Quando morto estiver meu corpo, Evitem os inúteis disfarces, Os disfarces com que os vivos, Só por piedade consigo, Procuram apagar no Morto O grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz Nem os ramalhetes distintos, Os superfinos candelabros E as discretas decorações.
Quero a morte com mau-gosto!
Dêem-me coroas de pano, Angustiosas flores de pano, Enormes coroas maciças, Como enorme salva-vidas, Com fitas negras pendentes.
E descubram bem minha cara: Que a vejam bem os amigos. Que não a esqueçam os amigos Que ela ponha nos seus espíritos A incerteza, o pavor, o pasmo. E a cada um leve bem nítida A idéia da própria morte.
Descubram bem esta cara!
Descubram bem estas mãos Não se esqueçam destas mãos! Meus amigos, olhem as mãos! Onde andaram, que fizeram, Em que sexos demoraram Seus sabidos quirodáctilos?
Foram nelas esboçados Todos os gestos malditos: Até os furtos fracassados E interrompidos assassinatos.
- Meus amigos! olhem as mãos Que mentiram às vossas mãos... Não se esqueçam! Elas fugiram Da suprema purificação Dos possíveis suicídios.
- Meus amigos, olhem as mãos! As minhas e as vossas mãos!
Descubram bem minhas mãos!
Descubram todo o meu corpo. Exibam todo o meu corpo, E até mesmo do meu corpo As partes excomungadas, As sujas partes sem perdão. - Meus amigos, olhem as partes... Fujam das partes, Das punitivas, malditas partes...
Eu quero a morte nua e crua, Terrífica e habitual, Com o seu velório habitual.
- Ah! o seu velório habitual!
Não me envolvam em lençol: A franciscana humildade Bem sabeis que não se casa Com meu amor da Carne, Com meu apego ao Mundo.
Eu quero ir de casimira: De jaquetão com debrum, Calça listrada, plastron... E os mais altos colarinhos.
Dêem-me um terno de Ministro Ou roupa nova de noivo... E assim solene e sinistro, Quero ser um tal defunto, Um morto tão acabado, Tão aflitivo e pungente, Que sua lembrança envenene O que resta aos amigos De vida sem minha vida. - Meus amigos, lembrem de mim. Se não de mim, deste morto, Deste pobre terrível morto Que vai se deitar para sempre Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão Os penetras escorraçados, As prostitutas recusadas, Os amantes despedidos, Como os que saem enxotados E tornariam sem brio A qualquer gesto de chamada.
Meus amigos, tenham pena, Senão do morto, ao menos Dos dois sapatos do morto! Dos seus incríveis, patéticos Sapatos pretos de verniz. Olhem bem estes sapatos, E olhai os vossos também.