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Monday, April 16, 2018

A EDUCAÇÃO PELA CHUVA





para aprender com a chuva
em sua didática translúcida
de agulhas
é preciso fixar os olhos
transfixar as alturas

chuva ensina
liquidez vertical em si
ilogismos em sol
iluminuras

iluminura-se
(lições de chuva)
convectiva
ácida
orográfica
pura

habilita à rigidez dos telhados
antologias de sedução
umidade
energia
estratégia
textura
estratagemas de nuvens
enciclopédicas loucuras
&
segredos
de oxidação
sabe a chuva
hidrostática
canivetes
limpidez & fundura

de saber-se rala
sabe também
o fazer-se impura
queda & ascensão
hastes & pétalas
moedas
lixiviação

sabe a chuva
malícia & espelhos d´água
sabe furacão

tem a faculdade inacessível do dilúvio
& a universidade aberta da paixão
leciona pluviometria
oxigênio
delícias
hidrogênio
lasciva precipitação

para aprender com a chuva
em sua constante mutação
é preciso conhecer
seu estar para acupuntura
sua transparente aventura
& deixar-se levar
(sem amargura)
pelos vendavais do coração





Marcello Chalvinski (Temporal - 2005)



Foto: Images do Google

Tuesday, April 10, 2018

HEBDÔMADA VERTICAL





estou com você caindo do céu 
entre lagartos & gritos 


para que não fiques aflita 
ordeno a ditongos & canivetes 
que preparem ramalhetes 
de proparoxítonas 


duendes & magos 
na ortodoxa ortoépia dos mitos 
ao meu sinal ábdito 
recitam versos-delitos 


estou com você caindo do céu 
entre lagartos & gritos 


o escuro assombroso 
da nuvem abaixo 
cobre a fantasmagórica 
luz da cidade nobre 


as casas pobres dos operários
tombam sobre os jardins ósseos 
na escuridão triste 
das lâmpadas despedaçadas 


mas 

cala tua mágoa 
a enxurrada posta de pé pelo vento 
reduz a distância até os girassóis 

vamos velozes por entre os raios 
que se engastam 
à trombeta dos trovões 


lá embaixo 
há suaves flores tóxicas 
há macios espelhos d´água 
há telefones & capim-limão 


somos o que vai entre a chuva 
perfurando a ventania 
em bilhões de orifícios diagonais 


atravessaremos juntos
as vidraças do temporal 
& solveremos o asfalto das recorrências 

infiltrando múltiplas 
& sutis incoerências 


penetraremos os esgotos 
& rasgaremos ávidos 
os frios lençóis freáticos 


desaguaremos no oceano 
meu amor enigmático 
& voltaremos como milhões 
para este ar de terror & maravilhas 


estou com você caindo do céu 
entre lagartos & gritos










Marcello Chalvinski - Temporal - Brancaleone Ed. 2005

Wednesday, February 28, 2018

ALVIM: QUE TAL ESSA?










Que tal essa?: "Marcello Chalvinski
é o último grande poeta underground da literatura ."




Neste momento histórico em que ouvimos tanto falar de um Papa "pop", Marcello Chalvinski abre seu novo escrito citando o livro bíblico não-apócrifo "Gênesis 7:19". Pura coincidência.

Para os mais cristãos (católicos apostólicos romanos) poucos escritos na literatura maranhensesão tão recheados de relações humanas cheias de vícios e pecados quanto os seus, embora neste livro esteja mais comportado que no anterior.

A poesia que abre O Temporal nos faz lembrar de João Cabral de Mello Neto, ou melhor, inspira-se no poema "Lições da Pedra" do autor pernambucano. Encontramos neste livro pérolas como

                 "Cerquei com palavras
                 (atrevido)
                 um pedaço da tempestade
                 na verdade
                 de um tamanho sofrido"

No entanto, a cosmogonia poética de Marcello Chalvinski gravita em torno do "moderno" (...atravessou o mar de Kara/&/ era pacífico/índico/ blues...) tateando o almejado "eterno" (...o perfume da rosa-dos-ventos/libertando-se de todos os mapas...).

E já que estamos falando de lições, não esqueçamos o lecionado pelo "poeta maior":
                  
                  "Cansei de ser moderno
                  Quero é ser eterno."

  
                                   São Luís-Ma, 11 de maio de 2005.      

                                             Antônio Carlos Alvim




Texto: Antônio Carlos Alvim
Arte: Banksy


Wednesday, November 22, 2017

ÚLTIMA PÉTALA





úmida
saudade cáustica
abriu translúcida
vertiginosa túnica
de cristal gelo

última pétala
da paixão infinda
urdida de fiar-se única
fiou no inverno
os cabelos 
ainda
engendrou-se
lótus pútrida
no escuro lamaçal
do impuro  desespero

dragão de lágrimas
papoulas
frieza pétrea que voa
deixa que eu fuja
de teu esperto riso
com minhas asas
de absinto & desmantelo

ferida íntima
de tristeza estúpida
cicatriza
ao álcool farto
que eu bebo à-toa

detém teu furor incerto
teu flagelo
na boca
de teu incerto riso

teu céu arrizo
oculta
falsas lantejoulas
&
sólido granizo

águia de cosméticos
cifrões
foge à minha flecha
de veneno
brio

 que te espera
guilhotina insana
do esquecimento
com todas as lâminas
para teu espírito de hydra

é o teu
&
não o meu sangue
que vazará

da clepsidra




MARCELLO CHALVINSKI
[TEMPORAL- BRANCALEONE - 2005]

Thursday, November 24, 2011

Primeira Canção Torrencial





chove sobre a terra crua
esta chuva bruta
de aspereza nua
chove entortando lírios
chove coalhando telhados
chove enferrujando trilhos

vê:

chove sobre o riso
esta chuva impura
chove sobre o pranto
(outra chuva dura)
chove a todo instante
essa que é vil & perfurante

chove nos faróis congelados
chove nos corações atropelados
chove no asfalto escaldante

chove sobre os carros
chove sobre a face
chove sobre o barro
chove sobre a grama
(como se não bastasse)
essa que desama
essa que chove
a fazer lama

chove nos alagados
chove torturante
chove pelos prados
chuva espessa
que espeta hastes
por todos os lados

chove desmantelo
chove transparente
chove lancinante

chove

chuva caudalosa & larval
chove vida
chove carnaval

ou
apenas chove
sem
bem
nem
mal

em si
a chuva
chove

em si
a chuva
se basta









Poema: Marcello Chalvinski,
Arte: Tom Colbie

Saturday, February 26, 2011

VERTIGEM FIXA







prisioneiro de um ar
feito de vidro
sonhei o mar
esquecido
a retorcer engrenagens
esquecidas
na maquinaria
convectiva da chuva

cerquei com palavras
(atrevido)
um pedaço da tempestade
na verdade
de um tamanho sofrido

milhões de relógios anidros
na contingência das vogais
oxidavam pardais
semi-breves & ais
na pauta de mais
um cântico chovido

por um instante
(sentido)
deu pra ver bipartido
o coração do relâmpago
parafusado às consoantes







Poema: Marcello Chalvinski - Temporal - 2005
Arte: Tom Colbie

Tira-gosto