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Wednesday, March 06, 2013

TÃO LOUCO QUANTO SEMPRE FUI







bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.


o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada


antes que a luz
se apague


bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.


algumas pessoas me dizem que sou
famoso.


o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?


sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4° andar -
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado


ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:


68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária


aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.



Charles Bukowski

Thursday, August 18, 2011

Há musas que passeiam à minha janela






há musas que passeiam
à minha janela
seus cabelos
são como a copa
das árvores maiores
graciosas
me oferecem sorrisos
& sonhos
seus sexos de ninfa
seus vinhos mais doces...
sem palavras
tomo mais um uísque
& aproveito a solidão






(De O ANJO NA FAUNA 1999)

Thursday, August 11, 2011

Há um pássaro azul no meu coração







há um pássaro azul no meu coração

que quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
e digo, fique aí dentro,
não vou deixar ninguém te ver.
-    há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky em cima dele
e o sufoco com o fumo dos meus cigarros
& as putas & os empregados de bar
& os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
-     há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
e digo, fique escondido,
quer  me arruinar?
quer foder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros?

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
& só o deixo sair às vezes, à noite
quando todos estão dormindo.

Eu lhe digo: sei que estás aí,
não fique triste.
E depois de algum tempo,
eu o coloco de volta,
Ele canta um pouco lá dentro,
Eu não o deixarei morrer de todo
e dormiremos juntos
assim
com o nosso pacto secreto
que é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?




Poema: Charles Bukowski
Trad.  M. Chalvinski
Arte: Tom Colbie

Friday, March 25, 2011

O DEFUNTO




Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enorme salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos
Que ela ponha nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos
Não se esqueçam destas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam! Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

- Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.
- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.
- Meus amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!

Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.














PEDRO NAVA

Tira-gosto