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TRADUTOR

Friday, January 03, 2014

SETE SERMÕES AOS MORTOS





 [Septem sermones ad mortuos]

O PRIMEIRO SERMÃO

Os mortos retornaram de Jerusalém, onde não encontraram o que buscavam. Eles pediram para ser admitidos à minha presença e exigiram ser por mim instruídos. Assim eu os instruí:
Ouvi: eu começo com nada. Nada é o mesmo que plenitude. No estado de infinito, plenitude é o mesmo que vazio. O Nada é ao mesmo tempo vazio e pleno. Pode-se também afirmar alguma outra coisa a respeito do Nada, ou seja, que é branco ou negro, existente ou inexistente. Aquilo que é infinito e eterno não possui qualidades porque contém todas as qualidades.
O Nada ou plenitude é por nós chamado de o PLEROMA. Nele, pensamento e existência cessam, porque o eterno é desprovido de qualidades. Nele, não existe ninguém, porque se existisse alguém, este então se diferenciaria do Pleroma e possuiria qualidades que o distinguiriam do Pleroma.
No Pleroma não existe nada e existe tudo: não é bom pensar sobre o Pleroma, pois fazê-lo significaria dissolução.
O MUNDO CRIADO não está no Pleroma, mas em si mesmo. O Pleroma é o princípio e o fim do mundo criado. O Pleroma penetra o mundo criado como a luz solar penetra toda a atmosfera. Embora o Pleroma penetre-o por completo, o mundo criado não participa dele, da mesma forma que um corpo sumamente transparente não se torna escuro ou colorido como resultado da passagem da luz por ele. Nós mesmos, no entanto, somos o Pleroma e assim sendo, o Pleroma está presente em nós.
Mesmo no ponto mais minúsculo, o Pleroma está presente sem limite algum, eterna e completamente, porque pequeno e grande são qualidades estranhas ao Pleroma. Ele é o nada onipresente, completo e infinito. Eis porque vos falo do mundo criado como uma porção do Pleroma, mas unicamente em sentido alegórico; pois o Pleroma não se divide em partes, por ser o nada.
Somos também o Pleroma como um todo. Visto que num aspecto figurativo o Pleroma é um ponto excessivamente pequeno, hipotético, quase inexistente em nós, sendo igualmente o firmamento ilimitado do cosmo à nossa volta. Por que então discorremos sobre o Pleroma, se ele é o todo e também o nada?
Eu vos falo como ponto de partida, e também para eliminar de vós a ilusão de que em algum lugar, dentro ou fora, existe algo absolutamente sólido e definido. Tudo o que chamam de definido e sólido não é mais do que relativo, porque somente o que está sujeito a mudança apresenta-se definido e sólido.
O mundo criado está sujeito a mudar. Trata-se da única coisa sólida e definida, uma vez que possui qualidades. Em verdade, o próprio mundo criado nada mais é que uma qualidade.
Indagamos: como se originou a criação? As criaturas de fato têm origem, mas não o mundo criado, porque este é uma qualidade do Pleroma, da mesma forma que o incriado; a morte eterna também representa uma qualidade do Pleroma. A criação é eterna e onipesente. O Pleroma possui tudo: diferenciação e indiferenciação.
Diferenciação é criação. O mundo criado é de fato diferenciação. A diferenciação é a essência do mundo criado e, por essa razão, o que é criado gera também mais diferenciação. Eis porque o próprio homem é um divisor, porquanto sua essência é também diferenciação. Eis por que ele distingue as qualidades do Pleroma, qualidades essas que não existem. Essas divisões, o homem extrai de seu próprio ser. Eis por que o homem dicorre sobre as qualidades do Pleroma, que são inexistentes
Vós me dizeis: Que benefício existe então em falar sobre o assunto, uma vez que se afirmou ser inútil pensar sobre o Pleroma?
Eu vos digo essas coisas para libertar-vos da ilusão de que é possível pensar sobre o Pleroma. Quando falamos de divisões do Pleroma, falamos da posição de nossas próprias divisões, falamos de nosso próprio estado diferenciado; mas embora procedamos desta forma, na realidade nada dissemos sobre o Pleroma. No entanto, é necessário falarmos de nossa própria diferenciação. Eis por que devemos distinguir qualidades individuais.
Dizeis: Que mal não decorre do discriminar, pois nesse caso transcendemos os limites de nosso próprio ser; estendemo-nos além do mundo criado e mergulhamos no estado indiferenciado, outra qualidade do Pleroma. Submergimos no próprio Pleroma e deixamos de ser seres criados. Assim, tornamo-nos sujeitos à dissolução e ao nada.
Essa é a verdadeira morte do ser criado. Morremos na medida em que não somos capazes de discriminar. Por essa razão, o impulso natural do ser criado volta-se para a diferenciação e para a luta contra o antigo e pernicioso estado de igualdade. A tendência natural chama-se Princípio de Individuação. Esse princípio constitui de fato a essência de todo ser criado. A partir de tudo isso, podeis prontamente reconhecer por que o princípio indiferenciado e a falta de discrininação representam um grande perigo para os seres criados. Eis por que devemos ser capazes de distinguir as qualidades do Pleroma. Suas qualidades são os PARES DE OPOSTOS, tais como:
o eficaz e o ineficaz
plenitude e o vazio
o vivo e o morto
diferença e igualdade
luz e treva
quente e frio
energia e matéria
tempo e espaço
bem e mal
beleza e fealdade
o um e os muitos
e assim por diante.
Os pares de opostos são as qualidades do Pleroma: também são na verdade inexistentes, porque se anulam mutualmente.
Como nós mesmos somos o Pleroma, também possuímos essas qualidades presentes em nós. Visto que a essência do nosso ser é a diferenciação, possuímos essas qualidades em nome e sob o sinal da diferenciação, o que significa:
Primeiro: que em nós as qualidades estão diferenciadas, separadas, umas das outras e, dessa forma, não se anulam mutualmente; ao contrário, encontram-se em atividade. Eis por que somos vítimas dos pares de opostos. Porque em nós o Pleroma divide-se em dois.
Segundo: as qualidades pertencem ao Pleroma, e nós podemos e devemos partilhá-las somente em nome e sob o sinal da diferenciação. Devemos nos separar dessas qualidades. No Pleroma, elas se anulam mutualmente; em nós não. Porém, se soubermos percebermo-nos como seres à parte dos pares de opostos, obteremos a salvação.
Quando lutamos pelo bom e pelo belo, esquecemo-nos de nosso ser essencial, que é a diferenciação, e nos tornamos vítimas das qualidades do Pleroma, os pares de opostos. Lutamos para alcançar o bom e o belo, mas ao mesmo tempo obtemos o mau e o feio, porque no Pleroma estes são idênticos àqueles. Todavia, se permanecermos fiéis à nossa natureza, que é a diferenciação, então nos diferenciaremos do mau e do feio. Só assim não imergimos no Pleroma, ou seja, no nada e na dissolução.
Discordareis, dizendo: Afirmastes que diferenciação e igualdade constituem também qualidades do Pleroma. O que ocorre, quando lutamos pela diferenciação? Não somos no caso fiéis à nossa natureza e, portanto, devemos também ficar eventualmente em estado de igualdade, enquanto lutamos pela diferenciação?
O que não deveis esquecer jamais é que o Pleroma não tem qualidades. Somos nós que criamos essas qualidades através do intelecto. Quando lutamos pela diferenciação ou pela igualdade, ou por outras qualidades, lutamos por pensamentos que fluem para nós a partir do Pleroma, ou seja, pensamentos sobre as qualidades inexistentes do Pleroma. Enquanto perseguis essas ideias, vós vos precipitais novamente no Pleroma, chegando ao mesmo tempo à diferenciação e à igualdade. Não a vossa mente, mas o vosso ser constitui a diferenciação. Eis por que não deveríeis lutar pela diferenciação e pela discriminação como as conheceis, mas sim por VOSSO PRÓPRIO SER. Se de fato assim o fizéssemos, não teríeis necessidade de saber coisa alguma sobre o Pleroma e suas qualidades e, ainda assim, atingiríeis o vosso verdadeiro objetivo, devido à vossa natureza. No entanto, como o raciocínio aliena-vos de vossa real natureza, devo ensinar-vos o conhecimento para que possais manter vosso raciocínio sob controle.

O SEGUNDO SERMÃO

Os mortos se ergueram durante a noite junto às paredes e gritaram: Queremos saber sobre Deus! Onde está Deus?
-Deus não está morto; Ele está tão vivo quanto sempre esteve. Deus é o mundo criado, na medida em que é algo definido e, portanto, diferenciado do Pleroma. Deus é uma qualidade do Pleroma, e tudo o que afirmei sobre o mundo criado é igualmente verdadeiro no que a Ele se refere.
Entretanto, Deus se distingue do mundo criado, pois é menos definido e definível do que o mundo criado em geral. Ele é menos diferenciado que o mundo criado, porque a essência do seu SER é a efetiva plenitude; e só na medida se Sua definição e diferenciação que Ele é idêntico ao mundo criado; portanto, Ele representa a manifestação da efetiva plenitude do Pleroma.
Tudo o que não diferenciamos precipita-se no Pleroma e anula-se com seu oposto. Portanto, se não discernimos Deus, a plenitude efetiva elimina-se para nós. Deus é também o próprio Pleroma, da mesma forma que cada um dos pontos mais minúsculos dentro do mundo criado, bem como no plano incriado, constitui o próprio Pleroma.
O vazio efetivo é o ser do Demônio. Deus e Demônio são as primeiras manifestações do nada a que chamamos de Pleroma. Não importa se o Pleroma existe ou não existe, porque ele se anula em todas as coisas. O mundo criado, entretanto, é diferente. Na medida em que Deus e Demônio são seres criados, eles não se suprimem mutualmente, mas resistem um ao outro como opostos ativos. Não necessitamos de prova da sua existência; basta que sejamos obrigados a falar sempre deles. Mesmo que eles não existissem, o ser criado (devido à sua própria natureza) os produziria continuamente, a partir do Pleroma.
Tudo o que se origina no Pleroma pela diferenciação constitui pares de opostos; portanto, Deus sempre tem consigo o Demônio.
Como aprendestes, esse inter-relacionamento é tão íntimo, tão indissolúvel em vossas vidas, que se apresenta como o próprio Pleroma. Isso porque ambos permanecem muito próximos do Pleroma, no qual todos os opostos se anulam e se unificam.
Deus e Demônio distinguem-se pela plenitude e pelo vazio, pela geração e pela destruição. A atividade é comum a ambos. A atividade unifica-os. Eis por que ela permanece acima de ambos, sendo Deus acima de Deus, por unificar plenitude e vazio em seu trabalho.
Há um Deus sobre o qual nada sabeis, porque os homens esqueceram-no. Nós o chamamos por seu nome: ABRAXAS. Ele é menos definido que Deus ou o Demônio. Para distinguir Deus dele, chamamos a Deus Helios, ou o Sol.
Abraxas é a atividade; nada pode resistir-lhe, exceto o irreal, e assim, o seu Ser ativo desenvolve-se livremente. O irreal não existe, portanto, não pode de fato resistir. Abraxas permanece acima do sol e acima do demônio. Ele é o improvável provável, que é poderoso no plano da irrealidade. Se o Pleroma pudesse ter uma existência, Abraxas seria sua manifestação.
Embora ele seja a própria atividade, não constitui um resultado específico, mas um resultado em geral.
Ele representa a não-realidade ativa, porque não possui um resultado definido.
Ele é ainda um ser criado, na medida em que se diferencia do Pleroma.
O sol exerce um efeito definido, assim como o demônio; portanto, eles se nos apresentam muito mais efetivos do que o indefinível Abraxas.
Pois ele é poder, persistência e mutação.
-Nesse ponto, os mortos provocaram uma grande rebelião, porque eram cristãos.

O TERCEIRO SERMÃO

Os mortos aproximaram-se como névoa saída dos pântanos e gritaram: -Fala-nos mais sobre o deus supremo!
- Abraxas é o deus a quem é difícil conhecer. Seu poder é verdadeiramente supremo, porque o homem não o percebe de modo algum. O homem vê o summum bonum (bem supremo) do sol e também o infinum malum (mal sem fim) do demônio, mas Abraxas não, porque este é a própria vida indefinível, a mãe do bem e do mal igualmente.
A vida parece menor e mais fraca do que o summum bonum (bem supremo), daí a dificuldade de se conceber que Abraxas possa suplantar em seu poder o sol, que representa a fonte radiante de toda a força vital.
Abraxas é o sol e também o abismo eternamente hiante do vazio, do redutor e desagregador, o demônio.
O poder de Abraxas é duplo. Vós não podeis vê-lo, porque a vossos olhos a oposição a esse poder parece anulá-lo.
O que é dito pelo Deus-Sol é vida.
O que é dito pelo Demônio é morte.
Abraxas, no entanto, diz a palavra venerável e também a maldita, que é vida e morte ao mesmo tempo.
Abraxas gera a verdade e a falsidade, o bem e o mal, a luz e a treva, com a mesma palavra e no mesmo ato. Portanto, Abraxas é verdadeiramente o terrível.
Ele é magnífico como o leão no exato momento em que abate sua presa. Sua beleza equivale à beleza de uma manhã de primavera.
De fato, ele próprio é o Pã maior e também o menor. Ele é Príapo.
Ele é o monstro do inferno, o polvo de mil tentáculos, o contorcer de serpentes aladas e da loucura.
Ele é o hermafrodita da mais baixa origem.
Ele é o senhor dos sapos e das rãs que vivem na água e saem para a terra, cantando juntos ao meio-dia e à meia-noite.
Ele é plenitude unindo-se ao vazio;
Ele constituí as bodas sagradas;
Ele é o amor e o assassino do amor;
Ele é o santo e o seu traidor.
Ele é a luz mais brilhante do dia, e a mais profunda noite da loucura.
Vê-lo significa cegueira;
Conhecê-lo é enfermidade;
Adorá-lo é morte;
Temê-lo é sabedoria;
Não resistir-lhe significa libertação.
Deus vive detrás do Sol; o demônio vive atrás da noite. O que deus traz à existência a partir da luz, o demônio arrasta para a noite. Abraxas, entretanto, é o cosmo; sua gênese e sua dissolução. A cada dádiva do Deus-Sol, o demônio acrescenta sua maldição.
Tudo aquilo que pedis a Deus-Sol leva a uma ação do demônio. Tudo o que abtendes através do Deus-Sol aumenta o poder efetivo do demônio.
Assim é o terrível Abraxas.
Ele é o mais poderoso ser manifestado e nele a criação torna-se temerosa de si mesma.
Ele é o terror do filho, que ele sente contra a mãe.
Ele é o amor da mãe por seu filho.
Ele é o prazer da terra e a crueldade do céu.
Diante de sua face o homem fica paralisado.
Ante ele, não há pergunta nem resposta.
Ele é a vida da criação.
Ele é a atividade da diferenciação.
Ele é o amor do homem.
Ele é a fala do homem.
Ele é tanto o brilho como a sombra escura do homem.
Ele é a realidade enganosa.
- Nesse ponto, os mortos clamaram e deliraram porque ainda eram seres incompletos.

O QUARTO SERMÃO

Resmungando, os mortos encheram a sala e disseram: – Tu que és maldito, fala-nos sobre deuses e demônios!
-Deus-Sol é o bem supremo, o demônio é o oposto; portanto, tendes dois deuses. Há, contudo, inúmeros grandes bens e numerosos grandes males; entre eles existem dois deuses-demônios, um dos quais é o FLAMEJANTE e o outro, o FLORESCENTE. O flamejante é EROS em sua forma de chama. Ele brilha e devora. O florescente é a ÁRVORE DA VIDA; ela cresce verdejante e acumula matéria viva enquanto cresce. Eros flameja e então se apaga; a árvore da vida, no entanto, desenvolve-se lentamente através de incontáveis eras.
Bem e mal estão unidos na chama.
Bem e mal estão unidos no crescimento da árvore.
Vida e amor opõem-se mutualmente em sua divindade.
Imensurável como os agrupamentos de estrelas é o número de deuses e demônios. Cada estrela representa um deus e cada espaço ocupado por uma estrela, um demônio. E o vazio do todo é o Pleroma. A atividade do todo é Abraxas; só o irreal opõe-se a ele. O quatro constitui o número das divindades principais, porque quatro é o número das dimensões do mundo. O Um é o princípio; Deus-Sol. O Dois é Eros, porque ele se expande com uma luz brilhante e combina duas. O Três é a Árvore da Vida, porque ela preenche o espaço com corpos. O quatro é o demônio, porque ele abre tudo o que está fechado; ele dissolve tudo o que tem forma e corpo; ele é o destruidor, no qual todas as coisas dão em nada.
Abençoado sou, porque me é dado conhecer a multiplicidade e a diversidade dos deuses. Lastimo-vos, porque substituístes a unidade de Deus pela diversidade que não se pode converter em unidade. Por meio disso, criastes o tormento da incompreensão e a mutilação do mundo criado, cuja essência e lei é a diversidade. Como podeis ser leais à vossa natureza quando tentais fazer um dos muitos? O que fazeis aos deuses, também vos sobrevém. Todos vós se tornam, assim, iguais e, por isso, vossa natureza também, fica mutilada
Em benefício do homem pode reinar a unidade, mas nunca em benefício de deus, pois existem muitos deuses, porém poucos homens. Os deuses são poderosos e suportam sua diversidade, visto que, como as estrelas, eles permanecem em solidão e separados por vastas distâncias uns dos outros.
Os seres humanos são fracos e não conseguem suportar sua diversidade, por viverem próximos uns dos outros e desejarem companhia; assim sendo, não podem suportar os próprios e distintos isolamentos. Em prol da salvação, eu vos ensino aquilo que se deve eliminar, em favor do que eu próprio fui banido.
A multiplicidade dos deuses iguala a multiplicidade dos homens. Incontáveis deuses aguardam para tornarem-se homens. Inúmeros já o foram. O homem é um partícipe da essência dos deuses; ele vem dos deuses e vai para Deus.
Do mesmo modo que é inútil pensar sobre o Pleroma, é inútil adorar essa pluralidade de deuses. Menos útil ainda é adorar o primeiro Deus, a efetiva plenitude e o bem supremo. Através de nossas preces, não podemos nem acrescentar-lhe algo nem subtrair-lhe, porque o efetivo vazio tudo absorve. Os deuses de luz compõem o mundo celestial, que é múltiplo e estende-se até o infinito, expandindo-se ilimitadamente. Seu senhor supremo é o Deus-Sol.
Os deuses das trevas constituem o inferno. Eles não são complexos e têm a capacidade de diminuir e encolher infinitamente. Seu senhor mais profundo é o demônio, o espírito da lua, o servo da terra, que é menor, mais frio e mais inerte do que a terra.
Não há diferença no poder dos deuses celestiais e terrestres. Os celestiais expandem-se, os terrestres contraem-se. As duas direções estendem-se ao infinito.

O QUINTO SERMÃO

Os mortos cheios de escárnio, gritaram: – Ensina-nos, ó tolo, sobre a Igreja e santa comunidade!
- O mundo dos deuses manifesta-se na espiritualidade e na sexualidade. Os deuses celestiais expressem-se na espiritualidade e os terrenos, na sexualidade.
A espiritualidade recebe e compreende. Ela é feminina, por isso nós a chamamos de MATER COELESTIS, a mãe celestial. A sexualidade gera e cria. Ela é masculina, portanto nós a chamamos de PHALLOS, o pai telúrico. A sexualidade do homem é mais terrena enquanto a sexualidade da mulher, mais celestial. A espiritualidade do homem é celestial, porquanto se move na direção do maior. Por outro lado, a espiritualidade da mulher é mais terrena porque se move na direção do menor.
Ilusória e demoníaca é a espiritualidade do homem que se dirige ao menor. Ilusória e demoníaca é a espiritualidade da mulher que se dirige ao maior. Cada uma deve dirigir-se a seu próprio lugar.
Homem e mulher tornam-se demônios um para o outro quando não separam seus caminhos espirituais, pois a natureza dos seres criados é sempre a natureza da diferenciação.
A sexualidade do homem volta-se para o terreno; a sexualidade da mulher volta-se para o espiritual. Homem e mulher tornam-se demônios um para o outro quando não distinguem suas duas formas de sexualidade.
O homem deve conhecer o que é menor, a mulher o que é maior. O homem deve separar-se da espiritualidade e também da sexualidade. Ele deve chamar a espiritualidade de mãe e entronizá-la entre o céu e a terra. Ele deve chamar a sexualidade de phallos, colocando-a entre o próprio ser e a terra, porque a mãe e phallos são demônios super-humanos e manifestações do mundo dos deuses. Eles se apresentam mais eficientes para nós do que os deuses por estarem mais próximos do nosso ser.
Quando não puderdes distinguir entre vós próprios, de um lado, a sexualidade e espiritualidade, de outro, e quando não fordes capazes de considerar que ambos são seres superiores e exteriores a vós, então sereis vitimados por eles, i. e., pelas qualidades do Pleroma. Espiritualidade e sexualidade não constituem qualidades vossas, não são coisas que podeis possuir e apreender, ao contrário, trata-se de demônios poderosos, manifestações de deuses e, portanto, são muito superiores a vós e existem em si mesmas.
Ninguém possui espiritualidade ou sexualidade para si mesmo; antes, estamos sujeitos às leis da sexualidade e da espiritualidade. Portanto, ninguém escapa a esses dois demônios. Deveis considerá-los demônios, causas comuns e perigos graves, assim como os deuses e, acima de tudo, o terrível Abraxas.
O homem é fraco, portanto a comunidade torna-se indispensável; se não a comunidade sob o signo da mãe, então aquela sob o signo de phallos. Não haver comunidade constitui sofrimento e enfermidade. A comunidade traz consigo fragmentação e dissolução. A diferenciação conduz à solidão. A solidão é contrária à comunidade. Devido à fraqueza da vontade humana, em oposição aos deuses e demônios e suas leis que não se pode escapar, a comunidade é necessária.
Eis por que devem existir tantas comunidades quantas forem necessárias; não por causa dos homens, mas por causa dos deuses. Os deuses forçam-nos a uma comunhão. Eles vos forçam a associar-vos tanto quanto necessário; mais do que isso, porém, converte-se num mal.
Em comunhão, cada um deve sujeitar-se ao outro, para a preservação da comunidade, visto que dela tendes necessidade. No estado de solidão, cada qual será colocado acima dos demais, para que possa conhecer-se e evitar a servidão. Na comunidade haverá abstinência.
Na solidão, deixai que haja desperdício de abundância. Porque a comunidade é profundidade enquanto a solidão, altura.
A verdadeira ordem na comunidade purifica e preserva.
A verdadeira ordem na solidão purifica e aumenta.
A comunidade dá-nos calor; a solidão, luz.

O SEXTO SERMÃO

O demônio da sexualidade insinua-se em nossa alma como uma serpente. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se pensamento-desejo.
O demônio da espiritualidade pousa em nossa alma como um pássaro branco. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se desejo-pensamento.
A serpente constitui uma alma telúrica, semi-demoníaca, um espírito relacionado com o espírito dos mortos. Com o espírito dos mortos, a serpente penetra vários objetos terrenos. Ela também instila temor de si no coração dos homens e inflama-lhes o desejo. A serpente geralmente tem caráter feminino e busca a companhia dos mortos.
Ela se associa aos mortos presos à terra que não encontraram o caminho pelo qual se passa ao estado de solidão. A serpente é uma prostituta que se consorcia com o demônio e maus espíritos; ela é um espírito tirano e atormentador, sempre tentando as pessoas a cultivar a pior espécie de companhia.
O pássaro branco representa a alma semi-celestial do homem. Ele vive com a mãe, descendo ocasionalmente da morada materna. O pássaro é masculino e chama-se pensamento efetivo. Ele é casto e solitário, um mensageiro da mãe. Voa alto sobre a terra. Comanda a solidão. Traz mensagens de longe, daqueles que nos antecederam na partida, daqueles que alcançaram a perfeição. Leva nossas palavras até a mãe. A mãe intercede e adverte, mas não possui poderes contra os deuses. Ela é um veículo do sol.
A serpente desce às profundezas e, com sua astúcia, ao mesmo tempo paralisa e estimula o demônio fálico. Ela traz das profundezas os pensamentos mais ardilosos do demônio telúrico; pensamentos que rastejam por todas as passagens e tornam-se saturados de desejo. Embora não deseje sê-lo, ela nós é útil. A serpente escapa ao nosso alcance, nós a perseguimos, e assim ela nos mostra o caminho, o qual, com nossa limitada capacidade humana, não poderíamos encontrar.
-Os mortos ergueram o olhar com desprezo e disseram: – Cessa de falar-nos sobre deuses, demônios e almas. Sabemos de tudo isso em essência há muito tempo!

O SÉTIMO SERMÃO

À noite novamente retornaram os mortos, dizendo entre queixas: – Uma coisa mais devemos saber, pois esquecemos de discuti-la: ensina-nos a respeito do homem!
- O homem é um portal por meio do qual penetramos, do mundo exterior dos deuses, demônios e almas, no mundo interior; do mundo maior no mundo menor. Pequeno e insignificante é o homem; logo o deixamos para trás e assim entramos uma vez mais no espaço infinito, no microcosmo, na eternidade interior.
À imensurável distância cintila solitária uma estrela, no ponto mais alto do céu. Trata-se do único Deus desse solitário ser. É seu mundo, seu Pleroma, sua divindade.
Nesse mundo, o homem é Abraxas, que dá discernimento a seu próprio mundo e devora-o.
Essa estrela é o Deus do homem e seu destino.
Ela é sua divindade tutelar; nela o homem encontra o repouso.
A ela conduz a longa jornada da alma após a morte; nela reluzem todas as coisas que, de outro modo, poderiam afastar o homem do mundo maior, com o brilho de uma grande luz.
A esse Ser, o homem deveria orar.
Tal prece aumenta a luz da estrela.
Tal prece constrói uma ponte sobre a morte.
Ela aumenta a vida no microcosmo; quando o mundo exterior esfria, essa estrela ainda brilha.
Nada poderá separar o homem de seu Próprio Deus, se ele ao menos conseguir desviar o olhar do feérico espetáculo de Abraxas.
Homem aqui, Deus lá. Fraqueza e insignificância aqui, eterno poder criador lá. Aqui, há somente treva e frio úmido. Lá tudo é luz solar.

Tendo assim ouvido, os mortos silenciaram e elevaram-se como a fumaça da fogueira do pastor que guarda o seu rebanho à noite.







Carl Gustav Jung

Thursday, January 02, 2014

LUZES DA CIDADE



Un destin n’est pas une punition.
Albert Camus – Le Donjuanisme





hoje sei:
as noites
são sempre líquidas

& as luzes da cidade
são estrelas

das alturas
posso vê-las

com os meus olhos
de urubu
rei a medir
a doçura detalhada
das minhas vítimas

atravesso ruas amenas
me perco entre as belas
mas sou só
uma sombra que voa
a duras penas






Marcello Chalvinski - Don Juan & o jardim das Maravilhas - 2013
Arte: Tom Colbie

Wednesday, January 01, 2014

NOITE INSULAR, JARDINS INVISÍVEIS







A Prova do Jade


Quando cheguei à subdividida casa

onde tanto poderia encontrar o falso

relógio de Potsdam os dias de visita

do enxadrista Von Palem, ou o periquito

de porcelana da Saxônia, favorito de Maria Antonieta.

Estava ali também, em sua caixa de pelúcia

negra e de algodão envolto em tafetá branco,

a pequena deusa de jade, com um grande ramo

que passava de uma para a outra mão mais fria.

Ascendi-a até a luz, era o antigo

raio de lua cristalizado, o gracioso bastão

com que os imperadores chins juravam o trono,

e dividiam o bastão em duas partes e a sucessão

milenária seguia subdividindo e sempre ficava o jade

para jurar, para dividir em duas partes,

para o yin e para o yang.

Mas o provador, ocioso de metais e de jarras,

me disse com sua cara rápida de coelho cor caramelo:

apóie-se na face, o jade sempre frio.

Senti que o jade era o interruptor,

o interposto entre o pascalino entre-deux,

o que suspende a afluência claroescura,

a espada para a luminosidade espelhante,

a sílaba detida entre o rio que impulsa

e o espelho que detém.

Dá prova de sua validez pelo frio,

isca para o coelho úmido.

Todas as jóias na lâmina do escudo:

matinal o coelho oscilando

seus bigodes sobre uma espiga de milho.

Que começos, que ouros, que trifólios,

o coelho, a rainha do jade, o frio que interrompe.

Mas o jade é também um carbúnculo entre o rio e o espelho,

uma prisão de água onde se espreguiça

o pássaro fogueira, desfazendo o fogo em gotas.

As gotas como peras, imensas máscaras

às quais o fogo ditou as escamas de sua soberania.

As máscaras feitas realezas pelas entranhas

que lhes ensinaram como o caracol

a extrair a cor da terra.

E a frieza do jade sobre as faces,

para proclamar sua realeza, seu peso verdadeiro,

seu rastro congelado entre o rio e o espelho.

Provar sua realidade pelo frio,

a graça de sua janela pela ausência,

e a rainha verdadeira, a prova do jade,

pela fuga da geada

em um breve trenó que traça letras

sobre o ninho das faces.

Fechamos os olhos, a neve voa.








Lezama Lima

(Trad. Haroldo de Campos / Arte: Tom Colbie)

Sunday, December 22, 2013

COISA REAL







Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,

Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.

Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,

Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.

Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,

São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano

Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.



Nauro Machado

(Percurso de Sombras  – Contracapa – 2013)




Friday, December 20, 2013

A PANTERA



DER PANTHER
Rainer Maria Rilke

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.
______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)



(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. José Paulo Paes)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.





Artwork Tom Colbie

Tuesday, December 03, 2013

O PAI, A MÃE, O FILHO, A FILHA





O pai se pendeu

em lugar da pêndula.

A mãe está muda.

A filha está muda.

O filho está mudo.

Todos os três seguem

O tiquetaque do pai.

A mãe é de ar.

O pai voa através da mãe.

O filho é um dos corvos

da praça de São Marcos de Veneza.

A filha é um pombo-correio.

A filha é doce.

O pai come a filha.

A mãe corta o pai em dois

come-lhe uma metade

e oferece a outra ao filho.

O filho é uma vírgula.

A filha não tem cauda nem cabeça.

a mãe é um ovo galado.

Da boca do pai

pendem caudas de palavras.

A filha é uma pá quebrada.

O pai é pois forçado

a lavrar a terra

com sua longa língua.

A mãe segue o exemplo de Cristóvão Colombo.

Anda sobre suas mãos nuas

e agarra com seus pés nus

um ovo de ar após o outro.

A filha remenda o desgaste de um eco.

A mãe é um céu cinza

em que se arrasta embaixo bem embaixo

um pai de papel mata-borrão

coberto de manchas de tinta.

O filho é uma nuvem.

Quando chora chove.

A filha é uma lágrima imberbe.








POEMA: HANS ARP
ARTE: TOM COLBIE

Saturday, November 30, 2013

TREPADEIRA



Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos





VASKO POPA

[Trad: Aleksandar Jovanovic]

Sunday, October 27, 2013

SUSTENTÁVEL







capturo sonhos

para salvá-los da extinção

antes de devolvê-los à natureza

dou a eles poemas para comer

ervas para fumar

& alguma realização














Marcello Chalvinski 

Tuesday, October 22, 2013

VAZIO QUE SE DOBRA




So little do we know what we’re about in
This world, I doubt if doubt itself be doubting.

Don Juan  - Lord Byron






as paredes são impostoras
as portas são imposturas
é falso o piso
é embusteira a cobertura
mas
o destino é férreo
& tem fráguas irônicas
são elas as responsáveis
pela força utilitária das chaves
& pela resistência ambígua
das fechaduras






Marcello Chalvinski - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Tuesday, October 15, 2013

CONTRAFUGA





A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama.

                                        Schopenhaur 




de mim tudo foge
ah, malditas coisas fugidias!
foge o chão
foge o amor
foge a razão
foge a noite
foge o dia

passei um tempo escrevendo
& outro só imaginando
se você leria

pensei que fosse criação
era demiurgia

meu pensamento fugiu
para um livro de mitologia








M. Chalvinski - D. Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

MUNDANO




1
há no cintel
deste estranho engenho
um liame cintilante
que corto à faca afoito
à noite & diante
de um espelho cru
do qual desdenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho

cavalgo mundano
meu pégaso-verso
como um lorde negro
em seu dragão avesso
como eu mesmo
fauno-pássaro
como eu-outro
cavalo-profano

2
ah, que glamour vagabundo me enlaça!

são doces as fêmeas
& delicados seus ardis
o álcool dourado grassa
& o fumo prateado desce
às profundezas febris
há rendas diáfanas
saias-metáforas
sutis lingeries

um gemido de unhas vermelhas
de um salto me agarra
& logo atraído pela rara
indecência dessa lascívia sonora
cravo meus olhos de fera
na agridoçura desse olhar que demora

3
agora
minha anamorfose mundana
em ângulo obtuso me revela
& com suas garras de pantera
a cruel solidão me apavora

& cíclico & inquietante
o liame vil & cintilante
surge sem nexo
tornado infame reflexo
no vívido espelho
desse sonho convexo
que agora mesmo redesenho

adoro correr riscos
& nisso
muito me empenho








Marcello Chalvinski - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013

Thursday, September 26, 2013

MEMORY LOST



Desde el trigésimo piso contempla la ciudad por la noche. Borra archivos, memorias.
Algunas retorcidas quedarán en el pensamiento como el edificio de ventanas góticas.
Prisión. Cine Voltaire.

En el alféizar una orquídea. Aislada contra el crepúsculo violeta. Un contorno borrado de
edificios.

Un día de sol. Parejas pasean en el parque. Caminan entre gansos. Niños juegan
en el estanque de arena.

Hipocampo, extraña imagen. Esquinas, caminos que se bifurcan. Como si nunca hubiera
caminado por allí.
Nado em alto-mar, maremoto. Flutuar sobre naufrágios, resíduos. Submersa no que não era – afogamento. Mergulho, viagem marítima. Escapismo, estrelas-do-mar. Sentimentos líquidos.

Ebulição. Dissolução de formas. Novas, transitórias, fluidas. Tensão, polaridade.

Repetição, aprendizado: trajeto contra a correnteza até a margem.

Memória da água. Desenhos na areia, espuma.

Nado en alta ola, maremoto. Fluctuar sobre naufragios, sobre residuos. Sumergida en lo que
no era - ahogo. buceo, viaje. Escapismo de estrellas de mar.
Líquidas sensaciones.

Evaporación. Disolución de formas. Nuevos, transitorios, fluidos. Tensión, polaridad.

Repetición, aprendizaje: trayecto contra la corriente hasta la orilla.

Memoria del agua. Dibujos en la arena, espuma.





VIRNA TEIXEIRA

Monday, September 23, 2013

IDÉIAS ÍNTIMAS






La chaise où je m'assieds, la natte où je me couche,
La table où je t'écris, .............................................
Mes gros souliers ferrés, mon bâton, mon chapeau,
Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche.
.............................................................................
De cet espace étroit sont tout l'ameublement.

Jocelyn
Lamartine


I  
Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias 
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lansquenet. . . Palavra d'honra!
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II  
Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa.
Aos grossos beiços a garrafa aperta... 
Ao longo das paredes se derramam 
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer. . . Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta...
Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria
Como um Éden de noites deleitosas...
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo. . . Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encetado o copo inda verbera
As águas d'oiro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida 
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.  

III  
Reina a desordem pela sala antiga,
Desce a teia de aranha as bambinelas
A estante pulvurenta. A roupa, os livros
Sobre as cadeiras poucas se confundem.
Marca a folha do Fausto um colarinho
E Alfredo de Musset encobre às vezes
De Guerreiro ou Valasco um texto obscuro.
Como outr’ora do mundo os elementos
Pela treva jogando cambalhotas,
Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat! 

IV  
Na minha sala três retratos pendem.
Ali Victor Hugo. Na larga fronte
Erguidos luzem os cabelos loiros
Como c'roa soberba. Homem sublime,
O poeta de Deus e amores puros
Que sonhou Triboulet, Marion Delorme
E Esmeralda a Cigana... e diz a crônica
Que foi aos tribunais parar um dia
Por amar as mulheres dos amigos
E adúlteros fazer romances vivos.  

V  
Aquele é Lamennais — o bardo santo,
Cabeça de profeta, ungido crente,
Alma de fogo na mundana argila
Que as harpas de Sion vibrou na sombra,
Pela noite do século chamando
A Deus e à liberdade as loucas turbas.
Por ele a George Sand morreu de amores,
E dizem que. . . Defronte, aquele moço
Pálido, pensativo, a fronte erguida,
Olhar de Bonaparte em face Austríaca,
Foi do homem secular as esperanças.
No berço imperial um céu de Agosto
Nos cantos de triunfo despertou-o...
As águias de Wagram e de Marengo
Abriam flamejando as longas asas
Impregnadas do fumo dos combates,
Na púrpura dos Césares, guardando-o.
E o gênio do futuro parecia
Predestiná-lo à glória. A história dele?... 
Resta um crânio nas urnas do estrangeiro...
Um loureiro sem flores nem sementes... 
E um passado de lágrimas... A terra
Tremeu ao sepultar-se o Rei de Roma.
Pode o mundo chorar sua agonia
E os louros de seu pai na fronte dele
Infecundos depor... Estrela morta,
Só pode o menestrel sagrar-te prantos!  

VI  
Junto a meu leito, com as mãos unidas,
Olhos fitos no céu, cabelos soltos,
Pálida sombra de mulher formosa
Entre nuvens azuis pranteia orando.
É um retrato talvez. Naquele seio
Porventura sonhei doiradas noites:
Talvez sonhando desatei sorrindo
Alguma vez nos ombros perfumados
Esses cabelos negros, e em delíquio
Nos lábios dela suspirei tremendo.
Foi-se minha visão. E resta agora
Aquela vaga sombra na parede
— Fantasma de carvão e pó cerúleo,
Tão vaga, tão extinta e fumarenta
Como de um sonho o recordar incerto.

VII  
Em frente do meu leito, em negro quadro
A minha amante dorme.É uma estampa
De bela adormecida. A rósea face
Parece em visos de um amor lascivo
De fogos vagabundos acender-se...
E com a nívea mão recata o seio...
Oh! quantas vezes, ideal mimoso,
Não encheste minh'alma de ventura,
Quando louco, sedento e arquejante,
Meus tristes lábios imprimi ardentes
No poento vidro que te guarda o sono! 

VIII  
O pobre leito meu desfeito ainda
A febre aponta da noturna insônia.
Aqui lânguido a noite debati-me
Em vãos delírios anelando um beijo...
E a donzela ideal nos róseos lábios,
No doce berço do moreno seio
Minha vida embalou estremecendo...
Foram sonhos contudo. A minha vida
Se esgota em ilusões. E quando a fada
Que diviniza meu pensar ardente
Um instante em seus braços me descansa 
E roça a medo em meus ardentes lábios
Um beijo que de amor me turva os olhos,
Me ateia o sangue, me enlanguesce a fronte,
Um espírito negro me desperta,
O encanto do meu sonho se evapora
E das nuvens de nácar da ventura
Rolo tremendo à solidão da vida!  

IX  
Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas
Passam tantas visões sobre meu peito!
Palor de febre meu semblante cobre,
Bate meu coração com tanto fogo!
Um doce nome os lábios meus suspiram,
Um nome de mulher... e vejo lânguida
No véu suave de amorosas sombras
Seminua, abatida, a mão no seio,
Perfumada visão romper a nuvem,
Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras
O alento fresco e leve como a vida
Passar delicioso. . . Que delírios!
Acordo palpitante... inda a procuro;
Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas
Banham meus olhos, e suspiro e gemo...
Imploro uma ilusão. . . tudo é silêncio!
Só o leito deserto, a sala muda!
Amorosa visão, mulher dos sonhos,
Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!
Nunca virás iluminar meu peito
Com um raio de luz desses teus olhos?  

X  
Meu pobre leito! eu amo-te contudo!  
Aqui levei sonhando noites belas,
As longas horas olvidei libando
Ardentes gotas de licor doirado,
Esqueci-as no fumo, na leitura
Das páginas lascivas do romance...  
Meu leito juvenil, da minha vida
És a página d'oiro. Em teu asilo
Eu sonho-me poeta, e sou ditoso,
E a mente errante devaneia em mundos
Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes 
Do levante no sol entre odaliscas
Momentos não passei que valem vidas!
Quanta música ouvi que me encantava!
Quantas virgens amei! que Margaridas,
Que Elviras saudosas e Clarissas
Mais trêmulo que Fausto eu não beijava,
Mais feliz que Don Juan e Lovelace
Não apertei ao peito desmaiando!
Ó meus sonhos de amor e mocidade,
Por que ser tão formosos, se devíeis
Me abandonar tão cedo... e eu acordava
Arquejando a beijar meu travesseiro?  

XI  
Junto do leito meus poetas dormem
— O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron —
Na mesa confundidos. Junto deles
Meu velho candeeiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro!
Quero-te muito bem, ó meu comparsa
Nas doudas cenas de meu drama obscuro!
E n’um dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar-te n’um poema heróico
Na rima de Camões e de Ariosto
Como padrão às lâmpadas futuras! 

XII  
Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dous retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo-os cada noite: neste exílio
Venero-os juntos e os prefiro unidos
— Meu pai e minha mãe.— Se acaso um dia
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem-os em meu túmulo.
Mais doce Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.  

XIII  
Havia uma outra imagem que eu sonhava
No meu peito na vida e no sepulcro.
Mas ela não o quis... rompeu a tela
Onde eu pintara meus doirados sonhos. 
Se posso no viver sonhar com ela,
Essa trança beijar de seus cabelos
E essas violetas inodoras, murchas,
Nos lábios frios comprimir chorando,
Não poderei na sepultura, ao menos,
Sua imagem divina ter no peito.  

XIV  
Parece que chorei... Sinto na face
Uma perdida lágrima rolando...
Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,
Derrama no meu copo as gotas últimas
Dessa garrafa negra...  
                       Eia! bebamos!
És o sangue do gênio, o puro néctar
Que as almas de poeta diviniza,
O condão que abre o mundo das magias!
Vem, fogoso Cognac! É só contigo
Que sinto-me viver. Inda palpito,
Quando os eflúvios dessas gotas áureas
Filtram no sangue meu correndo a vida,
Vibram-me os nervos e as artérias queimam,
Os meus olhos ardentes se escurecem
E no cérebro passam delirosos
Assomos de poesia...Dentre a sombra
Vejo n’um leito d'oiro a imagem dela
Palpitante,que dorme e que suspira,
Que seus braços me estende...  
Eu me esquecia: Faz-se noite; traz fogo e dous charutos
E na mesa do estudo acende a lâmpada...




Álvares de Azevedo
IDÉIAS ÍNTIMAS - Fragmentos

Saturday, September 21, 2013

CANTIGA PRA NÃO MORRER



Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.






Ferreira Gullar

Wednesday, September 11, 2013

AUTO DO PREÂMBULO





Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto
como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.

Álvares de Azevedo






A Dama, com um véu de água:
 
    – O livro dos Eternos foi reaberto.

O Palhaço:
    – Há um mundo subterrâneo abaixo dos abismos primordiais.

O Enxadrista de olhos vermelhos:
 
    – Foi lá que Polydegmon, o grande hospedeiro, construiu seu labirinto.

A Mulher-que-passa:

    – Uma nova vida! É disso que se trata.

O Enxadrista de olhos vermelhos:

    – Nada é igual quando algo muda

O Bêbado:
    – Nada é igual, nada é igual...

El Nuevo:

    – Vê aquela bela: as luzes cristalizam a curva morena do corpo.
É como um bailado que brilha na chuva. O mundo fica desfocado ao redor.

O Enxadrista de olhos vermelhos:

    – Coloca a razão ao centro desse céu fictício.

A Dama com um véu de água:

    – Eis o movimento fixado na memória.

O Palhaço:

    – Novos julgamentos foram engendrados.

A Dama com um véu de água:

    – Ergue-se do mar o solo onde a poesia reconstrói Sevilha.

O Homem-que-passa:

    – Uma nova vida. É disso que se trata.
El Nuevo:
    – Povoa a própria vida de amores possíveis.

A Dama, agora sem véu:

    – Nada é igual quando algo muda.






______________________
Excerto de "Don Juan & o Jardim das Maravilhas"

Marcello Chalvinski -  EDIÇÃO DO AUTOR - 2013
Arte: Tom Colbie

Tuesday, September 10, 2013

OS HOMENS OCOS




Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular





T.S. Eliot

Tradução de Ivan Junqueira

Tira-gosto