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Monday, February 05, 2018

A luz é como a água




"(...) mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das
camas e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos
tinham-se perdido na escuridão."




No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.
— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada - disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.
— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.
— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não - disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.
No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.

Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.
Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiroflutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.



Gabriel Garcia Marques

Monday, November 07, 2011

SOB O SIGNO DE AURÉLIO







“Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...”


João da Cruz e Sousa







O bairro onde Aurélio Francisco morava era de lascar. Havia de tudo entre o armazém bananeiro e os cabarés: tráfico, jogatina, terreiros de umbanda, igrejas evangélicas e Deus sabe mais o quê. Não bastasse lixo e esgoto a céu aberto, novas e enormes crateras se formavam a cada dia, estrangulando o tráfego e aumentando o caos na altura da Rua dos Turcos. Reclamar ninguém podia. Eram tempos de ditadura.
Homem simples, Aurélio ganhava a vida como eletricista de uma companhia privada e somava ao salário os rendimentos da sorveteria Azul Anil – um pequeno negócio que mantinha na parte da frente da casa, com a ajuda da mulher, Catarina. Moça meiga e muito bela, “Catinha” preparava os sorvetes, atendia com presteza os poucos fregueses e ainda dava conta dos trabalhos domésticos. Parecia viver a lírica alienação da vida na periferia, com suas rotinas inquebrantáveis e a inexorável companhia das músicas sertanejas.
Aurélio definia-se como homem reto. “Di casa pru selviçu, do selviçu pra casa”, gostava de dizer com seu jeito capiau. Pouco dado a farras e à companhia de amigos, não saía nem mesmo nos fins de semana. Quando muito, convidava uns parentes pra comer um bode ou mesmo um pato, sob as árvores do seu imenso terreno. Era colocar as caixas acúisticas na varanda e pronto. A casa era seu maior orgulho – herança do pai, o velho Aurélio Chicó. O grande prazer de Aurélio era gabar-se da imponência de sua morada, ainda que invariavelmente acabasse por se aborrecer com os comentários de Catinha,sobre a péssima conservação do imóvel.
O casal respirava uma atmosfera de razoável harmonia, mas o fato de não terem filhos causava incômodo ao sacerdote e dava assunto para os vizinhos mais afeitos a comentar experiências alheias. Todavia, Aurélio e Catinha não se perturbavam. Quando o assunto lhes chegava aos ouvidos, ela erguia as mãos para o céu e dizia que tudo dependia da vontade de Deus, renegando veementemente o fato de que fazia uso de contraceptivos. Aurélio, por seu turno, gostava de dizer: “O negócio é ardquiri patrimonho. Dispois a gente vê...” e logo mudava de assunto.
Numa segunda-feira cinzenta, porém, Aurélio pôs-se de pé mais cedo que o costume. Ligou a vitrola e, pela primeira vez na vida, sentiu o real desejo de ser pai. Indiferente à umidade e aos insetos, passeou lentamente sob a copa das árvores embalado por ensurdesedores decibéis de música brega. Parou subitamente ao fitar um rasgo de céu e, movido do que seria uma profética visão, idealizou o herdeiro: “Sementi forti. Um varão di dá inveja. Homi séro, corajoso, galanti e dominadô. Fio legítimo di gente lutadora e di respeito. Vai ser um cabra vencedô”.
Aurélio estava de fato decidido a engravidar a mulher. Fazendo pequenas contas de cabeça, planejou economizar o necessário para a chegada do primogênito. Já pensava até onde matricularia o menino, quando Catinha – surpresa ao vê-lo divagando àquela hora –, tratou de chamá-lo para o café. Atendendo a seus apelos saturados de meiguice, Aurélio não se fez de rogado. Nutriu-se de café e beiju e partiu para a labuta. Cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas, esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro e seguiu para o ponto do ônibus, sem parar de pensar na melhor forma de contar a “sua decisão” para Catinha.
Após toda a manhã de um trabalho cansativo e irritante, Aurélio sentou-se com outros operários de marmitas à mão. Nem bem iniciou o almoço e o encarregado lhe comunicou que deveria comparecer ao departamento de pessoal. Estava demitido. Colérico, não terminou a refeição, nem quis se despedir dos colegas. Comprimiu-se no velho ônibus sucateado, perfeitamente resolvido a “tomá uns trago pra isfriá a muleira”.
No botequim do “Seu Irmão”, perguntado sobre o que fazia àquela hora “zangado e ainda por cima bebendo”, Aurélio acabou contando seu drama de desempregado. Bartô – o velho carroceiro que o inquirira –, bateu o copo no balcão e comentou com todas as farpas da ironia: “É, meu cumpadi. O negócio não tá bom pro teu lado não. Mais essa agora, hein? Se eu fosse ocê, abria dos óio e mandava batê um belo dum tambô, que é pra quebrá as urucubaca, tá me ouvindo? ”
Aurélio fez pouco caso da conversa puxada por Bartô, mas decidiu que era hora de ir para casa. Pagou a conta e saiu apressado, com a boca recendendo a cachaça e a cabeça a esquentar-lhe as preocupações. A recessão que convulsionava o país arrastava famílias inteiras à miséria. Vitimado pelo desemprego em época tão hostil, via que o sonho do herdeiro iria escorrer como água entre seus dedos. Eram quase três da tarde e o mesmo calor que afastava as pessoas da rua ajudava a compor a inquietude que lhe torturava. Trocou passos aflitos, esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro e passou pelos cabarés adormecidos. Teve um sobressalto ao se deparar com uns garotos que saíam correndo de sua casa, mas julgou que houvessem invadido à cata de mangas e relaxou.
Achou estranho o fato da sorveteria ainda estar fechada. Atravessou o jardim e seguiu apreensivo quintal adentro imaginando encontrar a mulher em alguma tarefa inesperada e urgente. Afinal, não havia desculpas para tamanho descuido. Driblando os pilares da caixa d’água ao som de uma melodramática música brega, Aurélio rumou para a lavanderia, que ficava ao fundo. Apesar do alto volume da música, pode distinguir uns gemidos abafados e o medo de que algo terrível estivesse acontecendo amargou-lhe a boca.
Esgueirou-se pelo poço observando atentamente. Súbito, o espanto branqueou-lhe a face. Por entre a folhagem, viu o rosto crispado da mulher, com a boca tapada por uma peça de roupa e fortemente comprimido sobre o tanque. Correu até ela aflito e tomou um susto ainda maior ao perceber o que de fato acontecia. Sua amada Catinha, a mulher que lhe daria o filho de seus sonhos, estava sendo violentamente sodomizada pelo quitandeiro Zé Dionísio. Possesso, Aurélio olhou para os lados e, encontrando uma estaca, partiu para cima de Zé Dionísio gritando alucinado.
– Feladaapuuuta!
Zé Dionísio, crioulo forte e sestroso, soube livrar-se dos ataques de Aurélio e na primeira oportunidade sacou do revólver e atirou sem hesitar. Catinha, destapando a boca, atirou-se em desespero sobre o peito ensangüentado do marido. Aurélio estava tomado de silêncio. Não sentia dor alguma. Não ouvia nem música, nem som algum. A histeria da mulher que se descabelava sobre seu peito não lhe inspirava qualquer sentimento. Tudo que havia para ele era a dança muda que o sol ensaiava nas folhas da mangueira. Depois veio o frio e, ao fim, a escuridão.
A vizinhança adentrou a casa tão rapidamente após os disparos, que boa parte dos intrometidos ainda assistiu a fuga de Zé Dionísio. Após um momento de estupefação, Dona Otília vestiu a mulher e o turco Farad tratou de levar o ferido para o pronto-socorro.
Muitos dias depois, sem que Catinha deixasse a casa para saber do marido ou para o que quer que fosse, Aurélio surgiu. Ombro enfaixado, braço na tipóia e entupido de remédios, retornava à casa envolto em silêncio. Apesar da gravidade do ferimento, havia se recuperado de forma excepcional. Trocou passos envergonhados, cuidou de não esbarrar nos homens do armazém bananeiro, cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas e seguiu de olhos baixos sob os olhares maliciosos dos vizinhos. Logo que entrou em casa tratou de insultar a mulher. Vendo que ela não dizia palavra, irou-se ainda mais. Pegou o grosso cinturão de couro que usava no trabalho e bateu até vê-la coberta de hematomas. Chorando copiosamente, Catinha implorou para que ele ouvisse as suas palavras. Suado, ofegante e com o braço extenuado de tanto bater, Aurélio sentou-se para ouvi-la.
– Olha, eu sei que num é fácil pra ocê, mas ocê tem que deixar eu falar. Se eu num falar vai ser bem pior e dispois...
– Fala logo, qui já ta mi esquentando a muleira...
– Ta bom. Olha, olha... ocê sabe... eu tenho aquela minha irmã doente e... bom... ela tá pra morrer e os médico mandaram ela pra casa... ela num tem mais muito tempo e então eu queria que ao menos uma vez na vida ela tivesse um pouco de vida boa, de poder comer coisa boa e...
– Desembucha logo. Onde é que tu qué chegá?
– Calma, calma. Olha... eu comprei muita coisa pra minha irmã. Muita coisa mesmo, que eu mandei pra ela e...
– Fala logo disgranhenta!
– É que eu comprei tudo fiado no Zé Dionísio e num pude pagá. Se eu num desse pra ele, ele ia te conta tudo aí...
– Disgramada dos inferno, tu tem o quê nessa cabeça de merda? Puta de merda, égua filha-duma-puta, porra dum cacete...
Aurélio esbravejou, humilhou e agrediu a mulher por cerca de meia hora. Depois, ameaçando-a com uma faca, fez com que ela se despisse e expulsou-a de casa. Catinha correu para fora dos limites do bairro, histérica e nua, desaparecendo sem deixar qualquer indicação de seu destino. Para a vizinhança foi o prato do dia. As comadres lideradas por Dona Otília juntaram-se sob a sombra de uma mangueira e se persignaram repetidas vezes, entre comentários temperados de ácida hipocrisia. Alguns dos homens do lugar se aproximaram do conturbado Aurélio, quase na mesma hora. O velho João da Lapa foi quem falou, cumprimentando-o com a língua pesada e o hálito saturado de cáries:
– É isso aí Auréi. A rente tá do teu lado. Ocê fez o que quarqué um faria. Tomou uma atitude de macho. Se tu num faz isso, aí é que era pra ti... Corno consciente é o pior que tem. Tu pelo meno serrou o teu...
As palavras de João da Lapa assombraram a mente de Aurélio durante os três meses em que se manteve isolado no interior de sua velha casa. Só se sabia que ele estava vivo, por conta de sua inquebrantável rotina de ouvir músicas sertanejas. Quando as chuvas começaram, o deslustrado Aurélio recebeu a visita de alguns parentes. Queriam que ele reativasse a sorveteria, que voltasse a trabalhar, essas coisas. Tudo em vão. Afundado em sua insuportável vergonha, Aurélio gastava os dias a beber e lastimar sua desgraçada “sorte de corno”.
Já pelo fim do período chuvoso, invadiu o bairro uma incontrolável nuvem de moscas. A praga foi tão grande que as igrejas e os terreiros não puderam realizar cultos por quatro dias. Os barbeiros eram obrigados a revisar várias vezes as barbas dos fregueses, pois mal tiravam a navalha, as moscas assentavam com velocidade vertiginosa. Os animais, em especial os cães e burros, pareciam negros devido ao moscaréu que os cobria. Comer sem engolir alguns insetos era tarefa impossível e a irritação tomava conta das pessoas. Por conta disso, pensou-se em pedir auxílio ao governo. Mas o simples fato de promover uma reunião poderia ser considerado conspiração e a hipótese de solicitar ajuda foi logo descartada. Muitas armadilhas foram desenvolvidas e muitos venenos foram aplicados sem que se notasse êxito. As pessoas já se viam obrigadas a adaptar-se à situação, quando os coaxos dos sapos sobrevieram e as coisas deram sinais de melhora.
O antigo comércio de Zé Dionísio reabriu, transformado em bar. Era lá, ironicamente, que Aurélio gastava agora a maior parte do tempo. Em geral, era atendido por Fábio – um garoto muito risonho que parecia se compadecer de seu alcoolismo decadente e tentava a todo custo animá-lo a mudar de vida. Pouca gente freqüentava o lugar, mas mesmo assim a música era de ensurdecer, dia e noite. O canto esquerdo do balcão, junto a uma pilha de armadilhas pega-mosca, era o sítio favorito de Aurélio. Sorvendo aguardente por entre os espaços dos dentes sujos, ele remoía a traição da esposa buscando justificativas que pudessem dar paz à sua alma. Bastava embriagar-se para cair em pranto. Contudo, pior era seu sofrimento aos fins de tarde, quando Boca de Cabelo, o dono do bar, chegava. Era um tipo grandalhão, dono de espessa barba negra e que, em seu cinismo manifesto, regozijava-se em despejar sobre ele toda sorte de zombarias e provocações. Aurélio nunca reagia, por mais que lhe doesse a agressão. Para ele, era como estar cumprindo um castigo merecido e, afinal, encarar Boca de Cabelo não era mesmo tarefa fácil.
Atravessando um meio-dia ardente, no mês em que os capirotos aproveitam o asfalto para fritar serpentes, Aurélio chegou até o bar. Tinha vendido um congelador e estava decidido a tomar umas cervejas para variar. Da porta, porém, estancou e assistiu à humilhante demissão de Fábio, protagonizada pelo truculento Boca de Cabelo. Sabia que Fábio não tinha parentes que pudessem ajudá-lo, nem lugar para onde pudesse ir. Consternado, atravessou a rua e aguardou a saída do rapaz sob a sombra de um poste. Assim que o viu tratou de convidá-lo a pernoitar em sua casa. O garoto aceitou sem hesitar e os dois seguiram atravessando as pinguelas da Rua da Vala. Num lampejo súbito, Aurélio animou-se. Queria reabrir a sorveteria e recomeçar a vida, contando com a ajuda de Fábio. De fato, resolveram consolidar um compromisso de auxílio mútuo e seguiram abraçados pela rua dos Turcos, sonhando dias melhores.
Na porta de entrada da casa, entretanto, estava Catinha. Indizivelmente bela, mantinha-se grudada à grade do portão com os olhos muito abertos e brilhantes. Durante algum tempo permaneceu calada, como se esperasse uma reação de Aurélio. Ele, por seu turno, trocou um olhar de grave cumplicidade com Fábio e tentou passar ao largo da ex-mulher. Inútil. Catinha atirou-se sobre ele, chorando copiosamente o seu amargo arrependimento. Dizendo-se preocupado com novos vexames, Aurélio pediu ao garoto que o aguardasse no jardim e conduziu a mulher para o interior da casa. Os dois conversaram horas a fio, enquanto Fábio com o apetite que lhe era peculiar comia uma manga após outra. Por fim, Aurélio chamou-o e, agarrado a Catinha, comunicou sua decisão de voltar a viver com ela. O garoto, acreditando que Aurélio declinaria da proposta que lhe havia feito, exalou um ar desconsolado. Aurélio, todavia, fez questão de manter de pé sua palavra e confirmou Fábio como seu fiel ajudante nos negócios da Azul Anil.
A alegria parecia iluminar a velha casa. Aurélio ordenou que Fábio matasse um bode e dois patos e preparou, ele mesmo, a lauta refeição comemorativa. Beberam uma aguardente violácea feita de mandioca, dançaram sobre os ossos descarnados do banquete e sucumbiram ao sono profundo imposto pelos corpos extenuados. A música brega atingia volumes ensurdecedores anunciando que a vida havia recuperado o sentido para eles.
Os comentários escabrosos dos vizinhos retomariam atividade, agora em escala industrial. Só se falava “lunado” e sua “esposa chifreira”. Ninguém podia aceitar que o sujeito reatasse uma relação tão violentamente destruída pelo adultério. “Grande é o castigo do corno!”, dizia Bartô. “Desavergonhada!”, repetia Dona Otília. O sacerdote tentou aquietar as fiéis mais revoltadas e chegou a fazer sermões sobre matrimônio, arrependimento e perdão. Mas isso de pouco resolveu. Consideravam a bela Catinha “mais indigna e repulsiva que as putas do cabaré”.
Sem se ocupar com as maledicências, o casal arregaçou as mangas e retomou o negócio da sorveteria, sempre com a colaboração irrestrita de Fábio. Aurélio tanto fez que arrumou emprego nas centrais elétricas do governo e voltou a sonhar com uma vida tranqüila e segura ao lado da esposa. Estava mais confiante do que nunca. Em pouco tempo, reformou a casa e ampliou a sorveteria, que finalmente passara a dar lucro, graças ao asfaltamento da rua. Os vizinhos, mantidos à necessária distância, não importunavam tanto. Comentários maldosos só chegavam aos ouvidos de Aurélio através de um ou outro bêbado desabusado. Mas ele já não ligava. O sacerdote, que voltou a freqüentar-lhe a casa, falava da necessidade de filhos no casamento e aquelas coisas que sempre falava quando, por instantes, conseguia ficar sem comer ou beber. Certo é que Aurélio voltou a sonhar com o herdeiro fabuloso. Numa quinta à noite, sentindo a vida estabilizada, confidenciou a Catinha o seu renovado desejo. A reação da mulher superou suas expectativas, fazendo com que vivessem momentos de intensa alegria. Antes de adormecer, já na sexta-feira, Aurélio teve a idéia: faria uso das férias que estavam vencendo e proporcionaria uma viagem de lua-de-mel para a esposa, a fim de gerar o filho desejado. Iriam de ônibus para o interior e Fábio ficaria tomando conta de tudo. Era perfeito. Seria uma grande surpresa.
Oito dias depois, muito animado, assinou as férias, passou no banco e voltou pra casa, já com as passagens no bolso. Mal podia esperar para ver a reação da esposa. Esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro, cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas, e atravessou a rua dos Turcos sem tocar os pés no chão. Como a sorveteria estivesse fechada, voou para a cozinha a fim de surpreender a mulher. E surpresa foi o que teve ao encontrar Catinha sorvendo com gemidos de êxtase e boca gulosa as últimas gotas de sêmen do pênis de Fábio. Entorpecido pelo gozo, o garoto não percebeu a aproximação de Aurélio, que com uma cadeira desferiu-lhe violento golpe. Catinha, em seminudez, correu para a rua aos berros de “não me mata, não me mata...”, despertando a atenção das comadres mais e, desta vez, até das menos mexeriqueiras. Aurélio demorou a segui-la e quando o fez, percebeu que não iria alcançá-la. Incrédulo e desesperado, esfregava incessantemente as mãos no rosto sem saber que atitude tomar até que, diante da pequena multidão que se formara, subiu em um poste e tentou agarrar-se aos fios eletrificados. A descarga, porém, atirou-o ao chão. Com os olhos pregados no zênite, Aurélio pode ouvir, segundos antes de desfalecer, a voz de Bartô a repetir: “Grande é o castigo do corno!”.
Meses se passaram até que ele pudesse deixar o hospital. Tetraplégico, foi levado de volta à casa, pela própria Catinha que, sem nenhum rodeio confessou-lhe estar grávida do jovem amante. A raiva que sentiu pela traição era menor que a decepção de não ser ele a gerar o herdeiro. Aprisionado no próprio corpo, Aurélio não conseguia sequer articular palavra. Sua percepção do mundo e sua relação com ele reduziu-se a ver e ouvir. Paralisado, veria Fábio assumir a casa, dominar a mulher e executar transformações no imóvel, que ele jamais aprovaria. O menino, batizado com o nome de Fábio Francisco, ganhou o apelido de Chicó e desde cedo, se envolveu em inúmeras brigas e confusões por conta do aviltante tratamento que recebia dos colegas e vizinhos. Marginalizado e invariavelmente espancado pelo pai biológico, não tardou a delinqüir e a freqüentar institutos correcionais. O primeiro deles, logo após o golpe, quando foi formado um Comitê de Governo, responsável por conduzir a chamada contra-revolução. Na prática, era o esforço para reestruturar as antigas bases sócio-econômicas, garantindo os privilégios da burguesia, dos latifundiários e principalmente do capital internacional. Epidemias, fome e perseguição política marcariam o período. Por volta dos 20 anos, mais ou menos quando o Comitê criou o D.A.P.U. – polícia política responsável pela repressão ao inimigos do Regime –, Chicó juntou os pertences numa trouxa e fugiu com um circo de lona velha. Vitimado pela dengue, com o corpo em febre e a alma enregelada, deixava para trás a desleixada mãe que, em companhia de Fábio, manteria vivo o fantasmagórico Aurélio, pelo resto de sua triste vida. Levou consigo uma garrafa de aguardente, um rádio e a inexorável companhia das músicas sertanejas.

Monday, May 16, 2011

O LIVRO DE AREIA



Jorge Luis Borges


... Thy rope of sands ...


George Herbert (1593-1623)




A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geometrico, o melhor modo de iniciar meu relato.




Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.


Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.


Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.


- Vendo bíblias - disse.


Não sem pedantismo respondi-lhe:


- Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente biblias o que me falta.


Ao fim de um silêncio respondeu:


- Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.






Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.


- Será do século dezenove - observei.


- Não sei. Não soube nunca - foi a resposta.


Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.


Foi então que o desconhecido disse:


- Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.


Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.


Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:


- Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?


- Não - replicou.


Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:


- Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.


Pediu-me que procurasse a primeira folha.


Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.


- Agora procure o final.


Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:


- Isto não pode ser.


Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:






- Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.


Depois, como se pensasse em voz alta:


- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.


Suas considerações me irritaram. Perguntei:


- O senhor é religioso, sem dúvida?


- Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.


Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.


- E de Robbie Burns - corrigiu.


Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:


- O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?


- Não. Ofereço-o ao senhor - replicou e fixou uma soma elevada.


Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.


- Proponho-lhe uma troca - disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.


- A black letter Wiclif! - murmurou.


Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.


- Trato feito - disse.


Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.






Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.


Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.


Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.


Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.


O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.


Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.


Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.


Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela Rua México.














• Tradução de Ligia Morrone Averbuck

Wednesday, March 02, 2011

BÁRBARA



(Da Série Influências) 




"O homem que se extraviar 
do caminho da doutrina, 
terá por morada a assembléia 
dos gigantes." 
- Provérbios, XXI; 16. 
  

            Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava. Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente. Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu corpo, se avolumando à medida que se ampliava sua ambição. Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam importado os sacrifícios que fiz para lhe contentar a mórbida mania. 
    Quase da mesma idade, fomos companheiros inseparáveis na meninice, namorados, noivos e, um dia, nos casamos. Ou melhor, agora posso confessar que não passamos de simples companheiros. 
    Enquanto me perdurou a natural inconseqüência da infância, não sofri com as suas esquisitices. Bárbara era menina franzina e não fazia mal que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei, subindo a árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriam frutas sem sabor ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era obrigado agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me a cabeça entre as mãos e sentia-se feliz em acariciar-me a face intumescida, como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado. 
    Às vezes relutava em aquiescer às suas exigências, vendo-a engordar incessantemente. Entretanto, não durava muito a minha indecisão. Vencia-me a insistência do seu olhar, que transformava os mais insignificantes pedidos numa ordem formal. (Que ternura lhe vinha aos olhos, que ar convincente o dela ao me fazer tão extravagantes solicitações!)
    Houve tempo - sim, houve - em que me fiz duro e ameacei abandoná-la ao primeiro pedido que recebesse. 
    Até certo ponto, minha advertência produziu o efeito desejado. Bárbara se refugiou num mutismo agressivo e se recusava a comer ou conversar comigo. Fugia à minha presença, escondendo-se no quintal e contaminava o ambiente com uma tristeza que me angustiava. Definhava-lhe o corpo, enquanto lhe crescia assustadoramente o ventre. 
    Desconfiado de que a ausência de pedidos em minha mulher poderia favorecer uma nova espécie de fenômeno, apavorei-me. O médico me tranqüilizou. Aquela barriga imensa prenunciava apenas um filho. 
    Ingênuas esperanças fizeram-me acreditar que o nascimento da criança eliminasse de vez as estranhas manias de Bárbara. E suspeitando que a sua magreza e palidez fossem prenúncio de grave moléstia, tive medo que, adoecendo, lhe morresse o filho no ventre. Antes que tal acontecesse, lhe implorei que pedisse algo. 
    Pediu o oceano. 
    Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando longa viagem ao litoral. Mas, frente ao mar, atemorizei-me com o seu tamanho. Tive receio de que a minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido, e lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano. 
    No regresso, quis desculpar meu procedimento, porém ela não me prestou atenção. Sofregamente, tomou-me o vidro das mãos e ficou a olhar, maravilhada, o líquido que ele continha. Não mais o largou. Dormia com a garrafinha entre os braços e, quando acordada, colocava-o contra a luz, provava um pouco da água. Entrementes, engordava. 
    Momentaneamente despreocupei-me da exagerada gordura de Bárbara. As minhas apreensões voltavam-se agora para o seu ventre a dilatar-se de forma assustadora. A tal extremo se lhe dilatou que, apesar da compacta massa de banha que lhe cobria o corpo, ela ficava escondida por trás de colossal barriga. Receoso de que dali saísse um gigante, imaginava como seria terrível viver ao lado de uma mulher gordíssima e um filho monstruoso, que poderia ainda herdar da mãe a obsessão de pedir as coisas. 
    Para meu desapontamento, nasceu um ser raquítico e feio, pesando um quilo. 
    Desde os primeiros instantes, Bárbara o repeliu. Não por ser miúdo e disforme, mas apenas por não o ter encomendado. 
    A insensibilidade da mãe, indiferente ao pranto e à fome do menino, obrigou-me a criá-lo no colo. Enquanto ele chorava por alimento, ela se negava a entregar-lhe os seios volumosos, e cheios de leite.
    Quando Bárbara se cansou da água do mar, pediu-me um baobá, plantado no terreno ao lado do nosso. De madrugada, após certificar-me de que o garoto dormia tranquilamente, pulei o muro divisório com o quintal do vizinho e arranquei um galho da árvore. 
    Ao regressar a casa, não esperei que amanhecesse par entregar o presente à minha mulher. Acordei-a, chamando baixinho pelo seu nome. Abriu os olhos, sorridente, adivinhando o motivo por que fora acordada: 
    - Onde esta? 
    - Aqui. E lhe exibi a mão, que trazia oculta nas costas. 
    - Idiota! gritou, cuspindo no meu rosto. - Não lhe pedi um galho - E virou para o canto, sem me dar tempo de explicar que o baobá era demasiado frondoso, medindo cerca de dez metros de altura. 
    Dias depois, como o dono do imóvel recusava-se vender a árvore separadamente, tive que adquirir toda a propriedade por um preço exorbitante. 
    Fechado o negócio, contratei o serviço de alguns homens que, munidos de picaretas e de um guindaste, arrancaram o baobá do solo e o estenderam no chão. 
    Feliz e saltitante, lembrando uma colegial, Bárbara passava as horas passeando sobre o grosso tronco. Nele também desenhava figuras, escrevia nomes. Encontrei o meu debaixo de um coração, o que muito me comoveu. Este foi, no entanto, o único gesto de carinho que dela recebi. Alheia à gratidão com que eu recebera a sua lembrança, assistiu ao murchar das folhas e, ao ver seco o baobá, desinteressou-se dele. 
    Estava terrivelmente gorda. Tentei afastá-la da obsessão, levando-a ao cinema, aos campos de futebol. (O menino tinha que ser carregado nos braços, pois anos após o seu nascimento continuava do mesmo tamanho, sem crescer uma polegada.) A primeira idéia que lhe ocorria, nessas ocasiões, era pedir a máquina de projeção ou a bola, com a qual se entretinham os jogadores. Fazia-me interromper, sob o protesto dos assistentes, a sessão ou a partida, a fim de lhe satisfazer a vontade. 
    Muito tarde verifiquei a inutilidade dos meus esforços para modificar o comportamento de Bárbara. Jamais compreenderia o meu amor e engordaria sempre. 
    Deixei que agisse como bem entendesse e aguardei resignadamente novos pedidos. Seriam os últimos. Já gastara uma fortuna com as suas excentricidades.
    Afetuosamente, chegou-se para mim, uma tarde, e me alisou os cabelos. 
Apanhado de surpresa, não atinei de imediato com o motivo do seu procedimento. Ela mesmo se encarregou de mostrar a razão: 
    - Seria tão feliz, se possuísse um navio! 
    - Mas ficaremos pobres, querida. Não teremos com que comprar alimentos e o garoto morrerá de fome. 
    - Não importa o garoto, teremos um navio, que é a coisa mais bonita do mundo. 
    Irritado, não pude achar graça nas suas palavras. Como poderia saber da beleza de um barco, se nunca tinha visto um e se conhecia o mar somente através de uma garrafa?! 
    Contive a raiva e novamente embarquei para o litoral. Dentre os transatlânticos ancorados no porto, escolhi o maior. Mandei que o desmontassem e o fiz transportar à nossa cidade. 
    Voltava desolado. No último carro de uma das numerosas composições que conduziam partes do navio, meu filho olhava-me inquieto, procurando compreender a razão de tantos e inúteis apitos de trem. 
    Bárbara, avisada por telegrama, esperava-nos na gare da estação. Recebeu-nos alegremente e até dirigiu um gracejo ao pequeno. 
    Numa área extensa, formada por vários lotes, Bárbara acompanhou os menores detalhes da montagem da nave. Eu permaneci sentado no chão, aborrecido e triste. Ora olhava o menino, que talvez nunca chegasse a caminhar com as suas perninhas, ora o corpo de minha mulher que, de tão gordo, vários homens, dando as mãos, uns aos outros, não conseguiriam abraçá-lo. 
    Montado o barco, ela se transferiu para lá e não mais desceu à terra. Passava os dias e as noites no convés, inteiramente abstraída de tudo que não se relacionasse com a nau. 
    O dinheiro escasso, desde a compra do navio, logo se esgotou. Veio a fome, o guri esperneava, rolava na relva, enchia a boca de terra. Já não me tocava tanto o choro de meu filho. Trazia os olhos dirigidos para minha esposa, esperando que emagrecesse à falta de alimentação. 
    Não emagreceu. Pelo contrário, adquiriu mais algumas dezenas de quilos. A sua excessiva obesidade não lhe permitia entrar nos beliches e os seus passeios se limitavam ao tombadilho, onde se locomovia com dificuldade. 
    Eu ficava junto ao menino e, se conseguia burlar a vigilância de minha mulher, roubava pedaços de madeira ou ferro do transatlântico e trocava-os por alimento.
    Vi Bárbara, uma noite, olhando fixamente o céu. Quando descobri que dirigia os olhos para a lua, larguei o garoto no chão e subi depressa até o lugar em que ela se encontrava. Procurei, com os melhores argumentos, desviar-lhe a atenção. Em seguida, percebendo a inutilidade das minhas palavras, tentei puxá-la pelos braços. Também não adiantou. O seu corpo era pesado demais para que eu conseguisse arrastá-lo. 
    Desorientado, sem saber como proceder, encostei-me à amurada. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o derradeiro pedido. Esperei que o fizesse. Ninguém mais a conteria.
    Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu a lua, porém uma minúscula estrela, quase invisível a seu lado. Fui buscá-la.




MURILO RUBIÃO

Tira-gosto