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Wednesday, September 27, 2017

SAUDADES BÁRBARAS








eu guardo até hoje essa doce lembrança que você deixou
ouço tua voz no álbum da memória que você gravou
no palco da esperança, o sonho baila numa dança
os passos tristes que tão torpe destino coreografou

essas lágrimas tão sofridas que agora brilham nos meus olhos
refletem a dor dessa saudade, pois ainda quero o teu amor
eu bem sei que já é tarde, mas meu coração feito em pedaços
canta a canção dos teus abraços, vivendo um show que se acabou

dói-me saber ao fim que o fim roubou de mim toda alegria
do romance mais feliz, a solidão é tudo que restou
vejo o teu sorriso noite e dia no espelho da poesia
sob a luz da fantasia, sol voraz que o tempo congelou

a lua que reluz em meu terraço ilumina meu cansaço
e deixa claro teu descaso que em abandono me deixou
eu uso de toda a minha coragem pra preencher esse espaço
frio e malfadado que no fundo do meu peito se criou

de bar em bar eu bailo e bebo aos vis acordes da tristeza
de dose em dose mais uísque, outra cerveja, e um cigarro a arder
queimando a toalha sobre a mesa, como queima essa certeza
de ter agido errado, mesmo assim eu não quero te perder

& hoje, enquanto escrevo esse poema, navegando na má sorte
vida ou morte é o meu dilema, sofro mais do que imaginas
sem você meu mar já não tem norte por favor me abraça forte
na deriva das esquinas, não tenho versos, estou sem rimas





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Monday, February 04, 2013

NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA





Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.






Dylan Thomas – Tradução:Ivan Junqueira
Arte: Tom Colbie

Monday, April 23, 2012

BARBIE PROCURA NAMORADO





De vestido, bolsa e sapatos rosa ela desfila sua graça pela Nauro Machado, praça onde acontece parte das festividades do pré-carnaval, no palco Tião Carvalho com o cavaquinho e poderosa banda anima os foliões ao som do Baralho, não são muitos os que dançam e a praça está quase vazia, pois a hora é cedo. Sozinha. Espalha sua beleza vestindo uma peruca escandalosamente branca. Seus olhos buscam conhecidos, amigos, amigas. Conversa aqui. Conversa acolá. Uma latinha de cerveja. Ninguém é de ferro. Êh! Menina, quanto tempo. Beijos, abraços, alegria esfuziante. Quanto tempo, pois é, casei, agora estou mais em casa. E tu, sempre bonita, tá só? nesse carnaval? não acredito? pois eu estou com o Igreja há mais dois anos, sabe como é casamento, a gente fica mais em casa, e tu. Saí um tempo aí com o Daniel, mas sabe o cara é cheio de pose, machisssta, ciumento, é um cara legal, no fundo um tímido inseguro, saímos muitas vezes, mas não quis ficar com ele, até dei uns beijos nele. Acho que gorou, fomos ficando cada vez mais competitivos um com o outro, ele pra provar que era macho ia ficando com umas e outras, eu também fui arranjando uns e outros, que eu não sou de perder pra buchudo, agora ele casou, encontrou uma menina se apaixonou, coisa da vida. mas estou bem o que não me falta é pretendente, basta eu fazer assim oh que tá aqui na minha mão. rssss... Olha esse coroa, bonito, gosto de cara assim... É o Alberto, é músico, liso, sabe como é essa moçada da música vive no vermelho, mas dizem que é muito bom de cama. Me apresenta. Alberto, toma um chopp aqui com a gente, te apresento minha amiga. Prazer sou Barbie e não faz esta cara de espanto, mamãe gostava da boneca, que é isso, o nome combina com você, é, hoje eu estou no personagem. Tem festa hoje no Labô. É uma boa,vamos lá. vamos. antes que chova, não demora chover. Ferveção geral. Fofões, super heróis, bruxas, mulher das cavernas, nêga maluca, confetes e serpentinas. Perdem-se no salão. Cada um pra seu lado. O rosa vestido de Barbie confundia-se com o rosa vestido de Nôni, jovem artista, vestido de mulher e esmerando-se na interpretação. A cervejinha. O cigarro envergonhado pelos cantos. No banheiro o discreto movimento do bright. Normal em toda festa. A fome atacara Alberto que se sacia com peixe frito, arroz e vatapá. O tempo despeja água em profusa chuva de sons e afastado do salão ele conversa com Araújo amigo de música, de vida. Conversa sem pressa. Dois pra lá, dois pra cá. Espremem-se no corredor ajanelado da casa, passagem dos que vão ao banheiro, dos que vão ao bar. Balcão. Os sons diminuem e os pingos não amedrontam os foliões suarentos a buscar uma fresca. Um casal divide, a gelada, e a conversa embevecidos, ele pelos encantadores olhos adornados de sorriso rosa, ela pela prosa, as conversas, amigas, iphone. Os olhos de Barbie permanecem famintos, rodam pelo salão a procura de nada. Um baseado. Alberto sentiu vontade de fumar um. Romão, dançarino e pintor, apresentou. Os dedos haviam enrolado e a língua umedecia a parte exposta da seda para fechar o cigarro, Alberto viu Momo,. Momo viu Alberto. Tu não pode fumar aqui. Posso, vou fumar. Vou chamar o segurança. Chama. Vou acender; acende. O tempo úmido não colabora os pingos sonoros são finos, dificultam a queima. É difícil acender. Não acende isto aí, te peço. Alberto aquiesce. Desce as escadas e encostado ao portal do casarão fuma com Romão, Justina, dançarina, e o flanelinha de sombrinha que se aproxima. A Bandida começa a tocar, o salão pega fogo, homem com mulher, mulher com homem, homem com homem, mulher com mulher, tudo no aceitável mundo do carnal, do carnaval. Saudosas serpentinas, tímidos confetes e inexistente maisena colorem a festa de verdes, dourados, brancos, pretos,paetês, acetatos. Eu fui cozinhar um ovo, mas tinha um pinto dentro, você já pensou se eu cozinho com o pinto dentro. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho com o pinto dento. O cantor agitava o refrão, Nôni descia até o chão rebolando na garrafa. Mulher das Cavernas beija Capitão Gay. Cruz Diabo abraça Fofão. O sons vão silenciando. Para a festa. A Banda. A chuva. Barbie pega uma carona com o casal. Alberto pega um taxi. Segunda-feira de carnaval, carnaval de segunda, Alberto assiste ao tambor de crioula. Desponta de branco, meiga e nada tímida, com enorme peruca rosa, aos beijos com um jovem com uma enorme guitarra tatuada no braço. Oi Barbie.






ZéMaria Medeiros


Monday, March 12, 2012

IRMANDADE





Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.




Octavio Paz

Thursday, October 20, 2011

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.




Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."




Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares (FP)

Friday, March 25, 2011

O DEFUNTO




Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enorme salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

- Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.
- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.
- Meus amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.














PEDRO NAVA

Saturday, February 26, 2011

DELÍRIOS II - ALQUIMIA DO VERBO





(Da série Influências)



Para mim. A história de minhas loucuras. Há muito me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e tenho como ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amo as pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem ortografia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingênuos, ritmos simplíssimos.

Sonhei cruzadas, viagens de descobrimentos das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, mais dia, menos dia, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los. Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites. Anotava o indizível. Fixava vertigens.




Poema: Arthur Rimbaud

Arte: Tom Colbie




Arthur Rimbaud



Tira-gosto