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Saturday, December 23, 2017

THE LONG STREET



A longa rua
que é a rua do mundo
passa pelo mundo
cheio de todas as pessoas do mundo
para não mencionar todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
virgens e travessas
Vendedores de espaguete e homens-sanduíche
leiteiros e oradores
banqueiros desossados
donas de casa zelosas
envoltas em esnobices de nylon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí
pendurando-se nas janelas
para ver o que está acontecendo
no mundo
onde tudo acontece
cedo ou tarde
se é que acontece mesmo
E a longa rua
que é a rua mais longa
em todo o mundo
mas que não é tão longa
como parece
passa
através de todas as cidades e todas as cenas
em cada beco
em cada boulevard
através de cada encruzilhada
através de luzes vermelhas e luzes verdes
cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
Tuscaloosas incapazes
Oaklands da alma
Dublands da imaginação
E a longa rua
rola em torno
como um  enorme trem que apita
ofegando ao redor do mundo
com seus passageiros feridos
e bebês e cestas de piquenique
e gatos e cachorros
e todos eles estão se perguntando
quem está
no cabine à frente
pilotando o trem
se é que há alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que gira
todos se perguntando
o que está acontecendo
se há alguma coisa
e alguns deles se inclinando
e olhando para frente
e tentando pegar
um olhar do maquinista
em sua a cabine de um olho só
tentando vê-lo
vislumbrar sua face
para chamar a atenção
enquanto giram em torno de uma curva
mas eles nunca conseguem
embora de vez em quando
Parece que
eles estão conseguindo
E a rua passa a jogar boliche
com as janelas atingindo
as janelas de todos os edifícios
de todas as ruas do mundo
através da luz do mundo
pela noite do mundo
com sinais nos cruzamentos
Luzes perdidas piscando
multidões em carnavais
circos a boca da noite
Puteiros e parlamentos
fontes esquecidas
portas de adega e portas sem recursos
figuras na luz da lâmpada
Ídolos pálidos dançando
à medida que o mundo vai
Mas agora nós chegamos
à parte mais solitária da rua
Isso acontece
a parte solitária do mundo
E este não é o lugar
que você vai mudar de trem
para o Brighton Beach Express
Este não é o lugar
que você faz qualquer coisa
Esta é a parte do mundo
onde nada está acontecendo
onde ninguém está fazendo
qualquer coisa
onde ninguém está em qualquer lugar
ninguém ao lado
exceto você
nem mesmo um espelho
para fazer você em dois
nenhuma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não está lá
talvez
ou então não é a sua
talvez
porque você é o que se chama
morto
você alcançou sua estação

Desce!

__________________________________



which is the street of the world
passes around the world
filled with all the people of the world
not to mention all the voices
of all the people
that ever existed
Lovers and weepers
virgins and sleepers
spaghetti salesmen and sandwichmen
milkmen and orators
boneless bankers
brittle housewives
sheathed in nylon snobberies
deserts of advertising men
herds of high school fillies
crowds of collegians
all talking and talking
and walking around
or hanging out windows
to see what’s doing
out in the world
where everything happens
sooner or later
if it happens at all
And the long street
which is the longest street
in all the world
but which isn’t as long
as it seems
passes on
thru all the cities and all the scenes
down every alley
up every boulevard
thru every crossroads
thru red lights and green lights
cities in sunlight
continents in rain
hungry Hong Kongs
untillable Tuscaloosas
Oaklands of the soul
Dublands of the imagination
And the long street
rolls on around
like an enormous choochoo train
chugging around the world
with its bawling passengers
and babies and picnic baskets
and cats and dogs
and all of them wondering
just who is up
in the cab ahead
driving the train
if anybody
the train which runs around the world
like a world going round
all of them wondering
just what is up
if anything
and some of them leaning out
and peering ahead
and trying to catch
a look at the driver
in his one-eye cab
trying to see him
to glimpse his fave
to catch his eye
as they whirl around a bend
but they never do
although once in a while
it looks as if
they’re going to
And the street goes bowling on
with its windows reaching up
its windows the windows
of all the buildings
in all the streets of the world
bowling along
thru the light of the world
thru the night of the world
with lanterns at crossings
lost lights flashing
crowds at carnivals
nightwood circuses
whorehouses and parliaments
forgotten fountains
cellar doors and unfound doors
figures in lamplight
pale idols dancing
as the world rocks on
But now we come
to the lonely part of the street
that goes around
the lonely part of the world
And this is not the place
that you change trains
for the Brighton Beach Express
This is not the place
that you do anything
This is the part of the world
where nothing’s doing
where no one’s doing
anything
where nobody’s anywhere
nobody nowhere
except yourself
not even a mirror
to make you two
not a soul
except your own
maybe
and even that
not there
maybe
or not yours
maybe
because you’re what’s called
dead
you’ve reached your station.
Descend


LAWRENCE FERLINGHETTI
Tradução: M. Chalvinski
The Long Street, A Coney Island of the Mind
Art Tom Colbie

Tuesday, February 14, 2017

COISA REAL




Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,


Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.


Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,


Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.


Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,


São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano


Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.








Poema: Nauro Machado
(in Percurso de Sombras)
Arte: Tom Colbie

Sunday, December 22, 2013

COISA REAL







Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,

Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.

Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,

Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.

Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,

São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano

Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.



Nauro Machado

(Percurso de Sombras  – Contracapa – 2013)




Tuesday, September 10, 2013

OS HOMENS OCOS




Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular





T.S. Eliot

Tradução de Ivan Junqueira

Monday, August 29, 2011

O HOMEM QUE ABRIU O MUNDO




Exceto o homem, nenhum ser
se maravilha por existir”.
Schopenhauer




                   Parecia não haver solução para o tédio. Tedium vitae, pensava. Talvez o problema fosse esse: pensar. Pensar o sentido da vida, afinal. Talvez houvesse grande solução na esquina. Talvez um estalo. Talvez um patrocinador. Talvez. Lembrava Virgílio. E Mecenas. Entretanto, o fato primeiro é o tédio. Não encontrava o sentido da vida. Convinha-lhe saber que era uma charada. Uma gincana. Um desafio desde os tempos de menino. Charada. Enigma. Adivinhação. Jogo. O jogo da vida. Lance de dados. Deus. Física. Lao Tse. Salomão. Mallarmè.
         Vez por outra jogava xadrez. Gostava de siciliana e de dizer que “o xadrez é como a vida”. Mas isso sempre acabava por perturbá-lo no íntimo. Qual era afinal o sentido da vida? Onde estava o segredo? Como chegar a esse tesouro de conhecimento? Como encontrar a pedra filosofal, fundamento para erigir os castelos da alma?
         Fazia arte. Escrevia, desenhava, pintava, compunha. Tinha filhos, tinha mulher. Teve mulheres. Vira morrer alguns amigos, alguns parentes, conhecidos. Envelhecia. Àquela idade, era certo buscar o sentido da vida. Precisava ser rápido, agora. Sentia-se adulto. Homem. Decidido. Pronto. Faria o que fosse necessário.
         Como sempre urge, o tempo urgia. Então, novamente, o tédio. Precisava trabalhar. Precisava ser rápido. Não era um homem de posses. Sua riqueza era pensar. Pensava. O trabalho era-lhe enfaro. Queria filosofar. Queria viver. Queria escrever, desenhar, pintar, compor. Queria estar com os filhos, com a mulher, com os parentes, amigos, fazer orgias. Mas precisava trabalhar. Enfarava-se.
Precisava ser rápido. O sentido da vida escondia-se em um lugar diferente a cada dia. Sempre próximo. Podia estar na geladeira ou no carro. Podia estar na rua, na praia, no bar. De bares é fato que gostava bastante. Mas tinha que trabalhar. Parecia, realmente, não haver solução para o tédio. A não ser, é claro, pensar.
Pensar lhe inquietava. Mas também lhe acalmava. Opostos complementares. Física quântica. Coisas assim. Tinha filhos, tinha mulher. Teve mulheres. Muitas mulheres. Vira morrer alguns amigos, alguns parentes, conhecidos. Envelhecia. Aborrecia-lhe o fato de não poder parar de pensar. Mas, logo que pensava a fundo, emergia e se achava numa divagação sem idéias. Então suspirava, sorria.
Queria realmente encontrar o sentido da vida. Seria como um aleph, uma porta mágica, uma visão, uma panacéia, uma saída. Àquela idade, enfadado pelo trabalho, via-se na iminência de uma atitude definitiva. Haveria, sim, de atirar-se sem demora na única empreitada digna: buscar o sentido da vida. Senão, o que fazer? Matar-se?
Havia lido Dostoievski. Comer, beber, dormir, respirar, sujar, procriar... Para ele, era como voar, roubar, construir um ninho. Precisava de algo maior para alimentar o seu espírito altivo de “homem superior”. Ou então, que fosse animal mesmo. Pássaro, gato, urso...
É fato que a vida não deixa o seu sentido à mostra. Nem eu deixaria. Expor demais desvaloriza. Além disso, se o sentido estivesse à mostra, não haveria sentido em buscá-lo.
Busca-se o sentido da vida de várias formas. A primeira, quase sempre, é a religião. A crença na imortalidade da alma. Essas coisas. Porém, é preciso considerar que, àquela época, a mecânica sobrepunha espiritualismo e materialismo à força de probabilística. Além disso, para ele, o sentido da vida era charada, adivinhação, descoberta, magia...
Havia lido um pouco da bíblia e, se não me engano, em Eclesiastes, descobrira que não se deve querer saber tudo. Mas, como ele dizia: “a consciência é uma merda!”.
Acho que gostava dos russos. Falava quase sempre em suicídio por tédio. Falava do poema de Iessiênin. Recitava Augusto dos Anjos: “... Eu, filho do carbono e do amoníaco...” e também Macbeth, ato cinco, se me recordo com clareza. De minha parte, gostava de lembrá-lo de quequem prefira “a dor à morte e o inferno ao nada”. Baudelaire, naquele tempo, era comigo.
Éramos grandes amigos. Ele buscava o sentido da vida. Eu vivia. Por amizade, ajudei-o com a abordagem religiosa. Encontramos a única verdade confortadora: a vida eterna. Sem ela, a vida não fazia sentido. Não faz. Ainda creio. Aceito opiniões divergentes. Gosto de vê-las soltas. E é natural pô-las em vôo sobre tal assunto. Sei também que se pode banalizar, satirizar e destruir à moda de Sade. Mas, se nãoviagem nem destino, tampoucovida. Digo vida diferente de comer, beber, dormir, respirar, sujar, procriar...
Mas, deixemos o tédio. Assumo agora o compromisso de narrar somente o ocorrido. Não nos esqueçamos que ele buscava o sentido da vida. Chamei-o de homem superior. Sim. E peço agora ao leitor que assim o considere. Vamos retirar as aspas. Voltemos ao “voar, roubar, construir um ninho...”.
Ele queria a redenção pela arte e a salvação por Jesus Cristo, meu amigo. Redenção. Salvação. Arte. Será que era isso que ele buscava ao caçar incessantemente o sentido da vida? Quem sabe? Lembro-me, enquanto escrevo, do “Assim falou Zaratustra”. Lembro-me de “Uivo” e de “Kadish”.
Era um tempo de computadores. Inovações que se obsoletam como tudo diante do tempo. Lembro-me de Ovídio, como se pode lembrar. Penso em posteridade. Dói-me pensar em futuro. Devo admitir o contágio spleen & blues de meu amigo. Ele foi o primeiro.
Tentarei então ajustar a narrativa. Afinal, urgindo como o tempo urge, não temos um segundo a perder. Neste instante em que escrevo, da entrada, alguém grita: “Se vamos correr, não tenhamos pressa!”. Mas, deixemos isso de lado... Uma coisa no mundo une toda humanidade: a busca da felicidade. Entretanto, para o homem que abriu o mundo, a busca da felicidade era a busca do sentido da vida.
Como eu, estudara semiótica. Viajara. Sonhara. É estranho falar isso. Principalmente quando se está morto. Essa é uma época realmente terrível, não é? Talvez por isso você reverencie a minha sorte. Contudo, não se esqueça que é uma sorte de morto. Você sabe. Morri muito antes de você ler esta história. Penso que talvez seja difícil traduzir-me. Língua, frase, pensamento... Tempus edax rerumPalavra!
Morto. Ainda assim, penso no sentido da vida. Espero encontrá-lo, mesmo agora. Como esperas, esperarás. Mas, chegará a hora. Sei, desde garoto. Desde “Demian”. A ave sai do ovo. Igualitè, fraternitè, libertè, quae sera tamem.
Ele precisava ser rápido. O sentido da vida – pensava sem parar – escondia-se em um lugar diferente a cada dia. Sempre próximo. Podia estar na geladeira ou no carro. Podia estar na rua, na praia, no bar. Charada, enigma, adivinhação. Jogo. O jogo da vida. Lance de dados. Deus. Física. Lao Tse. Salomão. Mallarmè. Latim. Poesia.
Esperava por Deus. Tinha uma percepção diferente de zero. Como os fenícios. Pensava o “incontível”, não o vazio. No mais, precisava trabalhar. Não era um homem de posses. Sua riqueza era pensar. Pensava.
O trabalho era-lhe enfaro. Queria filosofar. Queria viver. Queria escrever, desenhar, pintar, compor. Queria estar com os filhos, com a mulher, com os parentes, com os amigos, fazer orgias. Mas precisava trabalhar. E precisava ser rápido.
Foi no ano de 1986 que o conheci. Lia Borges, Garcia Lorca... Calçava botas estranhas, de andarilho. Tinha uma peixeira. Pernambucana. Abria a vida à faca, a fogo e metáforas. Levei dezoito anos para me decidir a escrever sobre ele. Sua busca pelo sentido da vida não se encaixava em juízo de valores ou em qualquer base filosófica conhecida. Tampouco buscava a perfeição. Buscava o entendimento, a compreensão... O ‘sentido’, para ele, não era visto como objetivo ou propósito, mas como lógica, significado, senso.
         De minha parte, sempre achei a busca do sentido da vida maravilhosa. Principalmente pelo seu caráter altivo e inatingível. Naquele tempo, ação era comigo. No entanto, é preciso dizer que meu amigo tinha uma faca. Uma pernambucana. Uma peixeira. Não era lâmina, como a de João Cabral. Mas tinha dois gumes, feitos no esmeril. Era uma faca potencialmente bandida. Não como relógio ou bala, ou peso. Mas como faca mesmo.
         Há um fato importante que lembro ainda com muita clareza: o hedonismo. Bem certo que era mais cirenaísmo que qualquer outra doutrina. Aristipo de Cirene. Essas coisas. Hedonismo. A descoberta do hedonismo. Meu amigo tinha uma peixeira pernambucana e era hedonista naquele momento. Era uma época de computadores. Inovações que se obsoletam como tudo diante do tempo. Eu vivia. Ele, você sabe.
         Sentamo-nos à beira-mar. Dava pra ver a ponte. Tinha uma sombra fina de coqueiro sobre a amurada. Falou-me de desejo, de vontade, de necessidade, de prazer, de respirar, de gozar, de se embriagar, de viver e, pra ser sincero, falou coisas que agora não vou lembrar, embora não pra esquecer a impressão que me causaram. Bebemos, fumamos, gargalhamos e mais uma vez falamos, falamos e falamos. Tenho tatuadas na memória muitas imagens e muitas palavras daquele dia.
Os russos, suicídio por tédio, o poema de Iessiênin, Augusto dos Anjos e até Macbeth, ato cinco, cena cinco, se me recordo com clareza. “Arrasta-se neste passo sorrateiro dia após dia até a última sílaba de tempo”, disse. Fiquei calado. Não deu pra falar. Não deu pra argumentar. Ainda que Baudelaire, naquele tempo, fosse comigo.
Acendeu um cigarro vaporoso e desembainhou a faca. Uma peixeira pernambucana, que não era lâmina, como a de João Cabral. Mas tinha dois gumes, feitos no esmeril. Despediu-se de mim, dizendo que iria procurar novas charadas. Com delicadeza, afastou os pilares da ponte. Caminhou sereno sobre as águas e, com facilidade, graças aos dois gumes da pernambucana, cortou uma parte do céu. Pôs a faca entre os dentes, arrumou os cabelos e passou pela fresta.
Nunca mais tive notícia dele.
A fresta se fechou e tudo voltou à normalidade. Jamais descobri o sentido da vida. Apenas vivi. Comi, bebi, dormi, respirei, sujei, procriei. Também voei, roubei, construí um ninho. Adoro Baudelaire. Continuo hedonista. Cirenaísta, talvez. É estranho falar nisso. Principalmente quando se está morto. Essa é realmente uma época terrível, não é? Talvez por isso você reverencie a minha sorte. Contudo, não se esqueça que é uma sorte de morto. Você sabe. Morri muito antes de você ler esta história.





Excerto do romance “CARNAVAL”, Marcello Chalvinski – Brancaleone Editores. Arte: Tom Colbie.

Monday, February 28, 2011

CÂNTICO NEGRO





(Da Série Influências)


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!







José Régio

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Tira-gosto