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TRADUTOR

Tuesday, September 10, 2013

O CEMITÉRIO MARINHO





Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.






Paul Valéry

Tradução de Darcy Damasceno

À ESPERA DOS BÁRBAROS






O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?





Poema:Konstantinos Kaváfis

Tradução de José Paulo Paes
Arte: Tom Colbie

A TERRA DESOLADA






Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.





T. S. Eliot

Tuesday, August 20, 2013

UM POEMA DE AMOR



todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas com que amam e
falam e precisam.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e calçados e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres que são muito
quentes, eles me lembram de
torradas com manteiga com a manteiga
derretida
dentro

há uma aparência nos
olhos: eles foram
eles têm sido tomadas
enganadas. Eu nem mesmo sei o que
fazer por
elas.

eu sou
bom na cozinha um bom
ouvinte
mas eu nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas eu gostei das suas diferentes
camas
de fumar cigarros
olhando para o
teto. Eu não era nem cruel nem
desonesto. apenas
um aprendiz.

Eu sei que todos elas têm pés
e os pés descalços vão pelo chão enquanto
Eu observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim
algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam baixinho de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
um ao outro
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

aquelas orelhas aqueles
braços
cotovelos aqueles olhos
olhando, o carinho e
a carência me sustentaram,
me
sustentaram.





Charles Bukowski - [Tradução: M. Chalvinski]

Tuesday, July 23, 2013

EL NUEVO




El Nuevo
tem hábitos de lua
& ginga de dragão
seu nome se dissemina em segredo
pelos sinistros abismos de Urizen
onde habita aquele eremita
da imensidão

El Nuevo
aprendeu nos penhascos
onde nasceu a verdadeira razão
que ensina pelo ar
como quem ilude
a própria paixão

El Nuevo
foi feito no mar
& devora seres bizarros
adicionando pequenos rasgos
de beatitude marinha
a cada refeição

El Nuevo
se distende
em solidez amável
& surpreende-se
frente ao trânsito imutável
dos amores que se sucedem
como animais de estimação

El Nuevo
planta suaves flores de chocolate
em grossas caixas de papelão
ele as rega com romances difíceis
& aduba com ilusão

para aparar bem os carinhos espinhosos
a poda é feita
com uma tesoura de sofrimento cru
& um alicate sem qualquer emoção

El Nuevo
é da gota serena
& vive com uma gata preta da gema
gata que tem o domínio de artes minúsculas
& é por graça linda & toda cheia de astúcias

mas

la Gata Nigra de El Nuevo
não tem coração!
é como a amante ilustre
de um rei que te odeia
sem qualquer razão

la Gata Nigra
é o olho do diabo
é a língua da guerra
é o monstro branco
o emir underground
a própria corrupção

El Nuevo
porém

é pau de dar em doido
& nunca perde a ocasião
delicia-se em viagens caóticas
fuma ervas exóticas
bebe de fazer medo ao cão

El Nuevo
agora é o dono da situação








Marcello Chalvinski


[Jardim das Maravilhas - Brancaleone Editores - 2013]
Arte: Tom Colbie

Wednesday, July 03, 2013

O FILHO DO SÉCULO



Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.




Murilo Mendes

Tuesday, June 18, 2013

NA COXA DO GIGANTE BRANCO





Por entre as gargantas onde cruzam muitos rios, gritam os maçaricos,
Sob a lua fecundada no topo da alta colina de gesso,
E ali, nessa noite, passeio na coxa do Gigante Branco
Onde mulheres estéreis como rochas jazem quietas e ansiosas
Por trabalhar e amar, embora há muito estejam prostradas.
Por entre as gargantas onde cruzam muitos rios, as mulheres rezam,
Rogando na rasa baía para que se derramem as sementes,
Embora a chuva haja apagado os nomes em suas pedras cobertas de ervas,
E sozinhas no eterno e recurvo transcurso da noite
Elas suspiram com suas línguas de aves aquáticas pelos inconcebidos
Filhos imemoriais da esmurrada colina feita em pedaços.
Elas, que certa vez no inverno de penas de ganso amaram todo o gelo
abandonado
Nas veredas dos cortesãos, ou se enroscaram sob o touro abrasador do sol
Nas carroças com cargas tão altas que os feixes de feno
Se grudavam às nuvens pendentes, ou que alegres se deitavam com alguém
Tão jovem quanto elas à luz recém-ordenhada da lua
Sob todas as formas iluminadas da fé, e suas anáguas enluaradas se erguiam
Com a ventania, ou se assustavam com os jovens e ásperos ginetes,
Agora me oprimem contra os seus grãos na gigantesca clareira do bosque,
Elas, que certa vez, para além dos verdes campos, floresciam qual sebes
de alegrias.
Há tempos, seu pó foi carne que o astuto porqueiro farejava,
Incendiada no mau cheiro da pocilga nupcial pela impetuosa
Luz de suas coxas, distendidas sob o céu da esterqueira,
Ou por seu pomareiro, nas entranhas do arbusto solar,
Suas madeixas gordurosas eram ásperas como línguas de vaca e cortadas
como sarças,
Sob seu verão implacável, como farpas de ouro enfiadas até os ossos,
Ou ondulavam macias como seda no arvoredo lunar
E atiravam pedrinhas no alvo lago que ecoava qual harpa de granizo.
Elas, que outrora foram uma floração de noivas às margens do caminho
da casa dos pilriteiros
E ouviam o campo lascivo e cortejado fluir para as próximas geadas
E o guincho dos empeliçados fradinhos em fuga, ao extinguir-se
O dia, nas naves de cardos, até que a coruja branca cruzasse
Por seu peito, e escutavam o rumor das corças saltitantes, os cervos a subir
Velozes pelo bosque, ante o apelo do amor, lá, onde fumega uma tocha
de raposas.
A todos os pássaros e bestas da noite encadeada elas ouviam repicar em alvoroço
E a toupeira de focinho obtuso a peregrinar sob as cúpulas.
Ou, roliças e untuosas guardadoras de gansos, saltitavam sobre a palha
de uma carroça,
Com os seios túmidos de mel, sob o seu ganso soberano
Que as açoitava com as asas no celeiro sibilante, perdido no passado
E já extinta aquela negra cevada sobre a qual seus tamancos dançavam
na primavera,
E em seus cabelos os grampos luziam como pirilampos, e as medas giravam
(Mas nada nascia, nenhum bebê sugava as veias das colméias,
E desnudas e estéreis na terra da Mãe Ganso
Eram elas, com os humildes aldeãos, unia pedreira de esposas)
Agora o maçarico implora que eu me incline para beijar os lábios de seu pó.
De lá para cá, o rebuliço de suas chaleiras e relógios oscila
Onde agora o feno cavalga ou as cozinhas de samambaias criam mofo
Como o arco das ceifeiras que aparavam as sebes a relâmpagos
E cortavam os ramos dos pássaros avermelhados pela seiva trovadora.
Vindas das casas em que se ajoelham as colheitas, elas me apertam,
Elas, que ouviram dobrar os ruidosos sinos nos domingos dos mortos
E a chuva que escorria de suas línguas no cemitério enevoado,
Ensinam-me que o amor é sempre verde depois que o outono semeia folhas
Sobre o túmulo, depois que o Amado, sobre a cruz enterrada na relva,
Seja varrido pelo sol e as Filhas já não se lamentem
Salvo pelos que há muito as desejam nas ruas em que a raposa deu à luz
Ou ao sentir-se famintas no bosque esfacelado: a tais mortos
Sadios e imortais é que amam as mulheres da colina
Em seu eterno apogeu em meio às árvores dos cortesãos
E as filhas da treva flamejam, todavia, como as fogueiras de Fawkes.1







Dylan Thomas

Tradução: Ivan Junqueira






1 Alusão ao Dia de Guy Fawkes – 5 de novembro –, quando se comemora na Inglaterra, com
fogueiras e rojões, a malograda insurreição dita Conspiração da Pólvora (1605), cujo objetivo era
fazer explodir o Parlamento. Como se recorda, Fawkes (1570-1606), depois de convertido ao
catolicismo, foi arrastado aos subterrâneos do Parlamento de Londres no dia de abertura das sessões

ordinárias daquele ano, quando se preparava para explodir ali um barril de pólvora. (N. do T.)

Thursday, June 06, 2013

O CÃO SEM PLUMAS



I. Paisagem do Capibaribe 
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe 
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe 
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso — ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta — trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe 
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).




João Cabral de Melo Neto 

Wednesday, June 05, 2013

POEMA SUJO





Trecho mais ludovicense do poema de Gullar, que opõe a "turva/mão do sopro/contra o muro/escuro/menos menos/menos que escuro/menos que mole e duro/menos que fosso e/muro: menos que furo..." A obra foi escrita durante os anos de chumbo do Regime Militar.


Tuesday, May 28, 2013

O ANJO QUE ENCONTREI



o anjo que encontrei

tinha um jeito próprio
de ser de outro modo
ela sabia muito bem
tudo o que eu não sei


seu olhar bastava

para perfumar toda uma vida
& sua língua destilava sílabas



capazes de deter balas perdidas




o anjo que encontrei
sangrava os pés quando dizia
que a consciência é apátrida
mas ainda assim sambava, sambava
sambava & sorria

& batia no peito com magia leve
(tinha um jeito próprio de ver a vida como se deve)


o anjo que en
contrei
levava sobre os ombros
uma canção que vibrava
ou talvez fossem
suas asas...

só sei

que era um anjo determinado:
acreditava em recomeços
mas sempre terminava o começado

M. Chalvinski
[- Brancaleone editores - 2013]

Monday, May 20, 2013

COBRA NORATO




(fragmentos)



I



Um dia
ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim.


Vou andando, caminhando, caminhando;
me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes.
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato.


— Quero contar-te uma história:
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.


A noite chega mansinho.
Estrelas conversam em voz baixa.


O mato já se vestiu.
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a cobra.


Agora, sim,
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo:


Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.


— Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.



II



Começa agora a floresta cifrada.
A sombra escondeu as árvores.
Sapos beiçudos espiam no escuro.


Aqui um pedaço de mato está de castigo.
Árvorezinhas acocoram-se no charco.
Um fio de água atrasada lambe a lama.


— Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!


Agora são os rios afogados,
bebendo o caminho.
A água vai chorando afundando afundando.


Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.


— Agora sim, vou ver a filha da rainha Luzia!


Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados
guardadas por um jacaré.


— Eu só quero a filha da rainha Luzia.


Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo
Tem que fazer mironga na lua nova.
Tem que beber três gotas de sangue.


— Ah, só se for da filha da rainha Luzia!


A selva imensa está com insônia.


Bocejam árvores sonolentas.
Ai, que a noite secou. A água do rio se quebrou.
Tenho que ir-me embora.


E me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam.


De todos os lados me chamam:
— Onde vai, Cobra Norato?
Tenho aqui três árvorezinhas jovens, à tua espera.


— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.



IV



Esta é a floresta de hálito podre,
parindo cobras.


Rios magros obrigados a trabalhar.


A correnteza arrepiada junto às margens
descasca barrancos gosmentos.


Raízes desdentadas mastigam lodo.


A água chega cansada.
Resvala devagarinho na vasa mole
com medo de cair.


A lama se amontoa.


Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé.


Fede...


Vento mudou de lugar.


Juntam-se léguas de mato atrás dos pântanos de aninga.
Um assobio assusta as árvores.


Silêncio se machucou.


Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
Pum


Um berro atravessa a floresta.


Correm cipós fazendo intrigas no alto dos galhos.
Amarram as árvorezinhas contrariadas.


Chegam vozes.


Dentro do mato
pia a jurucutu.


— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.



XXXII



— E agora, compadre,
eu vou de volta pro Sem-Fim.


Vou lá para as terras altas,
onde a serra se amontoa,
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu.


Quero levar minha noiva.
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar,
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor.


Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém.
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem, bem;


Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu,
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar,


E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de contar histórias
(histórias de não-dizer-nada)
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.






Raul Bopp

(Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/rb.html#cobra )

Thursday, May 16, 2013

UMA PRECE PELA MINHA FILHA



Desaba a tempestade outra vez; 
escondida
Sob os mantos e os véus do berço, adormecida, 
Minha filha. Nenhuma outra barreira existe, 
Senão a mata espessa e uma colina triste, 
Contra o vento que vem do Atlântico potente, 
Abatendo o celeiro e os tetos, quando solto; 
E há uma hora já que rezo e vou e volto, 
Pois é grande a apreensão em minha mente. 

Há uma hora já que estou a rezar, indo e vindo,

A ouvir a ventania ao longe produzindo 
Contra a torre ou na ponte o seu forte assobio, 
Ou sobre os olmos, na distância, além do rio. 
Num devaneio inquieto, eu fico a imaginar 
Que o futuro chegou e agora vem, surgido – 
A dançar num frenético alarido – 
Da inocência mortífera do mar. 


Que ela tenha beleza, e entanto que não seja

A ponto de causar o alheio espanto e a inveja, 
Ou o seu próprio perante o espelho, pois todo esse 
Que a beleza cumula e dota se envaidece, 
E a toma por um fim em si mesma ou um bem, 
Perdendo a natural bondade e muita vez 
Toda a espontaneidade e singelez 
Que escolhe certo – e vive sem ninguém. 

Helena, a eleita, por estar aborrecida 
Foi ao lado de um tolo estragar sua vida, 
Enquanto a outra imortal Rainha, que nasceu 
Do imenso mar, sem pai, por homem elegeu 
Um feioso artesão coxo e de pernas tortas. 
Belas mulheres vão às vezes misturar 
Uma salada louca ao seu manjar 
Tão logo a Cornucópia esteja à porta. 

Na cortesia é que eu a pretendera exímia; 
Os corações não são prendas: mas pela estima 
Vence-os quem não é tão bonito; e quem bancou 
O bobo e da beleza em si se enamorou, 
Tornou-o sábio a graça interior; mais de um crente 
Que, pobre, pelo mundo andou perambulando, 
Amando muito e amado se julgando, 
A bondade o conquista certamente. 


Que ela uma árvore seja a florir escondida,

E seja o seu pensar uma ave agradecida, 
Ocupada somente em exercer o dom 
De espargir ao redor um magnânimo som, 
E alegremente saia em busca do alimento 
E, mesmo querelando, o faça alegremente. 
Oh, seja como o verde louro, assente 
Num perpétuo lugar do sentimento. 


Minha mente, devido às mentes que eu amei,

Ao tipo de beleza em que me deleitei, 
Bem pouco prosperou, secou, e agora sabe 
Que sufocar em ódio é coisa que não cabe, 
Que de tudo o que é mau é sempre o mal maior. 
Se não deixarmos o ódio entrar em nossa mente, 
Por mais que o vento se levante e tente, 
Não cai da folha o pássaro cantor. 


De todos o pior é o ódio intelectual;

Então que ela aborreça opiniões. Afinal 
Não vi também mulher, entre todas amável 
Que no mundo deitou o Corno inesgotável, 
Pela simples razão de um cérebro opinioso 
trocar aquele chifre e os bens que ele contém, 
Como os de índole humilde sabem bem, 
Por velho fole e vento furioso? 


Considerando assim, toda ira dominada,

Sua inocência tem a alma reconquistada 
E aprende que a inocência em si se delicia, 
Em si se apazigua, e a si se policia, 
E que ela quer somente aquilo que o Céu quis; 
Ela pode – por mais que o outro franza o cenho, 
Por mais que o vento muja e faça empenho 
E cada fole sopre – ser feliz. 


E então para uma casa a leve o seu esposo,

Para um viver regrado e cerimonioso, 
Pois soberba e rancor são más mercadorias 
Que se podem comprar nos becos e nas vias. 
Senão na cerimônia e no costume, como 
Pode haver inocência e florescer a graça? 
Cerimônia, eis o nome dessa taça, 
E o verde louro chama-se costume.






William Butler Yeats
[Trad.: Renato Suttana]

Thursday, May 02, 2013

A DURAÇÃO




Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e Ihe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.



WILLIAM CARLOS WILLIAMS
[TRAD: José Paulo Paes]

Wednesday, May 01, 2013

SÓ BRIO









entre o cântaro vazio e a pantera

no cio

ouve-se a voz sonora de Baco:

- poeta que se leva muito


a sério

não confia no próprio taco








Lúcia Santos

Monday, April 29, 2013

O POETA




vai-te para longe de mim, hora.
o bater de tuas asas me excrucia.
mas de minha boca, que fazer agora ?
e da minha noite ? e do meu dia ?


eu não tenho amada nem abrigo,
sequer um lugar para viver eu tenho.
todas as coisas em que me empenho
tornam-se opulentas e acabam comigo.








Rainer Maria Rilke

Friday, April 19, 2013

UMA MULHER



Ela estava no círculo familiar como as outras,
Folheando um livro de gravuras:
A noite nos cercava com seus abismos azuis
E a idéia de quase uma floresta próxima.

Alguém acendeu um candeeiro de petróleo,
As pessoas presentes recuaram no tempo.
Ela se levantou para abrir uma vidraça,
E muito branca, toda vestida de preto,
Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes,
Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota,
Hélices mexendo, mãos a correr no teclado.
Quando sentou-se era outra vez a mulher.







Murilo Mendes

SOMOS TODOS POETAS





Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.





Murilo Mendes

Thursday, April 18, 2013

O HOMEM QUE CONTEMPLA





Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra o que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha ereto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser profundamente vencido
por algo cada vez maior. 






RAINER MARIA RILKE

Wednesday, April 17, 2013

A CANÇÃO DO IDIOTA





Não me incomodam. Deixam-me ir.
Dizem que não pode acontecer nada.
Ainda bem.
Não pode acontecer nada. Tudo chega e gira
sempre em torno do Espírito Santo,
em torno de determinado espírito (tu sabes) —
que bem.

Não, realmente não deve pensar-se que haja
qualquer perigo nisso.
Sim, há o sangue.
O sangue é o mais pesado. O sangue é pesado.
Por vezes penso que não posso mais —
(Ainda bem.)

Ah, que linda bola;
vermelha e redonda como um Em-toda-a-parte.
Ainda bem que a criastes.
Ela vem quando se chama?

De que estranha maneira tudo se comporta,
apressa-se a juntar-se, separa-se nadando:
amigável, um pouco vago.
Ainda bem. 



RAINER MARIA RILKE  - In O Livro das Imagens, 1902 - Trad. de Maria João Costa Pereira

Sunday, April 07, 2013

A GERAÇÃO PERDIDA




estive lendo um livro sobre uma rica literata
dos anos vinte e seu marido que
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedos preciosos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de serem
brinquedos preciosos.
por todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a rica literata e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com olhares inteligentes
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum deles
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedos preciosos
por se sujeitarem
a isso.







Charles Bukowski
[
Trad: M. Chalvinski]












the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally commited his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

Tira-gosto