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Tuesday, September 10, 2013

O CEMITÉRIO MARINHO





Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.






Paul Valéry

Tradução de Darcy Damasceno

Monday, March 12, 2012

IRMANDADE





Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.




Octavio Paz

ANJOS MAUS


Os anjos do mal são verdes e grandes
se escondem nas nuvens nas dobras do céu
perturbam os lares destroem cidades
nem miram coitados a bola do sol.

De tarde insinuam com jeito coisas maliciosas
à mulher que passa acariciando os seios
e às meninas que ficam trancadas no quarto
o dia inteiro no espelho revirando os olhos,
namorando o corpo delas,
depois a sociedade vai por água abaixo.

São fortes e altos, não é sopa não,
têm dentes de pérola, boca de coral.

Os aviadores partem pra combatê-los e morrem.
As viúvas dos aviadores não recebem montepio.




Poema: Murilo Mendes
Arte: Tom Colbie

Thursday, October 20, 2011

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.




Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!"Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."




Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares (FP)

Tuesday, September 20, 2011

Eu faço versos como quem chora





Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.






Manuel Bandeira




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Friday, March 25, 2011

MINHA LINDA AMANTE DAS NUVENS





Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas...
Hilda Hilst


minha linda
amante das nuvens
move-se em perfumes
& não me ama

perdida no tempo
rara & feita
de uma esperteza dos céus
rarefaz-me

& esbelta
trama, ri, espreita
a controlar gestos
por entre véus

sei que caça seu amor pelos ares
(quem sabe em todos os lugares)

bem perto da noite
que me funde a seu breu

manipula o vento
com os dedos lisos
a quem nada escapa

nem o pássaro
que passa









Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

Saturday, February 26, 2011

DELÍRIOS II - ALQUIMIA DO VERBO





(Da série Influências)



Para mim. A história de minhas loucuras. Há muito me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e tenho como ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amo as pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem ortografia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingênuos, ritmos simplíssimos.

Sonhei cruzadas, viagens de descobrimentos das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, mais dia, menos dia, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los. Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites. Anotava o indizível. Fixava vertigens.




Poema: Arthur Rimbaud

Arte: Tom Colbie




Arthur Rimbaud



Tira-gosto