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Friday, December 20, 2013

A PANTERA



DER PANTHER
Rainer Maria Rilke

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.
______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)



(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

______________________


A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. José Paulo Paes)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.





Artwork Tom Colbie

Monday, April 29, 2013

O POETA




vai-te para longe de mim, hora.
o bater de tuas asas me excrucia.
mas de minha boca, que fazer agora ?
e da minha noite ? e do meu dia ?


eu não tenho amada nem abrigo,
sequer um lugar para viver eu tenho.
todas as coisas em que me empenho
tornam-se opulentas e acabam comigo.








Rainer Maria Rilke

Thursday, April 18, 2013

O HOMEM QUE CONTEMPLA





Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra o que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha ereto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser profundamente vencido
por algo cada vez maior. 






RAINER MARIA RILKE

Wednesday, April 17, 2013

A CANÇÃO DO IDIOTA





Não me incomodam. Deixam-me ir.
Dizem que não pode acontecer nada.
Ainda bem.
Não pode acontecer nada. Tudo chega e gira
sempre em torno do Espírito Santo,
em torno de determinado espírito (tu sabes) —
que bem.

Não, realmente não deve pensar-se que haja
qualquer perigo nisso.
Sim, há o sangue.
O sangue é o mais pesado. O sangue é pesado.
Por vezes penso que não posso mais —
(Ainda bem.)

Ah, que linda bola;
vermelha e redonda como um Em-toda-a-parte.
Ainda bem que a criastes.
Ela vem quando se chama?

De que estranha maneira tudo se comporta,
apressa-se a juntar-se, separa-se nadando:
amigável, um pouco vago.
Ainda bem. 



RAINER MARIA RILKE  - In O Livro das Imagens, 1902 - Trad. de Maria João Costa Pereira

Wednesday, September 05, 2012

ANUSKA

                   


Nesse verão, a senhora Blaha, esposa, de um pequeno funcionário do caminho de ferro de Turnan, Venceslau Blaha, foi passar algumas semanas a sua terra natal. Era uma vilória muito pobre e banal, situada na planície pantanosa da Boémia, na região de Nimburgo. Quando a senhora Blaha, que, apesar de tudo, se sentia em certa medida uma pessoa da cidade, tornou a ver todos aqueles casinhotos miseráveis, considerou-se capaz de uma acção caridosa. Entrou em casa de uma campónia que conhecia e que tinha uma filha e propôs-lhe levar a rapariga para a sua casa da cidade, tomando-a ao seu serviço.
Pagar-lhe-ia um ordenado modesto e a rapariguinha gozaria da vantagem de estar na cidade e aprender lá muitas coisas. (A senhora Blaha não se apercebia bem do que a rapariga lá poderia aprender). A camponesa discutiu a proposta com o marido, que carregava muito o sobrecenho e se limitou, como resposta, a cuspir para o lado e, por fim, perguntou:
- Ora diz lá, a senhora sabe que a Ana é um pouco...?
E dizendo isto, agitou em frente da testa a mão queimada e enrugada como uma folha de castanheiro.
- Imbecil! - respondeu a camponesa. - Não somos nós que devemos...
E assim foi Ana para casa dos Blaha. A maior parte das vezes ficava sozinha durante o dia inteiro. O
patrão estava no escritório e a senhora trabalhava em costura fora de casa; não tinham filhos.
Ana passava o tempo sentada na pequena cozinha sombria, uma das janelas da qual dava para o pátio, e esperava a chegada da caixa de música. Vinha todas as tardes, antes do pôr do sol. Inclinava-se então o mais que podia para fora da janela e, enquanto o vento lhe agitava os cabelos claros, dançava interiormente até à vertigem e até que as paredes altas e sujas parecessem balouçar-se uma em frente da outra. Quando a dominava o medo da solidão, percorria toda a casa, descia a escada sombria até ao saguão, onde um homem cantava, meio embriagado. Encontrava sempre no seu caminho crianças, que vagabundeavam durante horas sem fim no pátio, sem que os pais notassem a ausência de nenhuma delas, e, coisa estranha, os pequenos pediam-lhe sempre que lhes contasse histórias. Por vezes seguiam-na mesmo até à cozinha. Ana sentava-se então ao lado do forno, escondia o rosto pálido nas mãos e dizia:
«Reflectir». As crianças esperavam durante algum tempo. Mas quando Anuska continuava a reflectir e o silêncio na cozinha sombria as intimidava, as crianças fugiam, sem verem que a pobre rapariga se punha a chorar com lamentosa meiguice e que a saudade da terra a torturava. De que tinha ela saudades?
Ninguém poderia dize-lo. Talvez até das pancadas que lá lhe davam. A maior parte das vezes não sabia o que era que a fazia sofrer de saudades; talvez alguma coisa que um dia existira, a menos que tivesse sido apenas sonho. À força de reflectir sempre que tinha as crianças junto de si, foi-se, pouco a pouco, recordando. A princípio era vermelho, vermelho, depois aparecia uma grande multidão. Ouvia-se então o pesado som de um sino e, em seguida, surgiam um rei, um camponês e uma torre. «Meu senhor rei», disse o campónio... «Sim», respondeu o rei em voz altiva, «já sei». E, com efeito, como é que um rei poderia ignorar tudo aquilo que um camponês pode ter para lhe dizer?
Algum tempo depois, a patroa levou a rapariguinha a fazer compras. Como o Natal se aproximava e era à tardinha, as montras estavam já iluminadas e providas de uma porção de coisas. Numa loja de
brinquedos, Ana viu, de repente, aquilo que era objecto da sua recordação: o rei, o campônio e a torre.
Oh! E o coração bateu-lhe com mais força do que os seus passos no lajedo. Mas depressa desviou os olhos e, sem se deter, continuou a seguir a senhora Blaha. Dominava-a o sentimento de que não deveria revelar nada do seu segredo, e o teatro das bonecas ficou atrás delas, como se não o tivessem notado.
Com efeito, a senhora Blaha, não tendo filhos, nem sequer tinha feito reparo. Um pouco mais tarde, Ana teve o seu dia de saída. Não voltou à noite. Um homem, que encontrara à porta de um café, fez-lhe companhia, e não se lembrava com exatidão do lugar aonde ele a conduzira. Afigurava-se-lhe ter estado ausente durante um ano inteiro. E quando, fatigada, voltou, na segunda de manhã, para a pequena cozinha, esta pareceu-lhe ainda mais fria e mais sombria do que habitualmente. Nesse dia, partiu uma terrina, o que lhe valeu uma violenta descompostura. A patroa nem sequer notara a sua ausência durante uma noite inteira. Depois, pelo começo do ano, dormiu fora mais três noites. E, de repente, deixou de passear através da casa, fechou, receosamente, a janela e nunca mais apareceu, nem mesmo quando a caixa de música surgia.
Assim passou o Inverno, e uma pálida e tímida Primavera começou. É uma estação com um aspecto muito particular nos pátios interiores. As casas são negras e úmidas, mas a atmosfera aparece, ali, luminosa e comparável ao linho mais branco. As janelas, mal lavadas, lançam reflexos saltitantes e leves flocos de poeira dançam ao vento, descendo ao longo dos andares. Ouvem-se os ruídos da casa inteira, as caçarolas tilintam com um barulho muito diferente do habitual, com um som mais claro, mais agudo, e até as facas e as colheres têm som diferente. Nesse tempo, Anuska teve um filho. Foi para ela uma grande surpresa. Depois de se sentir, durante longas semanas, volumosa e pesada, aquilo escapou-se-lhe, uma bela manhã, de dentro, e surgiu neste mundo, vindo sabe Deus donde. Era domingo e toda a gente dormia ainda em casa. Olhou durante um instante a criança, sem o rosto se lhe alterar o mínimo que fosse. Mal se mexia! De repente, porém, uma vozinha aguda saiu do pequenino peito. No mesmo instante, a senhora Blaha chamou e as molas da cama estalaram no quarto de dormir. Anuska agarrou então no avental azul que estava em cima da cama, apertou as fitas em volta do pescocinho delgado e pôs aquilo, como um embrulho, no fundo da mala. Passou depois à cozinha, entreabriu as cortinas e começou a preparar o café. Num dos dias seguintes, Anuska deitou contas aos salários que até então recebera: eram quinze florins. Fechou depois a porta, abriu a mala e poisou o avental azul, com o que continha, em cima da mesa. Abriu-o, lentamente, olhou a criança, mediu-a dos pés à cabeça com a ajuda de um metro. Depois, pôs, de novo, tudo em ordem e foi à cidade. Que pena! O rei, o camponês e a torre eram muito mais pequenos. Trouxe-os, contudo, e, com eles, outras bonecas ainda, a saber: uma princesa com manchas vermelhas e redondas nas faces, um velhote com uma cruz ao peito e que se parecia com S. Nicolau por causa da barba comprida e mais duas ou três outras menos belas e imponentes. Além disso, um teatro cujo pano subia e descia, mostrando ou escondendo o jardim que formava o cenário.
Anuska tinha, finalmente, com que se ocupar durante as suas horas de solidão e de nostalgia. Instalou aquele magnífico teatro (custara doze florins) e colocou-se por detrás dele como convém. Mas, por vezes, quando o pano subia, corria pela frente do teatro, olhava para aquele jardim, e toda a cozinha, pardacenta, desaparecia, então, por detrás das grandes árvores magníficas. Depois recuava alguns passos, pegava em duas ou três bonecas e punha-as a falar. Não era uma verdadeira peça; as bonecas falavam e respondiam umas às outras; também, por vezes, acontecia que duas bonecas, como que aterrorizadas, se inclinavam, subitamente, uma diante da outra, ou faziam um cumprimento ao velhote que não podia curvar-se, por ser todo de madeira. Por isso, a emoção fazia-o em todos esses casos cair para trás. O boato dessa brincadeira correu entre as crianças, e, em breve, os pequenos da vizinhança, a princípio prudentes e depois cada vez mais atrevidos, apareceram na cozinha dos Blaha, de pé, pelos cantos, quando a noite começava a cair, sem perderem de vista as belas bonecas que repetiam sempre as mesmas coisas.
Um dia, Anuska, com as faces em fogo, disse:
- Tenho ainda uma muito maior!
As crianças tremiam de impaciência. Mas Anuska parecia esquecida do que acabara de dizer. Dispôs todas as personagens no jardim, apoiando contra o cenário as que não podiam ter-se em pé. Nesta ocasião apareceu uma espécie de Arlequim, de grande cara redonda, que as crianças não se lembravam de ter visto. A curiosidade ainda ficou mais excitada com todo aquele esplendor, e os pequenos suplicaram que lhes mostrasse a «maior de todas». Só uma vez, a «maior de todas»! Por um instante só, a «maior de todas»!
Anuska caminhou para a mala. A noite caía. As crianças e as bonecas estavam de pé, umas em frente das outras, silenciosas e quase iguais. Mas, dos grandes olhos abertos do Arlequim, que pareciam esperar qualquer espetáculo terrível, espalhou-se, de súbito, um tal pavor pelas crianças que soltando agudos gritos, fugiram sem excepção. Um grande objecto azulado se destacava nas mãos de Anuska, que, de repente, tinham começado a tremer. A cozinha, abandonada pelas crianças, ficara estranhamente vazia e silenciosa. Anuska não sentia medo. Riu docemente, derrubou o teatro com um pontapé, depois espezinhou as travessazinhas de madeira que tinham figurado o jardim, e, quando a cozinha ficou mergulhada na noite, andou à roda dela, a ofender o crânio a todas as bonecas, incluindo a azul, a maior.







RAINER M. RILKE

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ARTE: TOM COLBIE

Thursday, June 28, 2012

O APÓSTOLO



Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e
clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres.
Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá
para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de
champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as
jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as
palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto
ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina.
Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas,
enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a
mesa multicor.
Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um
desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens
deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não
era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e
apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do
século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente
eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e
poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava
como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse.
Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em
segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé,
interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia
explicar-se aquela presença.
A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos
conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido.
Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos
traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na
toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus
anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora
doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não
tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e
levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O
desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a
baronesa Vilovsky não abandonava a partida.
- Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu
vizinho.
E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos
uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em
favor das vítimas desse incêndio.
Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a
proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa
sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava.
- Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não
admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes:
- Sim, de acordo! Naturalmente!
O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto
eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de
notas do banco.
- Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A
sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num
tom brutal, disse:
- Não!
A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no
estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu:
- A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando
através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que
o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos
castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da
mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado
cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a
destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta.
A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A
baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me
compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos
quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade
pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o
amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com
volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência.
Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho
como se sentisse faltar-lhe o fôlego.
- A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre
os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da
indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma!
Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote.
- Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como
aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos
instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador
quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e
as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o
brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E
foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual
incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo
que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo!
Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexerse
e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de
prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade,
rompiam o abafado silêncio.
- E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a
essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que
tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos
doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que
caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos
próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os
nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as
suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus
dias.
Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou:
- Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num
enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos
são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para
proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um
fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com
firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já
flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho?
Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a
tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo,
prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem
aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os
preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma?
Elevou-se um murmúrio.
- Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado
fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrarvos
eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no
regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso
que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir
apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos
entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como
uma grande chama livre e jubilosa!
Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu:
- E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos
por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor
do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar
todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa
múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que
odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar
sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso
vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide
infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não
estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais.
Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela
vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de
constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz?
«Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda
de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de
vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o
destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados,
miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso
avançar. Para a frente!
«Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós
também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou
forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras
cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos,
os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada.
Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os
seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os
corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...»
Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza
sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus.
O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois
regressando, subitamente, à realidade concluiu:
- Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Voume
através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio!
Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o
lenço contra as pálpebras.
Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio.
Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados,
trémulos ainda, retomaram o serviço.
O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso
da palavra.
Disse entre dentes: - Era um louco ou...
Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia
um pedaço de empadão de lagosta.




Rainer Maria Rilke

Tuesday, May 29, 2012

LEDA




Quando o deus revestiu sua figura,
surpreendeu-se de achar tanta beleza
no cisne e se deixou perder na alvura.
Mas logo se aprestou à sua empresa,

antes ainda que da sua presa
provasse as sensações. A que se abria
compreendeu quem no cisne se encobria.
Soube que demandava com presteza

algo que a resistência de sua mente
não pôde mais deter com arma alguma.
O deus, vencendo a mão desfalecente,

cingiu a a amada num coleio-abraço,
sentiu o próprio corpo, pluma a pluma,
e só então foi cisne em seu regaço.




R. M. Rilke 

[Trad.: Augusto de Campos] 

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Leda
R. M. Rilke

Als ihn der Gott in seiner Not betrat,
erschrak er fast, den Schwan so schön zu finden;
er liess sich ganz verwirrt in ihm verschwinden.
Schon aber trug ihn sein Betrug zur Tat,

bevor er noch des unerprobten Seins
Gefühle prüfte. Und die Aufgetane
erkannte schon den Kommenden im Schwane

und wusste schon: er bat um Eins,

das sie, verwirrt in ihrem Widerstand,
nich mehr verbergen konnte. Er kam nieder
und halsend durch die immer schwächre Hand

liess sich der Gott in die Geliebte los.
Dann erts empfand er glüchlich sein Gefieder
und wurde wirklich Schwan in ihrem Schoss.

Tuesday, January 24, 2012

O Solitário




Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.







Rainer Maria Rilke
[Trad: Augusto de Campos]
Arte: Tom Colbie

Exercícios ao Piano





O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que a faz doente.



Rainer Maria Rilke
[Trad: Augusto de Campos]

Tira-gosto