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Tuesday, September 10, 2013

O CEMITÉRIO MARINHO





Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.






Paul Valéry

Tradução de Darcy Damasceno

Friday, March 30, 2012

TEUS OLHOS








Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.







Octavio Paz

Tuesday, January 24, 2012

O Solitário




Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.







Rainer Maria Rilke
[Trad: Augusto de Campos]
Arte: Tom Colbie

Thursday, September 22, 2011

Canção do Rei de Espadas

.

















"Homem livre, tu sempre gostarás do mar."Chalres Baudelaire








singrar o mar
ofício de cordas
& nós


singrar o mar
exercício de músculos
& velas


singrar o mar
canção feito alma de peixe
mastros que cortam o ar


ainda que me desleixe
singrar o mar!


uma singradura
feita de vento & ventura
feita de sal
& de suor que não dura


singrar o mar
oração repleta de bússolas
amarras livres
carnaval
agridoçura


singrar o mar
velha alma austral
magnetismo hiperbóreo
flor celícola da aventura
hei de singrar o mar
minha amada
& irei
muito além da verve
com meus versos
de argonauta
com meu espírito
titânico
com meu olhar
cheio de febre


hei de singrar o mar
minha amada
irei buscar
o que me desvele
orquídeas afrodisíacas
& amapolas
do fim do mundo


hei de singrar o mar
minha amada
& subirei com meu batel
as mais altas nuvens do céu


irei buscar
os cantos dionisíacos
& as impressões
do azul profundo


hei de singrar o mar
minha amada
pois navegar é preciso
desde que o mundo
é mundo








MARCELLO CHALVINSKI - TEMPORAL - BRANCALEONE - 2005






.

Saturday, February 26, 2011

VERTIGEM FIXA







prisioneiro de um ar
feito de vidro
sonhei o mar
esquecido
a retorcer engrenagens
esquecidas
na maquinaria
convectiva da chuva

cerquei com palavras
(atrevido)
um pedaço da tempestade
na verdade
de um tamanho sofrido

milhões de relógios anidros
na contingência das vogais
oxidavam pardais
semi-breves & ais
na pauta de mais
um cântico chovido

por um instante
(sentido)
deu pra ver bipartido
o coração do relâmpago
parafusado às consoantes







Poema: Marcello Chalvinski - Temporal - 2005
Arte: Tom Colbie

Tira-gosto