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Friday, January 26, 2018

O PIROTÉCNICO ZACARIAS




E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio dia;
e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela d’alva.
(Jó, XI, 17)


Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias? A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo — o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado. Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra. Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou. — Simplício Santana de Alvarenga! — Presente! Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia. — “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!” (Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.) — Simplício Santana de Alvarenga! — Não está? — Tire a mão da boca, Zacarias! — Quantos são os continentes? — E a Oceania? Dos mares da China não mais virão as quinquilharias. A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam dona Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto. — Simplício Santana de Alvarenga! — Meninos, amai a verdade! A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu. Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra. As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso, com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens. Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria. Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver — o meu ensanguentado cadáver — não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar. A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente enganados, como explicarei mais tarde.) Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam. O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado. Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Esse argumento não me ocorreu no momento.) Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso. Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais. Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido: — Alto lá! Também quero ser ouvido. Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me. Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível. A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos. Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento. Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, o que me prontifiquei a fazer rapidamente. Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa. * * * Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida, que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico. Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.) Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo. Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte. No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto. Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos.



MURILO RUBIÃO
Arte: Tom Colbie

Saturday, December 23, 2017

THE LONG STREET



A longa rua
que é a rua do mundo
passa pelo mundo
cheio de todas as pessoas do mundo
para não mencionar todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
virgens e travessas
Vendedores de espaguete e homens-sanduíche
leiteiros e oradores
banqueiros desossados
donas de casa zelosas
envoltas em esnobices de nylon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí
pendurando-se nas janelas
para ver o que está acontecendo
no mundo
onde tudo acontece
cedo ou tarde
se é que acontece mesmo
E a longa rua
que é a rua mais longa
em todo o mundo
mas que não é tão longa
como parece
passa
através de todas as cidades e todas as cenas
em cada beco
em cada boulevard
através de cada encruzilhada
através de luzes vermelhas e luzes verdes
cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
Tuscaloosas incapazes
Oaklands da alma
Dublands da imaginação
E a longa rua
rola em torno
como um  enorme trem que apita
ofegando ao redor do mundo
com seus passageiros feridos
e bebês e cestas de piquenique
e gatos e cachorros
e todos eles estão se perguntando
quem está
no cabine à frente
pilotando o trem
se é que há alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que gira
todos se perguntando
o que está acontecendo
se há alguma coisa
e alguns deles se inclinando
e olhando para frente
e tentando pegar
um olhar do maquinista
em sua a cabine de um olho só
tentando vê-lo
vislumbrar sua face
para chamar a atenção
enquanto giram em torno de uma curva
mas eles nunca conseguem
embora de vez em quando
Parece que
eles estão conseguindo
E a rua passa a jogar boliche
com as janelas atingindo
as janelas de todos os edifícios
de todas as ruas do mundo
através da luz do mundo
pela noite do mundo
com sinais nos cruzamentos
Luzes perdidas piscando
multidões em carnavais
circos a boca da noite
Puteiros e parlamentos
fontes esquecidas
portas de adega e portas sem recursos
figuras na luz da lâmpada
Ídolos pálidos dançando
à medida que o mundo vai
Mas agora nós chegamos
à parte mais solitária da rua
Isso acontece
a parte solitária do mundo
E este não é o lugar
que você vai mudar de trem
para o Brighton Beach Express
Este não é o lugar
que você faz qualquer coisa
Esta é a parte do mundo
onde nada está acontecendo
onde ninguém está fazendo
qualquer coisa
onde ninguém está em qualquer lugar
ninguém ao lado
exceto você
nem mesmo um espelho
para fazer você em dois
nenhuma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não está lá
talvez
ou então não é a sua
talvez
porque você é o que se chama
morto
você alcançou sua estação

Desce!

__________________________________



which is the street of the world
passes around the world
filled with all the people of the world
not to mention all the voices
of all the people
that ever existed
Lovers and weepers
virgins and sleepers
spaghetti salesmen and sandwichmen
milkmen and orators
boneless bankers
brittle housewives
sheathed in nylon snobberies
deserts of advertising men
herds of high school fillies
crowds of collegians
all talking and talking
and walking around
or hanging out windows
to see what’s doing
out in the world
where everything happens
sooner or later
if it happens at all
And the long street
which is the longest street
in all the world
but which isn’t as long
as it seems
passes on
thru all the cities and all the scenes
down every alley
up every boulevard
thru every crossroads
thru red lights and green lights
cities in sunlight
continents in rain
hungry Hong Kongs
untillable Tuscaloosas
Oaklands of the soul
Dublands of the imagination
And the long street
rolls on around
like an enormous choochoo train
chugging around the world
with its bawling passengers
and babies and picnic baskets
and cats and dogs
and all of them wondering
just who is up
in the cab ahead
driving the train
if anybody
the train which runs around the world
like a world going round
all of them wondering
just what is up
if anything
and some of them leaning out
and peering ahead
and trying to catch
a look at the driver
in his one-eye cab
trying to see him
to glimpse his fave
to catch his eye
as they whirl around a bend
but they never do
although once in a while
it looks as if
they’re going to
And the street goes bowling on
with its windows reaching up
its windows the windows
of all the buildings
in all the streets of the world
bowling along
thru the light of the world
thru the night of the world
with lanterns at crossings
lost lights flashing
crowds at carnivals
nightwood circuses
whorehouses and parliaments
forgotten fountains
cellar doors and unfound doors
figures in lamplight
pale idols dancing
as the world rocks on
But now we come
to the lonely part of the street
that goes around
the lonely part of the world
And this is not the place
that you change trains
for the Brighton Beach Express
This is not the place
that you do anything
This is the part of the world
where nothing’s doing
where no one’s doing
anything
where nobody’s anywhere
nobody nowhere
except yourself
not even a mirror
to make you two
not a soul
except your own
maybe
and even that
not there
maybe
or not yours
maybe
because you’re what’s called
dead
you’ve reached your station.
Descend


LAWRENCE FERLINGHETTI
Tradução: M. Chalvinski
The Long Street, A Coney Island of the Mind
Art Tom Colbie

Friday, July 14, 2017

BELCHIOR BLUES










a paixão é uma coragem que vicia
& a mim não importa que você peça
meu coração numa bandeja
não quero o que a cabeça pensa
quero o que a alma deseja

aqui nessa canalhice, nesse bar
nada mais importa
o amor veio e bateu na minha porta
o amor levou o número dos meus sapatos
a minha cédula de identidade
expulsou os meus amigos
diluiu minhas amantes
o amor me deu dor de cabeça
o amor bebeu o meu uísque
fumou os meus cigarros
tomou minhas aspirinas

o amor viajou para o Tibet
galopou um camelo
dormiu em árvores à noite
tingiu os seus sapatos de azul
morou em um barril

o amor não partiu
mas levou todas as minhas dores
todos os meus temores
& sem pedir favores

acabou até com o meu medo da morte



POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Saturday, November 30, 2013

TREPADEIRA



Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos





VASKO POPA

[Trad: Aleksandar Jovanovic]

Tuesday, October 15, 2013

MUNDANO




1
há no cintel
deste estranho engenho
um liame cintilante
que corto à faca afoito
à noite & diante
de um espelho cru
do qual desdenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho

cavalgo mundano
meu pégaso-verso
como um lorde negro
em seu dragão avesso
como eu mesmo
fauno-pássaro
como eu-outro
cavalo-profano

2
ah, que glamour vagabundo me enlaça!

são doces as fêmeas
& delicados seus ardis
o álcool dourado grassa
& o fumo prateado desce
às profundezas febris
há rendas diáfanas
saias-metáforas
sutis lingeries

um gemido de unhas vermelhas
de um salto me agarra
& logo atraído pela rara
indecência dessa lascívia sonora
cravo meus olhos de fera
na agridoçura desse olhar que demora

3
agora
minha anamorfose mundana
em ângulo obtuso me revela
& com suas garras de pantera
a cruel solidão me apavora

& cíclico & inquietante
o liame vil & cintilante
surge sem nexo
tornado infame reflexo
no vívido espelho
desse sonho convexo
que agora mesmo redesenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho








Marcello Chalvinski - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Tuesday, February 05, 2013

CONFISSÃO




esperando a morte
como um gato
que vai saltar sobre a
cama

estou muito triste por
minha mulher

ela vai ver este
corpo
branco
duro

agitá-lo uma vez, depois
talvez
agitá-lo novamente

"Hank!"
Hank não vai
responder.

não é minha morte que
me preocupa, é minha mulher
deixada só com este
monte de
nada.

Entretanto
eu quero
que ela saiba
que todas as noites
dormidas
ao seu lado

& até mesmo
as discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

& as
palavras
difíceis
que eu sempre tive medo
de dizer
agora podem ser
ditas:

Eu te amo





Poema: Charles Bukowski 
Tradução: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie





Confession

waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed

I am so very sorry for
my wife

she will see this
stiff
white
body
shake it once, then
maybe
again

"Hank!"
Hank won't
answer.

it's not my death that
worries me, it's my wife
left with this
pile of
nothing.

I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her

even the useless
arguments
were things
ever splendid

and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:

I love
you. 


Charles Bukowski

Thursday, January 17, 2013

ARCANO MAIOR





todas as noites

quando me sento

(pés na sarjeta)

uma estranha forca

desce pelos beirais

& me enlaça o tornozelo


debochadamente

deixo que os risos

me caiam da manga





(Marcello Chalvinski - Anjo na Fauna - 1999)

Monday, June 25, 2012

A DAMA MELANCÓLICA



ela fica lá em cima
bebendo vinho
enquanto o marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas revistinhas
teve dois ou
três de seus finos
volumes de poemas
mimeografados
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a mulher bonita que
costumava ser.
ela envia
fotos de si mesma
sentada sobre uma rocha
junto ao oceano
sozinha e condenada.
Eu poderia ter tido
ela uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia tê-la
salvado?
em todos os seus poemas
Seu marido
nunca é mencionado.
mas ela costuma
falar sobre seu
jardim
por isso sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os passarinhos
antes de escrever
seus poemas.



CHARLES BUKOWSKI
[Tradução: Marcello Chalvinski]

Tuesday, April 17, 2012

GUERRA






Criança,
certos céus aguçaram minha ótica:
todos os caracteres matizaram minha fisionomia.
Os fenômenos me emocionaram.
— Hoje, a inflexão eterna dos momentos
e o infinito das matemáticas
me perseguem por este mundo
onde suporto todos os sucessos civis,
respeitado pela infância estranha
e por imensos carinhos.
— Sonho com uma Guerra,
de direito ou de força,
com uma lógica nada previsível.
Tão simples quanto uma frase musical.








Arthur Rimabud - Iluminuras

Thursday, April 12, 2012

DO LIVRO DO DESASSOSSEGO






(Excerto)




"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."











Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)


Friday, March 25, 2011

O DEFUNTO




Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enorme salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

- Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.
- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.
- Meus amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.














PEDRO NAVA

Saturday, February 19, 2011

TEMPORAL DE TODOS


A mais nova poesia maranhense não dança na cadência estrófica das valsas casemirianas com seus saudosos enleios infantis. A saudade, tema romântico por excelência, tampouco lhe ampara a visualização memorialística do que passou. Nossos jovens poetas não flagram na retina de suas pupilas, que eu diria precocemente anoitecidas, nem sequer a lembrança buñuelesca daquela bela da tarde, mas somente, e quando muito, o vento de nenhum tempo a soprar-lhes a carnadura, também verbal, de “um balanço de jazz”. Seus versos caem em estrofes sequenciadas pela cadência dos sons em monoblocos rítmicos partidos em apenas três ou quatro sílabas. Há como que um retraimento de espaço físico nessa contenção implodida pela reconstrutividade necessária a um novo edifício. A “aurora da vida” não mais lhes traz os raios luminosos filtrados pelos pavios, talvez em cinzas, de uma recapturação temporal para eles desnecessária. São esses jovens poetas duros como a pedra cabralina. “Nos rios ao norte do futuro”, no vislumbre que lhes concedeu a antevisão de quem, mártir de todos eles, realmente viu e viveu carregando “sonhos escritos por pedras”, eles seguem, aqui na província são-luisense, vivendo de e para a poesia, debaixo desse Temporal, cantado por Marcello Chalvinski.
Se Paul Celam, autor dos versos acima citados, buscou o suicídio físico pela água universal e apátrida do Sena, buscando encontrar nele as cinzas de sua família exterminada nos campos de concentração nazistas, a “educação pela chuva”, água do ventre umbilical, serve para este jovem poeta fixar seus olhos nessa “didática translúcida”, a lhe ensinar a “liquidez verbal”,


“ácida,
orográfica,

pura”.


Os pensamentos deste jovem poeta seguem passo a passo a visualização das coisas na exclusão de uma consensualidade unívoca, pertencente a um patrimônio lingüístico coletivo, gasto e superado pelo uso mistificador dos séculos.
Miscigenando hipertextos com algaravias de esdrúxulas e necessárias metáforas sem sustentação lógica, como poeta que é “do álcool e dos trovões”, “do relâmpago à paixão”, esta poesia incorpora assim a partitura contextual de vários poetas, no sopro lírico de uma modernidade por ele apreendida com inteligência e sensibilidade. E, o que é mais importante, com a continuada reciclagem de um temperamento que se sabe filho, ou rebento fronteiriço, deste nosso século XXI.




Nauro Machado

Tira-gosto