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Thursday, October 20, 2011

NÃO SEI DANÇAR


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Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás...

Esta foi açafata...

- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex- prefeito municipal:
Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!

A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Pra crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão de Seridó é o melhor do mundo?... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!


MANUEL BANDEIRA [Petrópolis, 1925]

Saturday, February 19, 2011

A BELA QUE FERE






1

faz
como o vento
que dança

traz
um balanço
de jazz
& balança
a anca voraz
de potranca

fugaz
calêndula
sob a trança
que ondula
o perfume
flutua
& me aperta
o
na garganta

2

veneno mordaz
que encanta

a um tempo
anima & desfaz
a esperança

veraz
o branco
sorriso
que brilha
& o lume
de espelhos
(seus olhos)
engenhos

aliás
armadilhas


3

veloz
ela passa

me deixa
sem pulso
sem paz
& me caça

me agita
me fere
me ganha
me engana
& disfarça

tão perto
do toque
no louro
dos pêlos
tão longe
do beijo
a seda
da pele
se afasta

4

feraz
ilusão
que ameaça
chasselás
que trama
& enlaça
porque me atas
à fome
agraz
& nefasta?

rainha
de copas
que ginga
dama
de espadas
que escapa
me deixa
à míngua
sem vinho
& sem graspa

5

me olha
feroz
me atiça
me ferve
destrói
minha taça

liquefaz
enfim
meu calor
minha verve
&
branda
(longe
de mim)
felina
feita
de neve
menina
brinca
na bruma
leve









Poema e arte: Marcello Chalvinski

Tira-gosto