as batalhas, e todos os ruídos do desastre traçam sua curva. Atrás do sulco à direita, a linha dos orientes, dos progressos.
E enquanto a faixa no alto do quadro se forma
do rumor giratório e saltitante das conchas do mar e das noites humanas, a doçura florida das estrelas e do céu e do resto
desce diante da escarpa, como um cesto, — contra nossa face,
faz um abismo azul em flor lá embaixo.




Arthur Rimbaud




Wednesday, March 14, 2012

A CANÇÃO DO DELIRANTE AENGUS





Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.
Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.
Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.






Poema: William Butler Yeats


Arte: Tom Colbie

Monday, November 07, 2011

DIVERBIUM



filamentos lunares
perfuram nuvens
carregadas de hipertextos

ora direis
ouvir estrelas

os casarões da ilha
resistem à gargalhada
atroz dos arranha-céus

salta clown!

o aguaceiro ainda lambe
as pedras de cantaria

&
do alto do parnaso
cérbero espia

vê como é fria
a carne descontextualizada
fina flor dessa agonia

boa noite sol
até um dia
quando eu acabar
com aquela garrafa vadia

(tubulações aéreas
vazam fluido anti-solar)

no ar
o sorriso misericordioso de irene
pende spleen & ideal
fusão sinóptica de idéias
em desnexo visual

antroponáutica
antropofagia
antro pária
vê:
é só demiurgia
eletricidade paliativa
para a fadiga
da orgia

ora direis
ouvir estrelas

o azar é um dançarino

desvirgem
despalavra
desverbo
desfrase
desverso
desrima
a virgem
que encontrei

é crua a vida
alça de tripa & metal

atenta:
loucos são todos em suma

prostitutas de maldoror
ainda uma vez
adeus!

prostitutas de macondo
só vou por onde
me levam meus próprios passos!

prostitutas de pasárgada
ora direis
ouvir estrelas...

toma um fósforo
& acende o teu cigarro

vêm aí
os vagalumes idiotas
os alcalóides à vontade
& as chuvas de quatro anos

ai de ti copacabana
pátria amada
salve
salve-se

se eu fizer poesia
com a tua miséria
sorte no jogo
azar no amor





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Tira-gosto