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Tuesday, June 13, 2017

O HOMEM COM BELOS OLHOS

  


Quando éramos crianças
havia uma casa estranha,
as cortinas estavam
sempre
fechadas,
nós nunca ouvíamos uma voz
dentro dela.
O jardim se arrepiava todo
em bambus altos,
nós gostávamos de brincar
no bambuzal.
Fingir ser
Tarzan
(embora não tivéssemos
Jane).
E havia um
tanque de peixes,
um dos grandes,
cheio dos
mais gordos peixes dourados
que você já viu.
Eles eram
mansinhos,
vinham para a
superfície da água
e comiam farelo de
pão
em nossas mãos.

Nossos pais disseram:
“Nunca cheguem perto daquela
casa”.
Portanto, é óbvio,
nós fomos para a casa.
A gente se perguntava
se alguém vivia ali.
Semanas se passaram e
nunca vimos
ninguém.
Então um dia
ouvimos
uma voz.
Vinha da casa:
“SUA PUTA
DESGRAÇADA!”
Era a voz de um
homem.
Em seguida
a porta de tela
da casa
foi aberta
num só puxão,
e o homem
caminhou
para fora.
Ele carregava uma
garrafa de uísque
em sua
mão direita.
Tinha uns
30 anos.
Um cigarro
em sua
boca.
Precisava se barbear.
Seu cabelo era
selvagem e
despenteado.
Pés
Descalços.
Camiseta simples
e calças.
Mas seus olhos
eram
brilhantes.
Eles ardiam
de tanto brilho.
E ele disse:
“Hey, pequenos
cavalheiros,
tendo bons
momentos, eu
espero.”
Então ele deu um
curto riso
e andou
de volta para dentro
daquela casa.
Nós saímos, voltamos
para o jardim dos meus pais,
e pensamos
sobre o ocorrido.
Nossos pais,
decidimos,
queriam nos
manter afastados
daquela casa
porque eles
não queriam que nós
víssemos um homem
como
aquele.
Um forte e natural
homem
com
belos
olhos.
Nossos pais
tinham vergonha
por
não ser
como aquele
homem,
eis por que eles
queriam
nos manter
afastados.
Mas
nós voltamos
para aquela casa
para o bambuzal
para os mansinhos
peixes-dourados.
Nós voltamos
muitas vezes
durante muitas semanas,
mas nós
não vimos
ou ouvimos
o homem
outra vez.
As cortinas estavam
fechadas
como sempre,
e somente se ouvia
o silêncio.
Então um dia
quando voltamos da
escola,
nós vimos
a casa.
Ela havia sido toda
queimada,
nada tinha restado
intacto.
Eram apenas cinzas e a fumegante,
retorcida e negra
fundação.
E nós fomos para
o tanque de peixes.
Dentro dele
não restava água,
e os gordos
peixes alaranjados
estavam mortos
ali,
secando.







Nós voltamos para
o jardim dos meus pais
e conversamos sobre
o ocorrido.
E decidimos que
nossos pais
queimaram aquela casa,
mataram
quem nela morava,
mataram
os peixes dourados,
porque era
tudo muito
belo,
mesmo o bambuzal
havia sido
queimado.
Eles temiam
o homem
com os belos
olhos.
E
nós tememos
desde então
que
ao longo de nossas vidas
coisas como aquela
acontecessem,
e ninguém
quisesse que
alguém
fosse
forte
e belo
daquele jeito.
Tememos que
os outros nunca
permitissem.
E que
muitas pessoas
teriam de
morrer.



Poema: CHARLES BUKOWSKI

Arte: TOM COLBIE

Friday, September 23, 2011

POEMA DE OUTUBRO




Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã

Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.

Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.

Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.

Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela

E pelos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.

E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.

Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.







Dylan Thomas
(trad: Ivan Junqueira)
Arte: Basquiat

Tira-gosto