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TRADUTOR

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Tuesday, March 20, 2018

ARMADILHAS







Meu anzol canhoto
Meu taco mestiço
Meu laço de prata
Meu fogo a queimar
Meu fojo profundo
Meu feitiço

Minha verve
Todo meu mundo
Minha arapuca
Meu landruá

Minha rede de arrasto
Meu visgo
Minha tarrafa de asa
Umas garrafas de cabernet
Um blues, meia luz
Meus ardis
Meu alça-pé, meu alçapão


O meu jequiá
A minha armação
Meu isqueiro de aço
Minha emboscada
Uma verdade rasgada
Tudo que tinha
Sem faltar nada

Infinitas maravilhas
Todas as armadilhas
Só pra pegar teu coração.





Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

Wednesday, June 21, 2017

ROSA GALEGA







só uma rosa há
estilizada & tua
com o perfume
que exalas nua

princesa grega
delgada & leve
Rosa Galega
branca de neve
tua flor-poema
paixão se escreve

há em torno de ti
um calor que flutua
feito canção
& nem mesmo
a mais bela lua
abala tanto
meu coração


Sunday, April 07, 2013

A GERAÇÃO PERDIDA




estive lendo um livro sobre uma rica literata
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedos preciosos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de serem
brinquedos preciosos.
por todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a rica literata e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com olhares inteligentes
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum deles
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedos preciosos
por se sujeitarem
a isso.







Charles Bukowski
[
Trad: M. Chalvinski]












the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally commited his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

Tuesday, April 17, 2012

SOZINHO COM TODO MUNDO



a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.





Charles Bukowski



Wednesday, April 04, 2012

A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA





A luz irrompe onde nenhum sol brilha
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.




DYLAN THOMAS

[TRAD.: FERNANDO GUIMARÃES]

Monday, March 12, 2012

METADE PÁSSARO




A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.





Poema: Murilo Mendes
Arte: Tom Colbie

ANJOS MAUS


Os anjos do mal são verdes e grandes
se escondem nas nuvens nas dobras do céu
perturbam os lares destroem cidades
nem miram coitados a bola do sol.

De tarde insinuam com jeito coisas maliciosas
à mulher que passa acariciando os seios
e às meninas que ficam trancadas no quarto
o dia inteiro no espelho revirando os olhos,
namorando o corpo delas,
depois a sociedade vai por água abaixo.

São fortes e altos, não é sopa não,
têm dentes de pérola, boca de coral.

Os aviadores partem pra combatê-los e morrem.
As viúvas dos aviadores não recebem montepio.




Poema: Murilo Mendes
Arte: Tom Colbie

Tuesday, January 24, 2012

O Solitário




Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.







Rainer Maria Rilke
[Trad: Augusto de Campos]
Arte: Tom Colbie

Tira-gosto