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Sunday, October 27, 2013

SUSTENTÁVEL







capturo sonhos

para salvá-los da extinção

antes de devolvê-los à natureza

dou a eles poemas para comer

ervas para fumar

& alguma realização














Marcello Chalvinski 

Tuesday, October 15, 2013

CONTRAFUGA





A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama.

                                        Schopenhaur 




de mim tudo foge
ah, malditas coisas fugidias!
foge o chão
foge o amor
foge a razão
foge a noite
foge o dia

passei um tempo escrevendo
& outro só imaginando
se você leria

pensei que fosse criação
era demiurgia

meu pensamento fugiu
para um livro de mitologia








M. Chalvinski - D. Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Wednesday, August 24, 2011

UM LANCE DE DARDOS





O QUÂNTICO DOS CÂNTICOS

(radiações térmicas experimentos imaginados)






bélica


1
há uma mina que explode
sob o asfalto da tarde gris
sem que ninguém a toque
rarefaz-se em cabelos etéreos
sustém-se em sapatos de giz

2
há uma textura de pedra
(nessa que explode)
há centenas de ardis
há um silêncio molhado
há um perigo que medra
há bombardeios sutis

3
em meio ao festim dessas balas
essa que explode
(sem que ninguém a toque)
oculta bombas-crisálidas
esconde borboletas-flor-de-lis

4
por trás do ar de donzela
posso adivinhá-la
felina branca
num jardim de opalas
seda clara
sobre o chão de pedras

5
eis que ela
(de tão rara)
engendra transfinita
uma canção
que me abala
&
num bailado
que me desespera
abre a blusa feminil
dispara
química
metálica
biológica
mortífera
ferina pantera

exata
como um míssil
inverossímil
de tão bela











Excerto de TEMPORAL -  Marcello Chalvinski 2005
Arte: Tom Colbie

Saturday, February 19, 2011

TEMPORAL DE TODOS


A mais nova poesia maranhense não dança na cadência estrófica das valsas casemirianas com seus saudosos enleios infantis. A saudade, tema romântico por excelência, tampouco lhe ampara a visualização memorialística do que passou. Nossos jovens poetas não flagram na retina de suas pupilas, que eu diria precocemente anoitecidas, nem sequer a lembrança buñuelesca daquela bela da tarde, mas somente, e quando muito, o vento de nenhum tempo a soprar-lhes a carnadura, também verbal, de “um balanço de jazz”. Seus versos caem em estrofes sequenciadas pela cadência dos sons em monoblocos rítmicos partidos em apenas três ou quatro sílabas. Há como que um retraimento de espaço físico nessa contenção implodida pela reconstrutividade necessária a um novo edifício. A “aurora da vida” não mais lhes traz os raios luminosos filtrados pelos pavios, talvez em cinzas, de uma recapturação temporal para eles desnecessária. São esses jovens poetas duros como a pedra cabralina. “Nos rios ao norte do futuro”, no vislumbre que lhes concedeu a antevisão de quem, mártir de todos eles, realmente viu e viveu carregando “sonhos escritos por pedras”, eles seguem, aqui na província são-luisense, vivendo de e para a poesia, debaixo desse Temporal, cantado por Marcello Chalvinski.
Se Paul Celam, autor dos versos acima citados, buscou o suicídio físico pela água universal e apátrida do Sena, buscando encontrar nele as cinzas de sua família exterminada nos campos de concentração nazistas, a “educação pela chuva”, água do ventre umbilical, serve para este jovem poeta fixar seus olhos nessa “didática translúcida”, a lhe ensinar a “liquidez verbal”,


“ácida,
orográfica,

pura”.


Os pensamentos deste jovem poeta seguem passo a passo a visualização das coisas na exclusão de uma consensualidade unívoca, pertencente a um patrimônio lingüístico coletivo, gasto e superado pelo uso mistificador dos séculos.
Miscigenando hipertextos com algaravias de esdrúxulas e necessárias metáforas sem sustentação lógica, como poeta que é “do álcool e dos trovões”, “do relâmpago à paixão”, esta poesia incorpora assim a partitura contextual de vários poetas, no sopro lírico de uma modernidade por ele apreendida com inteligência e sensibilidade. E, o que é mais importante, com a continuada reciclagem de um temperamento que se sabe filho, ou rebento fronteiriço, deste nosso século XXI.




Nauro Machado

Tira-gosto