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TRADUTOR

Wednesday, September 05, 2012

ANUSKA

                   


Nesse verão, a senhora Blaha, esposa, de um pequeno funcionário do caminho de ferro de Turnan, Venceslau Blaha, foi passar algumas semanas a sua terra natal. Era uma vilória muito pobre e banal, situada na planície pantanosa da Boémia, na região de Nimburgo. Quando a senhora Blaha, que, apesar de tudo, se sentia em certa medida uma pessoa da cidade, tornou a ver todos aqueles casinhotos miseráveis, considerou-se capaz de uma acção caridosa. Entrou em casa de uma campónia que conhecia e que tinha uma filha e propôs-lhe levar a rapariga para a sua casa da cidade, tomando-a ao seu serviço.
Pagar-lhe-ia um ordenado modesto e a rapariguinha gozaria da vantagem de estar na cidade e aprender lá muitas coisas. (A senhora Blaha não se apercebia bem do que a rapariga lá poderia aprender). A camponesa discutiu a proposta com o marido, que carregava muito o sobrecenho e se limitou, como resposta, a cuspir para o lado e, por fim, perguntou:
- Ora diz lá, a senhora sabe que a Ana é um pouco...?
E dizendo isto, agitou em frente da testa a mão queimada e enrugada como uma folha de castanheiro.
- Imbecil! - respondeu a camponesa. - Não somos nós que devemos...
E assim foi Ana para casa dos Blaha. A maior parte das vezes ficava sozinha durante o dia inteiro. O
patrão estava no escritório e a senhora trabalhava em costura fora de casa; não tinham filhos.
Ana passava o tempo sentada na pequena cozinha sombria, uma das janelas da qual dava para o pátio, e esperava a chegada da caixa de música. Vinha todas as tardes, antes do pôr do sol. Inclinava-se então o mais que podia para fora da janela e, enquanto o vento lhe agitava os cabelos claros, dançava interiormente até à vertigem e até que as paredes altas e sujas parecessem balouçar-se uma em frente da outra. Quando a dominava o medo da solidão, percorria toda a casa, descia a escada sombria até ao saguão, onde um homem cantava, meio embriagado. Encontrava sempre no seu caminho crianças, que vagabundeavam durante horas sem fim no pátio, sem que os pais notassem a ausência de nenhuma delas, e, coisa estranha, os pequenos pediam-lhe sempre que lhes contasse histórias. Por vezes seguiam-na mesmo até à cozinha. Ana sentava-se então ao lado do forno, escondia o rosto pálido nas mãos e dizia:
«Reflectir». As crianças esperavam durante algum tempo. Mas quando Anuska continuava a reflectir e o silêncio na cozinha sombria as intimidava, as crianças fugiam, sem verem que a pobre rapariga se punha a chorar com lamentosa meiguice e que a saudade da terra a torturava. De que tinha ela saudades?
Ninguém poderia dize-lo. Talvez até das pancadas que lá lhe davam. A maior parte das vezes não sabia o que era que a fazia sofrer de saudades; talvez alguma coisa que um dia existira, a menos que tivesse sido apenas sonho. À força de reflectir sempre que tinha as crianças junto de si, foi-se, pouco a pouco, recordando. A princípio era vermelho, vermelho, depois aparecia uma grande multidão. Ouvia-se então o pesado som de um sino e, em seguida, surgiam um rei, um camponês e uma torre. «Meu senhor rei», disse o campónio... «Sim», respondeu o rei em voz altiva, «já sei». E, com efeito, como é que um rei poderia ignorar tudo aquilo que um camponês pode ter para lhe dizer?
Algum tempo depois, a patroa levou a rapariguinha a fazer compras. Como o Natal se aproximava e era à tardinha, as montras estavam já iluminadas e providas de uma porção de coisas. Numa loja de
brinquedos, Ana viu, de repente, aquilo que era objecto da sua recordação: o rei, o campônio e a torre.
Oh! E o coração bateu-lhe com mais força do que os seus passos no lajedo. Mas depressa desviou os olhos e, sem se deter, continuou a seguir a senhora Blaha. Dominava-a o sentimento de que não deveria revelar nada do seu segredo, e o teatro das bonecas ficou atrás delas, como se não o tivessem notado.
Com efeito, a senhora Blaha, não tendo filhos, nem sequer tinha feito reparo. Um pouco mais tarde, Ana teve o seu dia de saída. Não voltou à noite. Um homem, que encontrara à porta de um café, fez-lhe companhia, e não se lembrava com exatidão do lugar aonde ele a conduzira. Afigurava-se-lhe ter estado ausente durante um ano inteiro. E quando, fatigada, voltou, na segunda de manhã, para a pequena cozinha, esta pareceu-lhe ainda mais fria e mais sombria do que habitualmente. Nesse dia, partiu uma terrina, o que lhe valeu uma violenta descompostura. A patroa nem sequer notara a sua ausência durante uma noite inteira. Depois, pelo começo do ano, dormiu fora mais três noites. E, de repente, deixou de passear através da casa, fechou, receosamente, a janela e nunca mais apareceu, nem mesmo quando a caixa de música surgia.
Assim passou o Inverno, e uma pálida e tímida Primavera começou. É uma estação com um aspecto muito particular nos pátios interiores. As casas são negras e úmidas, mas a atmosfera aparece, ali, luminosa e comparável ao linho mais branco. As janelas, mal lavadas, lançam reflexos saltitantes e leves flocos de poeira dançam ao vento, descendo ao longo dos andares. Ouvem-se os ruídos da casa inteira, as caçarolas tilintam com um barulho muito diferente do habitual, com um som mais claro, mais agudo, e até as facas e as colheres têm som diferente. Nesse tempo, Anuska teve um filho. Foi para ela uma grande surpresa. Depois de se sentir, durante longas semanas, volumosa e pesada, aquilo escapou-se-lhe, uma bela manhã, de dentro, e surgiu neste mundo, vindo sabe Deus donde. Era domingo e toda a gente dormia ainda em casa. Olhou durante um instante a criança, sem o rosto se lhe alterar o mínimo que fosse. Mal se mexia! De repente, porém, uma vozinha aguda saiu do pequenino peito. No mesmo instante, a senhora Blaha chamou e as molas da cama estalaram no quarto de dormir. Anuska agarrou então no avental azul que estava em cima da cama, apertou as fitas em volta do pescocinho delgado e pôs aquilo, como um embrulho, no fundo da mala. Passou depois à cozinha, entreabriu as cortinas e começou a preparar o café. Num dos dias seguintes, Anuska deitou contas aos salários que até então recebera: eram quinze florins. Fechou depois a porta, abriu a mala e poisou o avental azul, com o que continha, em cima da mesa. Abriu-o, lentamente, olhou a criança, mediu-a dos pés à cabeça com a ajuda de um metro. Depois, pôs, de novo, tudo em ordem e foi à cidade. Que pena! O rei, o camponês e a torre eram muito mais pequenos. Trouxe-os, contudo, e, com eles, outras bonecas ainda, a saber: uma princesa com manchas vermelhas e redondas nas faces, um velhote com uma cruz ao peito e que se parecia com S. Nicolau por causa da barba comprida e mais duas ou três outras menos belas e imponentes. Além disso, um teatro cujo pano subia e descia, mostrando ou escondendo o jardim que formava o cenário.
Anuska tinha, finalmente, com que se ocupar durante as suas horas de solidão e de nostalgia. Instalou aquele magnífico teatro (custara doze florins) e colocou-se por detrás dele como convém. Mas, por vezes, quando o pano subia, corria pela frente do teatro, olhava para aquele jardim, e toda a cozinha, pardacenta, desaparecia, então, por detrás das grandes árvores magníficas. Depois recuava alguns passos, pegava em duas ou três bonecas e punha-as a falar. Não era uma verdadeira peça; as bonecas falavam e respondiam umas às outras; também, por vezes, acontecia que duas bonecas, como que aterrorizadas, se inclinavam, subitamente, uma diante da outra, ou faziam um cumprimento ao velhote que não podia curvar-se, por ser todo de madeira. Por isso, a emoção fazia-o em todos esses casos cair para trás. O boato dessa brincadeira correu entre as crianças, e, em breve, os pequenos da vizinhança, a princípio prudentes e depois cada vez mais atrevidos, apareceram na cozinha dos Blaha, de pé, pelos cantos, quando a noite começava a cair, sem perderem de vista as belas bonecas que repetiam sempre as mesmas coisas.
Um dia, Anuska, com as faces em fogo, disse:
- Tenho ainda uma muito maior!
As crianças tremiam de impaciência. Mas Anuska parecia esquecida do que acabara de dizer. Dispôs todas as personagens no jardim, apoiando contra o cenário as que não podiam ter-se em pé. Nesta ocasião apareceu uma espécie de Arlequim, de grande cara redonda, que as crianças não se lembravam de ter visto. A curiosidade ainda ficou mais excitada com todo aquele esplendor, e os pequenos suplicaram que lhes mostrasse a «maior de todas». Só uma vez, a «maior de todas»! Por um instante só, a «maior de todas»!
Anuska caminhou para a mala. A noite caía. As crianças e as bonecas estavam de pé, umas em frente das outras, silenciosas e quase iguais. Mas, dos grandes olhos abertos do Arlequim, que pareciam esperar qualquer espetáculo terrível, espalhou-se, de súbito, um tal pavor pelas crianças que soltando agudos gritos, fugiram sem excepção. Um grande objecto azulado se destacava nas mãos de Anuska, que, de repente, tinham começado a tremer. A cozinha, abandonada pelas crianças, ficara estranhamente vazia e silenciosa. Anuska não sentia medo. Riu docemente, derrubou o teatro com um pontapé, depois espezinhou as travessazinhas de madeira que tinham figurado o jardim, e, quando a cozinha ficou mergulhada na noite, andou à roda dela, a ofender o crânio a todas as bonecas, incluindo a azul, a maior.







RAINER M. RILKE

file:///C|/site/livros_gratis/anuska.htm (3 of 3) [17/10/2001 23:35:04]

ARTE: TOM COLBIE

Wednesday, August 08, 2012

Tout entière



Le Démon, dans ma chambre haute,
Ce matin est venu me voir,
Et, tâchant à me prendre en faute,
Me dit: "Je voudrais bien savoir,

"Parmi toutes les belles choses
Dont est fait son enchantement,
Parmi les objets noirs ou roses
Qui composent son corps charmant,

"Quel est le plus doux." -- Ô mon âme!
Tu répondis à l'Abhorré:
"Puisqu'en Elle tout est dictame,
Rien ne peut être préféré.

"Lorsque tout me ravit, j'ignore
Si quelque chose me séduit.
Elle éblouit comme l'Aurore
Et console comme la Nuit;

"Et l'harmonie est trop exquise,
Qui gouverne tout son beau corps,
Pour que l'impuissante analyse
En note les nombreux accords.

"O métamorphose mystique
De tous mes sens fondus en un!
Son haleine fait la musique,
Comme sa voix fait le parfum!"






Charles Baudelaire

Wednesday, July 18, 2012

A BELEZA



Eu sou bela, ó mortais! Como um sonho de pedra,
E meu seio, onde todos vêm buscar a dor,
É feito para ao poeta inspirar esse amor
Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.

No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada;
Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve;
Odeio o movimento e a linha que o descreve,
E nunca choro nem jamais sorrio a nada.

Os poetas, diante de meus gestos de eloquência,
Aos das estátuas mais altivas semelhantes,
Terminarão seus dias sob o pó da ciência;

Pois que disponho, para tais dóceis amantes,
De um puro espelho que idealiza a realidade:
O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!


Charles Baudelaire

Wednesday, July 11, 2012

AOS VÍCIOS



Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto que me inflama e que me inspira
Talia, que anjo é da minha guarda
Dês que Apolo mandou que me assistira.
Arda Baiona e todo o mundo arda
Que a quem de profissão falta à verdade
Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo excetua a cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liberdade.
A narração há de igualar ao caso
E se talvez acaso o não iguala
Não tenho por poeta o que é Pegaso.
De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente.




Gregório de Matos

Seleção de Obras Poéticas, Gregório de Matos
Texto proveniente de: Projecto Vercial - Literatura Portuguesa http://www.ipn.pt/opsis/litera/


Sunday, July 08, 2012

SUSANA BOMBAL









No alto da tarde, altiva e elogiada
Cruza o jardim casto & está na exata
Luz do instante irreversível e puro
Que nos dá este jardim e a alta imagem
Silenciosa. Eu a vejo aqui & agora
Mas também a vejo no antigo
Crepúsculo de Ur dos Caldeus
ou descendo as escadas lentas
de um templo, que é a poeira inumerável
do planeta e que foi pedra e soberba,
ou a decifrar o mágico alfabeto
das estrelas de outras latitudes
ou a cheirar uma rosa na Inglaterra.
Está onde está a música no leve
azul, no hexâmetro grego,
na solidão nossa que procuram,
no espelho d’água da fonte
no mármore do tempo, numa espada,
na serenidade de um terraço
que divisa ocasos e jardins.
E por trás dos mitos e máscaras,
a alma que está sozinha.








Jorge Luis Borges
[Trad.: Marcello Chalvinski]





Susana Bombal


Alta en la tarde, altiva y alabada,
cruza el casto jardín y está en la exacta
luz del instante irreversible y puro
que nos da este jardín y la alta imagen
silenciosa. La veo aquí y ahora,
pero también la veo en un antiguo
crepúsculo de Ur de los Caldeos
o descendiendo por las lentas gradas
de un templo, que es innumerable polvo
del planeta y que fue piedra y soberbia,
o descifrando el mágico alfabeto
de las estrellas de otras latitudes
o aspirando una rosa en Inglaterra.
Está donde haya música, en el leve
azul, en el hexámetro del griego,
en nuestras soledades que la buscan,
en el espejo de agua de la fuente,
en el mármol de tiempo, en una espada,
en la serenidad de una terraza
que divisa ponientes y jardines.
Y detrás de los mitos y las máscaras,
el alma, que está sola.



Jorge Luis Borges


Thursday, July 05, 2012

A RESPOSTA DA TERRA





A terra ergueu sua cabeça
Da escuridão medonha e triste
Sua luz se dispersa,
Terror de pedra
E suas tranças são cobertas
por um desespero cinzento


"Presa junto à úmida costa,
Ciúmes estrelados guardam meu covil:
Fria e velha,
Chorando,
Escuto o Pai dos Antigos H
omens .


“Ó Egoísta Pai de Homens!

Ó temor cruel, ciumento e egoísta!

Pode o gozo,
Acorrentado na noite,
Dar à luz as virgens da juventude e da aurora?



“A primavera esconde sua alegria
Quando os casulos e as flores crescem?
O semeador
Semeia pela noite,
Ou o lavrador lavra na escuridão?



“Rompe esta corrente fatal
Que rodeia de gelo meus ossos
Egoísta! Inútil!
Eterna praga!
Que ao Amor Livre acorrenta com limites."





William Blake

[Trad. M.Chalvinski]

Thursday, June 28, 2012

O APÓSTOLO



Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e
clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres.
Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá
para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de
champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as
jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as
palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto
ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina.
Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas,
enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a
mesa multicor.
Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um
desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens
deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não
era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e
apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do
século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente
eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e
poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava
como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse.
Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em
segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé,
interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia
explicar-se aquela presença.
A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos
conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido.
Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos
traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na
toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus
anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora
doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não
tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e
levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O
desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a
baronesa Vilovsky não abandonava a partida.
- Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu
vizinho.
E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos
uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em
favor das vítimas desse incêndio.
Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a
proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa
sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava.
- Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não
admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes:
- Sim, de acordo! Naturalmente!
O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto
eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de
notas do banco.
- Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A
sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num
tom brutal, disse:
- Não!
A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no
estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu:
- A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando
através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que
o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos
castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da
mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado
cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a
destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta.
A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A
baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me
compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos
quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade
pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o
amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com
volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência.
Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho
como se sentisse faltar-lhe o fôlego.
- A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre
os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da
indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma!
Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote.
- Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como
aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos
instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador
quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e
as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o
brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E
foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual
incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo
que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo!
Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexerse
e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de
prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade,
rompiam o abafado silêncio.
- E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a
essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que
tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos
doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que
caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos
próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os
nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as
suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus
dias.
Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou:
- Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num
enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos
são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para
proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um
fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com
firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já
flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho?
Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a
tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo,
prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem
aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os
preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma?
Elevou-se um murmúrio.
- Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado
fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrarvos
eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no
regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso
que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir
apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos
entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como
uma grande chama livre e jubilosa!
Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu:
- E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos
por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor
do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar
todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa
múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que
odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar
sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso
vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide
infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não
estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais.
Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela
vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de
constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz?
«Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda
de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de
vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o
destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados,
miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso
avançar. Para a frente!
«Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós
também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou
forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras
cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos,
os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada.
Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os
seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os
corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...»
Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza
sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus.
O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois
regressando, subitamente, à realidade concluiu:
- Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Voume
através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio!
Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o
lenço contra as pálpebras.
Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio.
Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados,
trémulos ainda, retomaram o serviço.
O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso
da palavra.
Disse entre dentes: - Era um louco ou...
Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia
um pedaço de empadão de lagosta.




Rainer Maria Rilke

Tuesday, June 26, 2012

O FÓSFORO




Acendendo um fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.



O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.




O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.




O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."


Murilo Mendes 

A MÃE DO PRIMEIRO FILHO





Carmem fica matutando
no seu corpo já passado. 

— Até à volta, meu seio
De mil novecentos e doze.
Adeus, minha perna linda
De mil novecentos e quinze. 
Quando eu estava no colégio
Meu corpo era bem diferente.
Quando acabei o namoro
Meu corpo era bem diferente.
Quando um dia me casei
Meu corpo era bem diferente.
Nunca mais eu hei de ver
Meus quadris do ano passado...

A tarde já madurou
E Carmem fica pensando.





Poema: Murilo Mendes
Arte: TomColbie

Monday, June 25, 2012

ÍNCUBO



na cama

à minha frente
preparas o beijo
inconsciente

silencioso
alegro teu sono
inoculando orgasmos
em teu corpo


mas
depois do gozo
deixo-te convulsa
em pesadelos
&
mesmo assim
teu marido
dormindo ao lado
nada percebe



Marcello Chalvinski (Anjo na Fauna, 1999)

A DAMA MELANCÓLICA



ela fica lá em cima
bebendo vinho
enquanto o marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas revistinhas
teve dois ou
três de seus finos
volumes de poemas
mimeografados
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a mulher bonita que
costumava ser.
ela envia
fotos de si mesma
sentada sobre uma rocha
junto ao oceano
sozinha e condenada.
Eu poderia ter tido
ela uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia tê-la
salvado?
em todos os seus poemas
Seu marido
nunca é mencionado.
mas ela costuma
falar sobre seu
jardim
por isso sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os passarinhos
antes de escrever
seus poemas.



CHARLES BUKOWSKI
[Tradução: Marcello Chalvinski]

Tuesday, June 19, 2012

PROVÉRBIOS DO INFERNO





O matrimônio do Céu e do Inferno:




No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta. 
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! ou Basta.




William Blake

Friday, June 15, 2012

MANIFESTO PAU-BRASIL




A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.

A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

Uma sugestão de Blaise Cendrars : – Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.

Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.

Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.

Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.

A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.

Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.

Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 10) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 20) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.

O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.

Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.


A síntese


O equilíbrio


O acabamento de carrosserie


A invenção


A surpresa


Uma nova perspectiva


Uma nova escala.


Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil

O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – peloequilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pelasurpresa.

Uma nova perspectiva.

A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.

Uma nova escala:

A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.

A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.

Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.

Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.

A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.

Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações.

Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.

Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.

O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.

Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.

O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.

A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.




OSWALD DE ANDRADE
(Correio da Manhã,18 de março de 1924.)



Wednesday, June 13, 2012

GAROTAS CALMAS E LIMPAS EM VESTIDOS DE ALGODÃO





tudo o que eu sempre conheci sempre foram putas,
ex-prostitutas, loucas.

vejo homens com mulheres calmas e
gentis - vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos:

pessoas em paz, vivendo juntas.
sei que essa paz
é apenas parcial, mas existe paz, muitas horas e dias de paz.

tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.

quando uma vai
outra vem
pior do que a antecessora.

vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.

"nunca traga uma puta junto com você," eu digo para meus
poucos amigos, "eu me apaixonarei por ela."

"você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski."

preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.

eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?





Charles Bukowski

Monday, June 11, 2012

DA GENTILEZA NO JARDIM DOS QUERERES



Vem o dedilhar apenas das pequenas pétalas
honrarias do tempo em cultivar amarelos
no que poderiam antever e descolorir gentilezas
por acalentar indevidos amanheceres

passeio descompassado só dos dedos
o que ao debruçar em parapeitos ao redor
os meninos da tarde só avistariam
a figura esguia, a bengala, a boina.

mas a investigação continuava
ele e as pétalas
quantas eram no bouquet?
quinhentas, seiscentas?

calculava rápido
enquanto separava os ramos
e ordenava os seixos úmidos
em diagramas poligonais
surgidos
expostos
capturados...

o amarelo tinha a imperfeição dos domínios
brotava e explodia em cada incursão
daquelas mãos ossudas e firmes
ganhava cetro, o reino, a hegemonia diante de begônias e gerânios
o amarelo tinha a superação das culpas.

os meninos da tarde avançavam pescoços ansiosos ao limite do parapeito
não conseguiam ouvir além do farfalhar das folhas mortas em pequenos redemoinhos
não conseguiam capturar além dos esparsos ruídos
seria um prece?
um discurso?

mas o que se viu
foi do dedilhar das pequenas pétalas
surgir a nuvem de notas desconstruídas
descompassadas
a música a rondar acima dos tempos
o tempo de ouro e de madeira
de pérolas finas
de corpos gris a bailar em Bahia, em Luanda
o tempo da figura esguia, da bengala, da boina
e a névoa tomou conta da moldura
no ambíguo dominante
de um amarelo absuluto
de adeus e de encantos.




Antonio Pastori


http://becodepas.blogspot.com.br/

Friday, June 08, 2012

ABOUT PAIN






SOBRE DOR



minha primeira e única esposa
fez uma pintura
e falou para mim
sobre ela:
"É tudo tão doloroso
para mim, cada pincelada é
dor...
um erro e
todo o quadro é
arruinado...
você nunca vai entender a
dor ... "

"olha, querida," eu
disse, "por que você não faz algo fácil
algo que você gostaria de
fazer?

"ela apenas olhou para mim
e eu acho que foi a sua
primeira compreensão da
tragédia de ficarmos
juntos.

tais coisas normalmente
começam
em algum lugar.





CHARLES BUKOWSKI

Tuesday, June 05, 2012

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA




Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman,
enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens,
entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com
tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras!
Famílias inteiras fazendo suas compras a noite!
Corredores cheios de maridos! 
Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! 
– e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias ? 


Eu o vi WW, s/ filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as
costeletas de porco? Qual o preço das bananas?
Será você meu Anjo ?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o
e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso
passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos pe-
tiscos gelados e nunca passando pelo caixa.

Aonde vamos, WW ? As portas fecharão em uma
hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite ?

(Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo.)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas?

As árvores somam sombras às sombras,
luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor,
passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando
para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte
parou de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta,
olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?



Allen Ginsberg 

Tradução de Cláudio Willer

EX/PLICAÇÃO




não há um
sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída





Haroldo de Campos

AMOR EM PAZ



Eu amei
Eu amei, ai de mim, muito mais
Do que devia amar
E chorei
Ao sentir que iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
Encontrei em você a razão de viver
E de amar em paz
E não sofrer mais
Nunca mais
Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz




Vinicius de Morais

CORPUS PRIAPOREUM



Perguntas por que as partes obscenas não resguardo?

Pergunta então se há deuses que escondam o seu dardo!

O rei do mundo o raio sustém abertamente,

e o deus do mar não leva coberto o seu tridente;

nem Marte esconde a espada que o enche de coragem,

nem Palas guarda a lança na tépida roupagem.

Levar douradas flechas, a Febo envergonhava?

Tem Diana por costume tapar a própria aljava?

Oculta leva Alcides nodosa clava agreste?

O deus alado esconde a vara sob a veste?

Quem viu ocultar a Baco o tirso delicado

na roupa ou a Cupido com rosto disfarçado?

Então, não seja crime que a pica possas ver-me:

se me faltar tal lança, hei-de ficar inerme.

__________________________________________________________



Cur obscena mihi pars sit sine veste, requirens?

quaere, tegat nullus cur sua tela deus.

fulmen habet mundi dominus, tenet illud aperte;

nec datur aequoreo fuscina tecta deo.

nec Mavors illum, per quem valet, occulit ensem,

nec latet in tepido Palladis hasta sinu.

num pudet auratas Phoebum portare sagittas?

clamne solet pharetram ferre Diana suam?

num tegit Alcides nodosae robora clavae?

sub tunica virgam num deus ales habet?

quis Bacchum gracili vestem praetendere thyrso,

quis te celata cum face vidit, Amor?

nec mihi sit crimen, quod mentula semper aperta est:

hoc mihi si telum desit, inermis ero.
________________________________________
[ TRAD.: CARLOS DE MIGUEL MORA]

Sunday, June 03, 2012

VAGABUNDO




Eat, drink and love; what can the rest avail us!
BYRON




Eu durmo e vivo no sol como um cigano,



Fumando meu cigarro vaporoso,
Nas noites de verão namoro estrela;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!


Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.


Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.


Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...


Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..


Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.


O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.


Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.


Sinto-me um coração de lazzaroni;


Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos.
Rezo à Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa. 





Álvares de Azevedo

Tira-gosto