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Thursday, May 17, 2018

O DESCONVIDADO DE PEDRA



Don Juan:
Aparta, piedra fingida!
Suelta, suéltame esa mano,
Que aún queda el último grano
Em el reloj de mi vida.

(José Zorrilla y Moral - Don Juan Tenório)



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silêncio!
é o silêncio que aqui fala
sua palavra de pedra dura

silêncio falado
para calar no fundo
bem além de onde sonha
nossa vã agrimensura

silêncio, gema preciosa da amargura

silêncio amargo em sua própria estrutura
calçado no âmago de sua própria ideia
calcado no íntimo de humana figura

silêncio cuja massa pesa
pendente nessa linha obscura
entre o verbo existir
& a inexistência da carnadura

mas
a este jardim versificado
eu, o silêncio, não fui convidado

coração de pedra
tanto bate até que fura



MC - Don Juan & o Jardim das Maravilhas - 2013
Arte: Imagens do Google





Monday, May 29, 2017

A NOITE NUNCA ESQUECE








No meio de uma noite que ardia,
teu olhar encontrou o meu
& todo o som que então havia
naquele exato momento desapareceu.
Em torno de nós, a Terra ficou vazia
O próprio relógio do tempo  parou
mas ainda era só o começo do show.

Só depois, quando você me beijou,
foi que o mundo novamente girou.
Mas, então eu queria que ele parasse.
Desejava que a noite nunca acabasse.
Afinal, por que precisava ser assim,
tudo que é bom tem que ter um fim?

Quando você me deixou na manhã fria,
desci do teu carro, acendi meu cigarro
& sorri, pensando, enquanto você partia:
amanhã certamente vai haver outro dia.

Hoje, no calor deste luar que anestesia
sei que a noite à paixão jamais esquece
& em meu coração também não te esqueço.
Foi uma noite linda & única, ao que parece.
Mas, por mim, poderia ser só um bom começo.







POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

Monday, July 04, 2011

MARINA TSVETAEVA






A CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.



(Trad. Augusto de Campos)


À VIDA


Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.


(Trad. Haroldo de Campos)


À VIDA


Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe



(Trad. Augusto de Campos)


Silêncio, palmas!
Cessa o teu apelo,
Sucesso!
              Um só palmo:
Mesa e cotovelo.
Cala-te, festa!
Cotação, contém-te!
Cotovelo e testa.
Cotovelo e monte.
Juventude - rir.
Velhice - aquecer.
Que tempo pra ser?
Para onde ir?
Mesmo num tugúrio,
Sem uma pessoa:
Torneira - murmúrio,
Cadeira - ressoa,
Boca recomenda
- Mole caramelo -
Mais uma comenda
"Pelo amor do Belo".
Se vocês soubessem,
Longe ou perto, gente,
Como esta cabeça
Me deixa doente -

Deus numa quadrilha!
A estepe é vala,
Paraíso - ilha
Onde não se fala.
Macho - animal,
Dono - vender!
A Deus é igual
O que me der
(Venham de vez
Dias a juros!)
Pata a mudez -
Quatro muros.


(Trad. Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)


NEREIDA


Nereida! Onda!
Ela. Eu. Nós dois.
Nada além de
Onda ou náiade.
Teu nome, tumba,
Reconheço, onde for,
Na fé - o altar, no altar - a cruz.
O terceiro, no amor.

(Trad. Augusto de Campos)



Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
         Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.


(Trad. Augusto de Campos)

Tira-gosto