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Friday, November 14, 2014

QUIMERA




Não vês, menina, o outono
desfolhar a minha vida?
Sonhos desfeitos em abandono,
longa estrada percorrida?
E me vens assim tão destemida
dizer que amas a minha solidão,
tu, quase menina ainda,
a oferecer-me pétalas de ilusão.
Mal sabes do que é feito
um poeta já sem inspiração,
desencantado de sonetos,
tantas cicatrizes no coração.
Vais, esquece essa quimera:
tu és o amanhã, o sonho;
eu, o que não mais se espera –
não pode, meu amor, o outono
abraçar a primavera.





Alex Brasil

Wednesday, March 14, 2012

CORTE TRANSVERSAL DO POEMA






A música do espaço pára, a noite se divide em dois pedaços.
Uma menina grande, morena, que andava na minha cabeça,
fica com um braço de fora.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Um anjo cinzento bate as asas
em torno da lâmpada.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Eu sou o olho dum marinheiro morto na Índia,
um olho andando, com duas pernas.
O sexo da vizinha espera a noite se dilatar, a força do homem.
A outra metade da noite foge do mundo, empinando os seios.
Só tenho o outro lado da energia,
me dissolvem no tempo que virá, não me lembro mais quem sou.









Murilo Mendes

Tira-gosto