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Wednesday, November 22, 2017

ÚLTIMA PÉTALA





úmida
a saudade cáustica
abriu translúcida
a vertiginosa túnica
de cristal & gelo

última pétala
da paixão infinda
urdida de fiar-se única
fiou no inverno
os cabelos 
& ainda
engendrou-se
lótus pútrida
no escuro lamaçal
do impuro  desespero

dragão de lágrimas
& papoulas
frieza pétrea que voa
deixa que eu fuja
de teu esperto riso
com minhas asas
de absinto & desmantelo

ferida íntima
de tristeza estúpida
cicatriza
ao álcool farto
que eu bebo à-toa

detém teu furor incerto
& teu flagelo
na boca
de teu incerto riso

teu céu arrizo
oculta
falsas lantejoulas
&
sólido granizo

águia de cosméticos
& cifrões
foge à minha flecha
de veneno
& brio

vê que te espera
a guilhotina insana
do esquecimento
com todas as lâminas
para teu espírito de hydra

é o teu
&
não o meu sangue
que vazará

da clepsidra




MARCELLO CHALVINSKI
[TEMPORAL- BRANCALEONE - 2005]

Tuesday, September 20, 2011

Eu faço versos como quem chora





Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.






Manuel Bandeira




.

Saturday, February 26, 2011

DELÍRIOS II - ALQUIMIA DO VERBO





(Da série Influências)



Para mim. A história de minhas loucuras. Há muito me gabo de possuir todas as paisagens possíveis e tenho como ridículas as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amo as pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas, panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas, literatura fora de moda, latim eclesiástico, livros eróticos sem ortografia, romances antigos, contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas, refrões ingênuos, ritmos simplíssimos.

Sonhei cruzadas, viagens de descobrimentos das quais não existiam relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas, revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes: acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde - Determinei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, procurei inventar um verbo poético acessível, mais dia, menos dia, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los. Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites. Anotava o indizível. Fixava vertigens.




Poema: Arthur Rimbaud

Arte: Tom Colbie




Arthur Rimbaud



Tira-gosto