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Monday, May 29, 2017

A NOITE NUNCA ESQUECE








No meio de uma noite que ardia,
teu olhar encontrou o meu
& todo o som que então havia
naquele exato momento desapareceu.
Em torno de nós, a Terra ficou vazia
O próprio relógio do tempo  parou
mas ainda era só o começo do show.

Só depois, quando você me beijou,
foi que o mundo novamente girou.
Mas, então eu queria que ele parasse.
Desejava que a noite nunca acabasse.
Afinal, por que precisava ser assim,
tudo que é bom tem que ter um fim?

Quando você me deixou na manhã fria,
desci do teu carro, acendi meu cigarro
& sorri, pensando, enquanto você partia:
amanhã certamente vai haver outro dia.

Hoje, no calor deste luar que anestesia
sei que a noite à paixão jamais esquece
& em meu coração também não te esqueço.
Foi uma noite linda & única, ao que parece.
Mas, por mim, poderia ser só um bom começo.







POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Friday, December 20, 2013

A PANTERA



DER PANTHER
Rainer Maria Rilke

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.
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A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)



(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.
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A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

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A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. José Paulo Paes)


(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.





Artwork Tom Colbie

Monday, November 12, 2012

O MAU SAMARITANO






Quantas vezes tenho passado perto de um doente, 

Perto de um louco, de um triste, de um miserável, 

Sem lhes dar uma palavra de consolo. 

Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros, 

Que outros precisam de mim que preciso de Deus 

Quantas criaturas terão esperado de mim 

Apenas um olhar – que eu recusei.






MURILO MENDES
In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.

Tuesday, January 24, 2012

Exercícios ao Piano





O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que a faz doente.



Rainer Maria Rilke
[Trad: Augusto de Campos]

Tira-gosto